PostHeaderIcon Itinerários de um jovem cinéfilo (sobre o autor)

Até onde me lembro, gosto de cinema desde que me entendo por gente. No entanto, a chamada “sétima arte” adquiriu um outro sentido para mim, deixando de ser puro entretenimento e tornado-se verdadeira paixão no ano de 1998. Aliás, é possível estabelecer pelo menos três divisores de água em minha relação com o cinema até então. Mencioná-los-ei um a um, para que os leitores deste blog possam compreender melhor quem é este indivíduo que vos escreve.

Como dito, o primeiro divisor de águas data de 1998. Era eu então um pré-adolescente (13/14 anos) que se deslumbrou com um dos filmes mais ambiciosos de todos os tempos: “Titanic”, de James Cameron. Ora, é inegável tratar-se dum filme piegas, com aquela história de amor melosa entre os protagonistas Rose (Kate Winslet) e Jack (Leonardo DiCaprio, num evidente desperdício de potencial) ganhando mais espaço do que deveria. No entanto, parecem-me inegáveis também as qualidades do filme. Os efeitos especiais são soberbos e (aqui temos o aspecto mais importante), não possuem fim em si mesmos, mas constituem meios privilegiados para se alcançar um fim, qual seja o de contar uma história (aparentemente o ainda em cartaz “Avatar” do mesmo diretor exalta a forma em detrimento do conteúdo – não o assisti e nem pretendo!). Além disso, acredito que o filme funciona; envolve, comove, conta – em geral – com boas atuações. É sem sombra de dúvida o típico produto Hollywoodiano construído para arrecadar caminhões de dinheiro, fazendo uso de clichês, cenas melosas, trilha sonora pegajosa (Céline Dion), mas não deixa de ser um grande filme (não só em duração, mas também em qualidade) desde que (óbvio!), não se procure nele um filme de arte.

Pois bem, neste mesmo ano, a paixão por este filme me fez descobrir e tornar-me assinante da revista SET (tal condição duraria alguns anos, até que a momentânea escassez de filmes novos que me interessassem, somada a compreensível, porém irritante ênfase da revista em obras de maior apelo comercial me fizeram desistir dela, tendo sido a gota d’agua o dia em que recebi um exemplar tendo Gisele Bündchen na capa). A revista me proporcionou algumas leituras bastante marcantes, merecendo destaque a matéria de capa do filme “Clube da Luta”. Foi também nesta época em que adquiri o costume de ler as críticas sobre filmes na revista Veja, inclusive edições antigas que encontrei em casa; passei então a fazer recortes de reportagens sobre cinema e junta-los numa pasta (a qual ainda tenho – na verdade são duas – e voltei a olhar recentemente, após um bom tempo no esquecimento). Há ainda um outro hábito então adquirido (e hoje abandonado): tornei-me expectador dum programa sobre cinema chamado “Cinema 11” (TV Universitária UFPE, canal 11 em Recife). Um programa um tanto rústico, eu diria, e que abrangia exclusivamente (até onde me lembro) o cinema Hollywoodiano. Apesar de ter perdido o costume de acompanhá-lo, acredito ter assistido a pelo menos um programa ano passado, só o final se não me engano (sim, o programa ainda está no ar desde 1998 ou antes, pois não sei em que ano estreou); vi o quadro sobre personalidades que se destacaram na sétima arte e a homenageada da vez era Meryl Streep.

O segundo divisor de águas em meu itinerário cinematográfico se deu em janeiro de 2006, lembro-me como se fosse hoje. Lendo um jornal soube de um festival de cinema sueco no cine-teatro do Apolo, com entrada franca. Como eram férias, arrastei minha mãe para lá. A programação incluía filmes suecos recentes de diretores (até onde sei) pouco conhecidos, e três clássicos do mestre do cinema sueco Ingmar Bergman. Não lembro se minha mãe já havia me falado dele, mas o fato é que se trata de um de seus preferidos. Para não tornar o texto demasiado longo, deixarei maiores comentários sobre o festival para uma próxima postagem, pois tal fato merece um texto a parte. O que há de pertinente a se dizer sobre o evento é que ele marcou o início de meu contato não só com o cinema de Bergman, mas com o cinema europeu, de cunho predominantemente autoral. Após um dos dias do festival, persuadi minha mãe a acompanhar-me à Livraria Cultura, a qual fica próxima do cine-teatro e ela logo se encantou com a variedade de produtos do estabelecimento. Resultado: adquiriu um (ou teriam sido dois?) box(es) de Bergman, um do diretor alemão Werner Herzog e um do polonês Andrzej Wajda. Estava então formada uma base para vôos muitos mais altos deste que vos escreve no cinema europeu e meu afastamento em relação a Hollywood se tornou radical (mas não absoluto).

Por fim, o terceiro divisor de águas foi meu estudo de teoria do cinema. Sinceramente, não lembro bem quando este interesse começou. Certamente li o ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” do filósofo alemão Walter Benjamin antes de 2009 (em 2008, creio, mas talvez 2007) e fiz minhas primeiras incursões no livro “A imagem autônoma”, do filósofo pernambucano Evaldo Coutinho em 2008, mas meus estudos mais sistemáticos sobre teoria do cinema (bem como o início do estudo da história da sétima arte) se deram em no primeiro semestre de 2009, sobretudo em meados daquele ano. Escolhi como tema de meu TCC (trabalho de conclusão de curso) da especialização em “História das artes e das religiões” estabelecer uma comparação entre as perspectivas filosóficas do cinema desenvolvidas pelos dois pensadores acima citados. Isso me levou a estudar a história do cinema, de seus primórdios em fins do século XIX até final da década de 1920 do século passado. Assim, pude aprofundar-me em Chaplin e conhecer cineastas como Murnau, Eisenstein, Pudovkin, Dreyer, Flaherty, Bunuel e Jean Epstein. No semestre seguinte tive a oportunidade de cursar uma disciplina na recém inaugurada graduação de cinema (UFPE) intitulada “Cinema e construção do tempo”. Nela conheci o cineasta francês (integrante da Nouvelle Vague) Eric Rohmer, que faleceu a pouco. E Ouvi falar pela primeira vez em Tarkovski. Como o segundo exercício da disciplina consistia em elaborar um argumento para um curta-metragem (sendo que eu tinha costume de escrever textos dissertativos diversos, mas nunca havia me arriscado no âmbito da ficção), ao redigi-lo minha visão sobre muita coisa mudou. Para começar, adquiri certa obsessão pela composição dos personagens, algo difícil, mas deveras prazeroso de se fazer. Atinei para a questão do tempo da narrativa (“Cidade de Deus” é rápido, tem a chamada linguagem de vídeo-clipe, ao passado que “2001 – uma odisséia no espaço” é leeentooo); por fim, passei a reparar na composição dos planos (a câmera posicionada longe dos personagens permitiria uma maior liberdade de visão ao espectador, ao passo que no close o cineasta estaria impondo sua visão). Tais temas também deverão ser desenvolvidos em textos específicos, sobretudo este último, disparado o mais polêmico dos três.

Cumprida a missão de relatar aspectos fundamentais de meu itinerário cinematográfico de maneira esclarecedora, porém não muito demorada, passarei à metodologia e aos objetivos do blog, para finalmente adentrarmos na discussão sobre filmes.





Alberto Bezerra de Abreu, março de 2010

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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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