domingo, 25 de julho de 2010

PostHeaderIcon Mary e Max: uma improvável amizade como alento de dois solitários








Não fosse uma amiga eu teria perdido o excelente “Tudo por dar certo” de Woody Allen (em breve resenhá-lo-ei) e de quebra também teria perdido o interessante “Mary e Max” (resolvi assisti-lo após ver seu trailer antes da exibição do filme de Allen). Saber que a animação é baseada numa história real tornou-a ainda mais interessante a meus olhos, mas devo confessar que as expectativas do trailer (sobretudo em relação ao humor) não se concretizaram, talvez por eu tê-lo assistido menos de uma semana após a já elogiada comédia de Allen que é engraçadíssima (compara-las é covardia).
O início de “Mary e Max” é soberbo: mostra-se algumas casas de uma cidade australiana na qual reside a pequena Mary Daisy Dinkle, então com 8 anos de idade. O destaque vai para os pequenos detalhes, cuidadosamente pensados e exibidos (bola de futebol americano no telhado, patim esquecido no jardim, cueca no varal), bem como para a excelência da animação, a qual se refere não só aos objetos, mas também as personagens. Quando o filme começa a expor seu enredo, passamos a conhecer a degradada família de Mary: seu pai trabalhava pondo os cordões nos saquinhos de chá e preferia passar seu tempo livre na companhia de animais empalhados do que com sua filha; a mãe, por sua vez, é o perfeito arquétipo da “baranga”, fumando constantemente e entupindo-se de chá de xerém, exibindo sempre “bobs” na cabeça e um batom de um vermelho intenso nos lábios e praticando furto de objetos que esconde dentro do vestido que usa. Como a garota não possui amigos, sua maior diversão é comer doce de leite assistindo a seu desenho favorito na companhia de seu galo (!) de estimação.
Certo dia, folheando uma lista telefônica dos EUA e surpreendendo-se com a extravagância dos sobrenomes ali expostos, a garota é obrigada a sair da loja as pressas, pois o furto da sua mãe fora descoberto e esta puxa sua cria o mais rápido possível (não antes que ela possa rasgar um pequeno pedaço da lista telefônica com o endereço de um certo Max Jerry Horowitz, de 44 anos).
Não sabendo bem o que escrever, a garota resolve perguntar de onde vêm os bebês nos EUA (na Austrália eles eram encontrados dentro de canecos de cerveja, como lhe dissera um adulto...); em delicioso e ingênuo diletantismo criativo infantil a garota cogita que nos EUA os bebês sejam encontrados dentro de latas de Coca-Cola, mas logo descarta a idéia, afirmando para si mesma que eles não passariam pela pequena abertura das latas. A tal questionamento, soma informações pessoais suas, afinal, escrevia para um completo estranho. Anexa ainda uma barra de chocolate, sem imaginar que seu futuro amigo é um grande apreciador de tal alimento (ele inventara o “cachorro-quente de chocolate”).
Saímos então de uma ensolarada, mas não exatamente bela cidade australiana e vemos uma Nova York cinzenta, sombria e hostil. Max reside num velho apartamento, tendo companhia diversos animais bizarros, como um peixinho de aquário (no decorrer do filme ele morre, sendo substituído por outro e este por outro, cada um deles tendo o mesmo nome, acrescentado-se a ele um número a mais), um papagaio e um gato caolho. Sua forma de lidar com situações novas (que para ele são sinônimos de problema) é peculiar e cômica, se vista de fora: subir num tamborete e tremer de pavor. Suas consultas a um psicanalista, participação num grupo de ajuda de comedores compulsivos e a existência de um amigo imaginário só reforçam o estereotipo (cativante, diga-se de passagem) de uma alma extravagante a atormentada.
Nasce então uma improvável amizade entre os dois solitários, alimentada por cartas através das quais conhecemos em detalhes a vida de cada um deles. Até que algo põe fim a tal amizade, que será retomada em termos não exatamente otimistas no final.
A caracterização dos personagens é excelente, não só em termos de personalidade, mas de expressividade de suas feições e gestos (superiores a interpretações de muitos atores profissionais); em que pese o humor de passagens como a existência de um caderninho no qual Max desenha expressões faciais com as legendas “zangado” e “alegre” (para assim tentar contornar sua incapacidade de “ler” a expressão facial das pessoas) e o vizinho de Mary que perdera as duas pernas na guerra (devoradas por piranhas), tendo adquirido fobia a sair de casa (toda vez que tentava faze-lo era vítima de algo que realmente punha em risco sua vida), tais momentos apenas amenizam, mas não suprimem o tom fortemente melancólico da obra. Mesmo constituindo-se numa bela ode à amizade e não optando por um final propriamente pessimista, o filme não aposta num ingênuo (e pouco convincente) desfecho no qual todos (ou ao menos os bons, se é que isso existe) viveram felizes para sempre.

Alberto Bezerra de Abreu, 24/07/2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010

PostHeaderIcon Chico Xavier – o filme: sobriedade e sentimentalismo em doses adequadas






Pela primeira vez em 2010 aderi ao circuito cinematográfico comercial e fui ao “xopis” Boa Vista assistir a “Chico Xavier” com a pior das expectativas possíveis, em virtude de se tratar de um filme da Globo Filmes. No entanto, surpreendi-me positivamente (a expectativa – boa, evidentemente – constitui a matéria-prima fundamental da decepção, como já ensinara Schopenhauer); apesar de acessível e clichê, a obra não se perde em infinidade de lugares-comuns, não apela ao sentimentalismo fácil (certamente há cenas que talvez arranquem lágrimas dos mais sensíveis, mas não me pareceu que sejam propriamente apelativas) e, acima de tudo, o filme não é tão “novelinha” quanto outros realizados pela mesma produtora. O fato de os personagens principais serem todos interpretados por atores “globais” certamente incomoda um pouco aqueles que como eu buscam se afastar de um cinema eminentemente comercial, mas, em que pesem algumas atuações um tanto caricatas (Giulia Gam e Cássio Gabus Mendes – este último num papel que se revela muito mais breve do que indicava o trailer), os “globais” dão conta do recado a contento daqueles um pouco mais exigentes. Nelson Xavier interpreta um Chico maduro de maneira sóbria, sem excessos que talvez surgissem na interpretação de algum outro ator; Pedro Paulo Rangel é outro ponto alto em termos de atuação, com seu humor característico. No entanto, a grande atuação de “Chico Xavier” fica por conta de Tony Ramos, mas não na obra como um todo e sim especificamente em duas cenas finais: aquela onde lhe é mostrada a carta de seu filho, psicografada por Chico durante o programa de televisão dirigido pelo personagem de Ramos; a forma como este “engasga” (dá uma parada naquilo que estava dizendo, em virtude de ter sido tomado pela emoção) é soberba; a outra cena é a do julgamento, onde afirma ser ateu, mas pede a absolvição daquele que, involuntariamente tirou a vida de seu filho.
O filme investe numa dupla narrativa: Chico velho e Chico jovem (criança e adulto) retratados de forma alternada, sem, contudo, acarretar nenhum tipo de complexidade na narração (trata-se de uma obra acessível, destinada ao chamado “grande público”). Não deixa de haver momentos que me pareceram pretensão artística: o primeiro deles se dá justamente na cena inicial, na qual vemos gotas de um liquido sendo pingadas; a câmera está devera próxima do objeto que pinga as gotas e só conseguimos distinguir que trata-se de Chico pingando colírio em seus olhos – já estando velho – a medida que a câmera vai se afastando (remeteu-me a cena inicial de “Clube da Luta”); já a outra cena com supostas pretensões artísticas ficarei devendo, pois não lembro qual seja (assisti ao filme apenas uma vez antes de resenha-lo). Como não poderia deixar de ser, há clichês, sendo dois deles mais nítidos: quando o personagem de Ramos pede a Chico que psicografe ao vivo durante o programa de televisão é fácil deduzir que a carta será do filho daquele. E o final nada tem de abrupto: sabemos bem “o filme está acabando” a medida que a película de aproxima de seu final.
Um aspecto insuspeito a ser destacado é a ironia de Chico mostrada no filme; esta não aparece nele enquanto criança ou jovem, mas aparece no Chico maduro, sobretudo na cena da entrevista. Isto remete a outra coisa, a qual, curiosamente, foi o que me fez ter vontade de escrever sobre o filme: durante seus créditos finais são mostrados trechos da entrevista da participação de Chico no programa de televisão (o Chico real) e podemos constatar que algumas das falas do personagem no filme durante a entrevista são reproduções exatas daquilo que Chico falara na vida real (como sua fala não condenatória do sexo e a reza do pai nosso por ele iniciada), ao passo que outra de suas falas foi adaptada numa cena que mostrava o acontecimento em “tempo real” (trata-se do episodio em que, durante uma turbulência no avião, Chico teria entrado em estado de pânico, tanto quanto os demais passageiros, sendo censurado por seu espírito guia, Emanuel, a quem, no entanto, ele não dera ouvidos). Este fato é demasiado importante, pois expressa que em pelo menos parte do filme procurou-se ser o mais fiel possível a realidade histórica (aqui poderíamos entrar na espinhosa questão de até onde se pode admitir a licença poética quando se trata de adaptar uma obra baseada em fatos reais – pessoalmente acho bastante problemático e arriscado misturar realidade e ficção, sendo partidário de documentários no que concerne a retratar fatos/ personagens históricos, mas não sou ortodoxo quanto a isso). Cabe salientar que justamente nestes trechos de falas do Chico real nos créditos finais podemos notar ainda mais que no personagem cinematográfico traços de ironia, ainda que esta nunca descambe para o sarcasmo, sendo sempre polida e indicando mais inteligência do que puro escárnio.
Quero passar agora a uma discussão mais pessoal da obra: ela opta por focar na vida e obras do personagem, não se atendo muito a explicitar quais seriam as bases do espiritismo (exceto a questão da caridade e da tolerância – ao contrário de um filme como “Amor além da vida” que, até onde me lembro, se aproxima muito, seja da doutrina espírita, seja da formulação filosófica na qual ela supostamente bebe, mostrando inclusive o além desta vida a qual estamos acostumados). E apesar de não adentrar nestas formulações mais específicas do espiritismo (isto se encontrará nos livros para quem se interessar e pasmem! li a anos atrás um livro espírita chamado “Nosso lar”, o qual me pareceu deveras esclarecedor acerca da perspectiva por eles defendida), o filme aponta para dois aspectos éticos que me deram muito o que pensar: 1) a postura do não aceitar retribuição do favor para si mesmo, mas de pedir para que esta seja repassada para outrem (me remeteu ao filme “Corrente do bem”); 2) o imperativo de quebrar os limites que nós mesmos nos impomos: reclamarmos menos e agirmos mais, como quando vemos escorrer sangue do olho de Chico, em virtude do excesso de trabalho no qual ele se engajou (chegando a cuidar mais dos outros que de si mesmo, a ponto de seus familiares lhe darem o ultimato: “ou você sai dessa casa ou saímos nós”, tendo em vista que durante todo o dia o médium recebia dezenas, quiçá centenas de pessoas em sua residência – que não era só sua).
Em suma, apesar do predomínio de atores globais nos papeis principais o filme não se torna “novelesco” demais nem piegas. No entanto, passa longe de ser um filme artístico, um documentário aprofundado ou um primor do entretenimento que mereça ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro (vencer tal categoria é uma velha meta tupiniquim nunca alcançada...). Parece-me se tratar de um filme de entretenimento com doses de profundidade no âmbito ético. E o que é mais importante, no meu ponto de vista: trata-se de um filme que faz pensar. Ou pelo menos se propõe a isso.

Alberto Bezerra de Abreu 20/04/2010

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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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