quarta-feira, 16 de julho de 2014

PostHeaderIcon 5 filmes de artes marciais que marcaram minha infância

        Embora minha admiração pelo cinema europeu (sobretudo em seu gênero dramático) não tenha findado, comunico aos escassos e estimados leitores deste blog que minha fase cinematográfica atual está voltada aos filmes de arte marcial, devido a minha imersão paulatina no pensamento oriental (sobretudo na milenar tradição chinesa).
            Decidi começar pelo começo, de modo que nesta postagem comentarei filmes sobre artes marciais que marcaram minha infância/pré-adolescência; naquela época eu não possuía apreço especial por filmes deste gênero, mas por filme de ação em geral, os quais classifico em dois grupos:  1) aqueles que mesclam artes marciais com outros tipos de cenas de ação, como troca de tiros com armas de fogo, perseguições de carros/motos e afins (alguns filmes do Van Damme, bem como todos os poucos do Steven Seagal que assisti representam essa categoria); 2) aqueles cuja ação não inclui artes marciais, podendo haver não só perseguição entre veículos motorizados e troca de tiros com armas de fogo, mas em alguns casos luta, sendo estas mais baseadas em força física do que em técnica (“Rambo” com Stallone e “O exterminador do futuro” com Schwarzenegger representam essa categoria). Não são estes filmes de ação em geral que me interessam atualmente, mas os filmes especificamente de artes marciais, onde armas de fogo aparecem apenas secundariamente (geralmente quem as usa são os bandidos), e cujas lutas se baseiam não só em força, mas em técnica, velocidade, versatilidade e inteligência. Contudo, dentro deste gênero há aqueles que privilegiam a estética das lutas (“O grande mestre invencível” com Jackie Chan, por exemplo), os que privilegiam a mensagem em detrimento das lutas (os quatro primeiros episódios da série “Karatê Kid”) e os que mesclam com qualidade ambos os aspectos (“O mestre das armas”, com Jet Li é talvez o melhor exemplo, embora o filme “O tigre e o dragão” também mereça menção). Os três tipos de filmes especificamente de artes marciais me interessam.
            Após esta justificativa do texto, cabe salientar que os filmes abaixo mencionados não estão em ordem de preferência, mas em ordem cronológica invertida (começando do mais recente, finalizando no mais antigo).

Lua sangrenta” (EUA, 1997, de Siu-Hung Leung).
Trata-se dum filme pouco conhecido, cujo protagonista também o é. Conheci a obra mediante indicação do dono da vídeolocadora (ainda no tempo do VHS). A história é bastante simples: um lutador mascarado (Darren Shahlavi) começa a duelar com campeões de diversos estilos de luta e os mata, após vencê-los. O detetive Chuck Baker (Chuck Jeffreys) não consegue dar conta do caso sozinho e recebe ajuda (a contragosto) de quem ele sucedeu no posto, o detetive Ken O’Hara (Gary Daniels). Tive oportunidade de rever o filme recentemente no You Tube (com qualidade baixa), e pude perceber uma coisa: o filme adota uma estrutura (até onde sei iniciada com a série “Máquina mortífera”) de utilizar como protagonistas uma dupla de policiais (um negro e um branco), explorando o humor na relação algo conturbada entre eles (se estranham inicialmente, depois ficam amigos). Contudo, o que me fez gosta bastante do filme na época foi a forma de suas coreografias marciais: são bastante rápidas, acrobáticas (com grandes e diversificados saltos) e criativas (com utilização de objetos cotidianos – armários, bancos, vasos de planta – como armas); na época isso foi uma grande novidade para mim, embora tal artifício já fosse utilizado faz tempo em outros filmes, como os de Jackie Chan. Em suma, para quem busca boas coreografias marciais, sem exigir muito de enredo e atuações, “Lua sangrenta” constitui um filme que vale apena.





Kickboxer – o desafio do dragão” (EUA, 1989, de Mark DiSalle e David Worth).
Jean-Claude Van Damme é provavelmente o único artista marcial ocidental (entre os atores) que consigo apreciar. “Kickboxer – o desafio do dragão” é um de seus dois filmes obrigatórios para qualquer um que aprecie arte marcial. O enredo é o seguinte: Eric Sloane (Dennis Alexio) é campeão de Kickboxing no ocidente e que viaja para a Tailândia para enfrentar o campeão local Tong Po (Michel Qissi). Após levar uma surra e ficar na cadeira de rodas, Eric vê seu irmão mais novo Kurt Sloane (Jean-Claude Van Damme) treinar com um mestre local para derrotar Tong Po.
Há pelo menos três cenas clássicas no filme: 1) logo no início, ao ir buscar gelo para que Eric se preparasse para a luta, Kurt vê Tong Po derrubando o reboco de uma larga pilastra de concreto utilizando apenas chutes (com a canela! típicos do Muay Thai) e joelhadas; 2) no treinamento para enfrentar Tong Po, Kurt é obrigado pelo mestre a chutar com a canela uma bananeira, até derrubá-la (trata-se do treino de calejamento para canela); dói só de olhar; 3) a luta final ocorre em estilo antigo, com ambos os lutadores mergulhando as ataduras que cobrem suas mãos numa substância pegajosa e em seguida em vidro quebrado: assim, cada soco não machuca só pela pancada, mas também provoca cortes.

Um detalhe para os leigos: Eric (como dito acima) lutava Kickboxing, enquanto o estilo de Tong Po é Muay Thai; o primeiro consiste num estilo misto de diferentes artes marciais, enquanto o segundo consiste numa luta típica da Tailândia; os estilos são similares (e freqüentemente confundido pelos leigos), mas não se trata da mesma coisa, tanto é que no filme Tong Po atinge Eric com uma cotovelada, algo permitido no Muay Thai, mas não no Kickboxing (ao menos na época).





O grande dragão branco” (EUA, 1988, de Newt Arnold)
Outro filme com Van Damme obrigatório aos fãs de artes marciais. O personagem Frank Dux (Jean-Claude Van Damme) entra num torneio de artes marciais para honrar seu mestre; embora o conflito de opiniões entre o mestre japonês que inicialmente se recusa e ensinar tudo que sabe ao seu discípulo ocidental (pois a ortodoxia das artes marciais orientais preconizava que as técnicas mais avançadas só deveriam ser transmitidas a familiares) e o interesse de Frank em se tornar o melhor lutador possível para honrar seu mestre e seu amigo (falecido filho do mestre) o fato de o filme apresentar tal maneira de honrá-lo como sendo vencer um torneio me parece algo forçado e mal explicado. Voltarei a isso quando fizer uma resenha específica do filme, comentando também a existência real do protagonista, um militar dos EUA...
Assim como em “Kickboxer, o desafio do dragão”, o protagonista vê uma pessoa querida levar uma surra do vilão do filme e ir parar no hospital, mas ao contrário daquele filme, desta vez a vítima é um amigo, Jackson (Donaldo Gibb). Também é mostrado um rigoroso treinamento pelo qual passa o protagonista, mas há basicamente dois aspectos nos quais “O grande dragão branco” é melhor que o filme supracitado: 1) o contexto do filme é um torneio de artes marciais e não um combate entre dois lutadores, ou seja, vemos no filme em questão diversos lutadores de diferentes estilos (Muay-Thai, Kung-Fu e até Sumô); 2) o vilão Chong Li (Bolo Yeung) consegue ser ainda melhor que Tong-Po (vilão de “Kickboxer, o desafio do dragão”). Aliás, Bolo Yeung merece um parêntese: embora tenha atuado em “Operação Dragão” (1973) com nada menos que Bruce Lee, o conheci através desse filme (provavelmente em sua melhor atuação). Além disso, há uma cena em “O grande dragão branco” na qual o personagem de Bolo diz para o de Van Damme, após este quebrar um tijolo que tijolo não revida, tratando-se duma clara homenagem a frase “tábua não revida”, dita pelo personagem de Bruce Lee em “Operação Dragão”.

Como cenas particularmente marcantes, elejo o golpe no qual Frank abre escala e acerta o testículo do lutador de Sumô (golpe este utilizado pelo personagem Jonhnny Cage no game Mortal Kombat, inspirado no ator belga), bem como a luta final entre Frank (Van Damme) e Chong Li (Bolo), com direito à trapaça que obriga o protagonista a lutar sem enxergar o adversário.




Karatê kid – a hora da verdade” (EUA, 1984, de John G. Avildsen).
Filme notoriamente fraco em termos de movimentos marciais, mas excelente na mensagem que transmite, além de ter como trunfo maior o carisma da dupla Daniel Larusso, mais conhecido como Daniel San (Ralph Macchio) e Sr. Miyagi (Pat Morita). A esse carisma soma-se a empatia transmitida por Macchio, por tratar-se de um jovem comum, magro, inseguro e que mesmo após treinamento não se torna um exímio artista marcial, mas apesar disso, consegue prosperar.

Cenas marcantes são o que não faltam no filme: Miyagi apresentando Daniel às pequenas árvores bonsai; colocando-o para encerar carros, pintar e lixar cerca e posteriormente lhe mostrando que tais atividades foram feitas com movimentos que podem ser utilizados como defesa no karatê; tentativa de Miyagi de capturar uma mosca utilizando os pauzinhos hashi que alguns países orientais usam como talher e o famoso golpe da garça, utilizado por Daniel na luta final, ao ter uma das pernas momentaneamente inutilizada para o combate, devido a um golpe irregular desferido propositalmente contra ele durante o torneio.




O vôo do dragão” (Hong Kong, 1972, de Bruce Lee);

Tang Lung (Bruce Lee) vai de Hong-Kong até Roma para ajudar uma amiga de seu tio que estava sofrendo extorsão da máfia italiana, pois queriam forçá-la a vender seu restaurante; com este enredo simples, Bruce Lee (pela primeira vez dirigindo uma obra na qual atua) realizou um filme nitidamente superior aos por ele protagonizados anteriormente; há desde uma utilização do humor já presente em filmes anteriores do ator (aqui se baseando, sobretudo na falta de familiaridade do protagonista com a cultura italiana), passando pela exploração de pontos turísticos de Roma, culminando com a antológica cena de luta entre Tang (Lee) e Colt (Chuck Norris). Merece destaque ainda a cena na qual, após derrotar vários capangas utilizando chutes e o nunchaku, Tang vê o último dos inimigos apanhar um nunchaku no chão e tentar imitá-lo, acabando por se auto-golpear na cabeça; nesta cena alia-se a grande competência técnica de Lee nas artes marciais com o humor, mostrando que não foi Jackie Chan quem mesclou cenas os aspectos marcial e cômico.




 Em suma, mesmo os não interessados especificamente em arte marciais podem extrair elementos interessantes de filmes do estilo, seja em termos históricos (o imperialismo japonês sobre a China, mostrado, por exemplo, nos filmes “A fúria do dragão” com Bruce Lee e “O grande mestre 2” com Donnie Yen); humor (vários filmes de Jackie Chan) ou mensagens mais profundas de sabedoria, como no supra resenhado “Katarê Kid” ou o supramencionado “O mestre das armas” com Jet Li.
Em tempo: é provável que eu não tenha assistido a “O vôo do   dragão” na infância, mas a um fake chamado “A torre da morte”, mas quando atentei para isso, o texto já estava em grande parte redigido.

Alberto Bezerra de Abreu, maio-julho 2014








domingo, 21 de julho de 2013

PostHeaderIcon Terra do silêncio e da escuridão: corajosa tentativa de abordar a ausência de imagem e som justamente através do cinema

                                                                                     Início do filme

                                               Explicação de como funciona a linguagem dos cego-surdos

                                                                                      Visita ao zoológico

                                                            Banho de chuveiro antes de entrar na piscina

                                                            Vladimir Kokol e Fini Straubinger em cena próxima do fim do filme                                   




Embora a programação do cineclube dissenso seja sempre de boa qualidade, o que me levou até a sessão de ontem dos filmes “Últimas palavras” (Alemanha, 1968) e “Terra do silêncio e da escuridão” (Alemanha, 1971) foi seu diretor: Werner Herzog, de quem sou fã há alguns anos. Após meses sem ir ao cinema, o retorno não poderia ter sido melhor.

“Últimas palavras” é um curta metragem de 13 minutos que não me encheu os olhos (e nem o de ninguém na sala, haja vista que no debate pós-exibição ele não foi mencionado sequer pelo representante do cineclube); por sua vez, “Terra do silêncio e da escuridão” foi um grata surpresa, haja vista que se alguns de seus filmes são obras-primas (“Aguirre, a cólera dos deuses” 1972; “O enigma de Kaspar Hauser” 1974 “Nosferatu: o vampiro da noite” 1979 e “Homem urso” 2005 sendo meus favoritos), outros não passam de obras medianas: “Os anões também começaram pequenos” (1970) desperta acima de tudo estranhamento; “Cobra verde” (1987) idem, embora em menor grau e acarretando em seu prejuízo uma sensação de descontentamento que não senti no filme de 1970; “O sobrevivente” (2006) e “Vício frenético” (2009) são convencionais demais e autorais de menos (ao menos essa foi minha impressão inicial ao assisti-los uma única vez, comparando-os com os filmes mais antigos, supracitados).

Datando de 1971, “Terra do silêncio e da escuridão” é um documentário cujo tema são pessoas desprovidas de visão e audição (algumas tendo perdido tais capacidades paulatinamente, outras não as tendo desde que nasceram). Fini Straubinger, uma simpática idosa, constitui o fio condutor da obra: tendo perdido visão e audição na adolescência, ela consegue falar e é a voz dela que nos guia verbalmente durante todo o filme. É verdade que em sua parte inicial a obra é um tanto monótona (opinião não só minha, mas de outros espectadores da sessão); contudo, aos poucos o filme vai crescendo. Porém, antes de adentrarmos no clímax, cabem algumas considerações: primeiramente, convém esclarecer como tais pessoas (cego-surdos) conseguem se comunicar: trata-se duma linguagem na qual o emissor escreve na mão do receptor; há uma breve explicação de como isto funciona, da qual lembro o seguinte: tocar na ponta de cada um dos dedos corresponde a cada uma das vogais e juntar os quatro dedos, tocando no centro da mão do receptor significa a letra “k”. Pessoalmente, conhecia (embora não saiba utilizá-la) a língua dos sinais dos surdos, mas não está dos cegos (ou talvez sim, apenas não lembrando disso). Outro dado importante revelado pela protagonista é que cegueira não implica escuridão total (na verdade eles “enxergam” muitas cores), bem como a surdez não significa silêncio (ao contrário, significa um zumbido constante, ora tênue, ora intenso). Por volta da metade do filme nos deparamos com a seguinte frase: “quando você solta minha mão é como se estivéssemos a quilômetros de distância”; desse modo, vamos, aos poucos, nos familiarizando com este universo tão diferente.

Há um momento em que um pequeno grupo de cego-surdos vai a um zoológico; numa das cenas, vemo-los com um filhote de chimpanzé nos braços; este é bastante inquieto, puxando o chapéu de uma pessoa e uma parte da câmera que o filma; já com os elefantes, vemos um deles arrancar o saco de comida das mãos de alguém que o alimentava; tais cenas despertaram (em mim e noutros espectadores) uma sensação de leveza que contrasta com o restante do filme. Posteriormente, nos deparamos com outra cena soberba: entre outras coisas, vemos um jovem cego-surdo de nascença (e aparentemente com algum tipo de problema mental) ser guiado por alguém que cuida dele e de outro jovem com a mesma deficiência a entrar numa piscina; seu medo, bem como e relação de confiança com se guia é extremamente expressiva, sem que nenhuma palavra seja dita. Vemos ainda um jovem de 22 anos chamado Vladimir Kokol, igualmente cego-surdo e com síndrome de down que não obtivera nenhum tipo de tratamento especial, sendo cuidado pelo pai; não aprendera a andar, muito menos a língua do escrever na mão, supracitada. Inicialmente vemo-lo sozinho, fazendo sons (irritante para mim) com a boca e batendo com uma bola de borracha na própria cabeça; como afirma um texto sobre o filme que acabei de ler, tal início de cena remete imediatamente ao início do supracitado “O enigma de Kaspar Hauser”, onde Herzog expõe (mas não em documentário) a história real dum jovem criado sem contato com humanos até sua adolescência (portanto ele não sabia andar e nem falar). Como um dos companheiros de sessão frisou no debate pós-exibição, o início desta cena, onde vemos o jovem sozinho acarreta em nós uma dimensão de censura: “isso não deveria estar sendo filmado”, pensamos, pois parece se estar filmando a miséria alheia de forma gratuita; contudo (e é aqui que a figura de Fini Straubinger aparece com toda a sua força), quando a protagonista aparece e tenta dialogar com o jovem, sentimos algo absolutamente indescritível. A única coisa que posso dizer a mais acerca da cena é o seguinte: embora não saibamos o que o jovem quer dizer, sabemos que ele deseja comunicar-se. E ao sentir as mãos de Fini Straubinger nas suas, bem como em sua cabeça, o rapaz é tomado por uma espécie de furor comunicativo que impressiona. Em suma, são três cenas fabulosas que todo cinéfilo deve assistir ao menos uma vez nada vida.

O filme finaliza com a seguinte frase: “se uma guerra mundial começasse agora eu não iria nem notar”. Trata-se duma obra que nos inquieta e provoca de maneira ímpar; sobretudo no caso dos jovens deficientes, lembrei prontamente que a Alemanha (país de Herzog e onde o documentário se passa) exterminava deficientes físicos e mentais durante o regime nazista. Que fazê-lo é uma aberração é algo fora de questão; contudo, como incluir tais pessoas na sociedade (se é que isso realmente é possível) constitui um grande desafio de nossa sociedade. Um dos “personagens” do documentário (um senhor por volta dos 50 anos, creio), ao ser negligenciado pela família optou por dormir com os cavalos. Eis um atestado indiscutível de nossa condição degradada.



Alberto Bezerra de Abreu, 21/07/2013

sábado, 23 de fevereiro de 2013

PostHeaderIcon Sobre a angústia em três filmes famosos dos últimos dois anos


Cisne negro

A separação

Amor


No primeiro semestre de 2011, quando o filme “Cisne negro” (EUA, 2010, dirigido por Darren Aronofsky) ainda estava em cartaz nos cinemas recifenses (não lembro se antes ou depois de seu êxito no abominável Oscar), tive a oportunidade de conversar com um psiquiatra que afirmou ter achado a obra angustiante. Pessoalmente, não compartilho de tal opinião e bem sei o motivo: não consegui estabelecer uma relação de empatia com a protagonista. O primeiro motivo para isso é o caráter específico da personagem: trata-se duma artista de ponta (ou seja, integrante de uma grande companhia de balé); ora, embora uma pessoa comum não esteja livre de profundo stress advindo de sua profissão (por exemplo, depressão e outras mazelas são comuns entre professores que costumam ser desrespeitados ou mesmo ameaçados nas escolas onde trabalham, somando-se a isso a omissão da direção da escola e dos pais dos alunos), o modo como a bailarina vivencia tal stress é diferente, pois a pressão advém, sobretudo, de si mesma, por conta de seu desejo de perfeição (e o fato de a mãe – frustrada em sua carreira de bailarina – projetar na filha seu desejo em nada ajuda). Para deixar a coisa mais clara: não me parece comum ver um professor, um comerciante, um advogado, etc. desejarem ser perfeitos em sua profissão: a competência parece bastar. Essa obsessão pela perfeição (normalmente ligada, em parte, ao desejo de ser melhor que os outros) parece ser mais típica do mundo específico da arte e dos esportes.
O segundo aspecto consiste na dimensão patológica da personalidade da personagem principal: salvo engano, desde o início do filme ela tem alucinações, mas a partir da véspera de sua estréia como protagonista do espetáculo ela surta, tendo alucinações sistemáticas e duradouras. Trata-se, portanto, de alguém com pelo menos um pé fora da realidade, a ponto de não conseguir distinguir entre o que é ou não alucinação. Por fim, o profundo esteticismo da obra (me refiro aqui à beleza da fotografia e da obra em geral, não utilizando, portanto, o termo com sentido pejorativo) acabou por me afastar ainda mais de qualquer tipo de angústia. Gostei do filme e fui por ele envolvido, mas não a ponto de me identificar com a protagonista.
Próximo do fim de 2012, tive a oportunidade de assistir outro filme aclamado (se não me engano, vencedor do Oscar de filme estrangeiro deste mesmo ano): “A separação” (Irã, 2011, dirigido por Asghar Farhadi). Típico filme iraniano (leia-se Drama com “D” maiúsculo), a obra conseguiu me deixar angustiado. Ao contrário do filme acima citado, aqui temos personagens absolutamente comuns (e o fato de serem iranianos é contingente, pois tal história poderia se passar em qualquer lugar). O que se há de salientar aqui é que ambos os personagens (o pai e a mulher que trabalhou como empregada para ele) mentem, mas não o fazem por mal; fazem-no por se verem em situações bastante complicadas nas quais se encontram apenas parcialmente em virtude de seus próprios atos. Não há como explicitar melhor a questão sem fazer uma exposição do enredo do filme e isso não é algo que eu deseje fazer neste momento. Contudo, quem assistir aos três filmes aqui mencionados certamente compreenderá bem o grosso daquilo que eu quero transmitir. A questão básica de “A separação” consiste no seguinte: quando tomamos conhecimentos de ambas as mentiras, bem como de seus respectivos motivos, é-nos impossível condenar qualquer um dos personagens. Ao contrário de “Cisne negro”, tem-se uma forte sensação de destino, de algo que os personagens não poderiam evitar, embora não pareça que eles mereçam isso, pois pelo que vemos do filme, são todas pessoas de bem.
Por fim, assisti semana passada ao filme “Amor” (2012, França/Alemanha/Áustria, dirigido por Michael Haneke). Nele temos novamente personagens absolutamente comuns, cujo infortúnio não advém de suas atitudes. O filme se passa quase inteiramente dentro dum apartamento e mostra o dia-a-dia de um casal de idosos após a mulher ter o lado esquerdo do corpo paralisado e ir, paulatinamente, perdendo os movimentos do restante do corpo, inclusive a fala. O desfecho da trama torna-se mais brutal por ser abrupto, sem algum precedente ou algo que ao menos indicasse uma futura mudança de atitude. No entanto, se o desfecho choca, a angústia vai crescendo durante todo um filme: ver alguém amado ir perdendo toda a autonomia, mas ter consciência disso e sofrer.
O que ambos os filmes (“A separação” e “Amor”) têm em comum é que sobre ambos se pode dizer o seguinte: isso poderia acontecer com qualquer um. E é isso que causa empatia, esta trazendo consigo, inevitavelmente, a angústia. Durante o processo de escrita deste texto me ocorreu a seguinte idéia: o caráter de relativa inevitabilidade dos acontecimentos nos dois últimos filmes os fariam mais angustiantes que o primeiro; contudo, pensando numa experiência pessoal minha, vivenciada por esses dias (e ainda em curso), parece-me claro que saber que poderíamos ter evitado que algo ruim acontecesse constitui uma grande tortura (embora não necessariamente maior que a sensação de que evitar o mal era impossível, pois nesse caso sentimo-nos impotentes, e no caso anterior, fracassados, ambas as sensações sendo péssimas). Volto então ao meu argumento inicial: o que torna os dois últimos filmes angustiantes é que, por terem personagens comuns e circunstâncias cotidianas, eles provocam uma inevitável empatia, de modo que não conseguimos nos furtar a nos colocarmos no lugar deles (o mesmo não ocorrendo com “Cisne negro”), e como o sofrimento é grande, a angústia é inevitável.
Por fim, cabe um desabafo: como é bom assistir a filmes que não se reduzem à adrenalina e hormônios sexuais...

Alberto Bezerra de Abreu, 20-23/02/2013     (redigido ao som de Frank Zappa)







sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PostHeaderIcon Exibição de “O Leopardo” na V janela internacional de cinema do Recife: teste de paciência



                                                              Uma das imagens de divulgação do festival

 Fila do lado de fora do cinema: na sessão de "Psicose", ela deu a volta completa no prédio; na  sessão de "O Leopardo", ficou "apenas" em frente e numa das laterais do cinema


                                              A atriz Cláudia Cardinale, em uma das cenas de "O Leopardo"

                                  Os atores Alain Delon e Cláudia Cardinale em uma das cenas de "O Leopardo"




Por Erick Silva



A exibição de "O Leopardo", na Janela Internacional de Cinema, no Recife esta noite, foi uma enorme decepção em (quase) todos os aspectos.

 
Primeiro, a desorganização nas filas do cinema São Luíz, o que já virou praxe para o Festival (vide sua edição ano passado). Não obstante, o filme começou a ser exibido com mais de meia hora de atraso. Isso, sem contar a própria programação da edição deste ano (muito fraca e sem atrativos extras). Pra completar, na metade de "O Leopardo", a legenda em português "sumiu", deixando apenas a de inglês! Quando eu fui reclamar, foi-me dito que se tratava de uma falha no computador, e que a legenda seria reiniciada, mas o filme, não! Resultado: minha namorada Gorette Kaiowá Silva e eu exigimos nosso dinheiro dos ingressos de volta depois de cinco minutos SEM LEGENDA!

 
Resolvemos esta questão, pois nos prometeram a devolução amanhã, com o caixa do cinema aberto. Porém o que acabou nos incomodando de verdade foi a PASSIVIDADE latente da platéia, que mesmo com boa parte não entendendo as legendas em inglês continuaram inertes em seu canto. Ora, todos fomos para assistir a um filme legendado TAMBÉM em português; não tínhamos a obrigação de saber da língua inglesa! Mas, é aquela estória: pega mal se manifestar sobre algo assim, já que deve ser vergonhoso pra alguns não saber inglês! Sabem como é: é preciso manter o STATUS em alta!

 
"O Leopardo" fala justamente de uma aristocracia em plena decadência, que não quer perder suas mordomias. Assim como a platéia do São Luíz hoje, que se acomodou, teve medo dese manifestar, acovardou-se de reclamar! Foi um micro-retrato dessa nossa sociedade, que, com medo de perder o pouco que tem não faz nada (mesmo diante das maiores injustiças).



Detalhe: são os mesmos pseudo-intelectuais que expressaram sua selvageria na sessão de Febre do Rato, na edição da Janela ano passado, e que pagarão R$ 99,90 para ter o DVD desse filme em casa (só por exibicionismo). Da mesma forma que chegarão em casa hoje e se gabarão de terem assistido um "clássico do cinema"!

 
Como meus amigos Angelus Novus e Wilker Medeiros estavam lá, gostaria de saber também a opinião deles a respeito desse fato.

 
Da minha parte, parabéns à Janela Internacional de Cinema e à platéia, em geral, do São Luíz hoje! Vocês fornecerem dados suficientes para um promissor estudo sociológico!!!

 
"É ESSA A JUVENTUDE QUE QUER MUDAR O BRASIL? VOCÊS NÃO ESTÃO ENTENDENDO NADA! NADA!" (Caetano Veloso).





Erick “Kaiwoá” Silva, 14/11/2012





terça-feira, 14 de agosto de 2012

PostHeaderIcon A estética da loucura e do cagaço em Superoutro (Edgar Navarro)













Por Pedro Sobral*



No ano de 2003, a Fundação Joaquim Nabuco (no Recife) exibiu três curtas do realizador baiano Edgar Navarro: Lin e Katazan, O Rei do Cagaço e Superoutro. Lembro-me do chamamento impresso no folder da programação: “Você não verá nada igual no cinema este ano”. Deveras. Na primeira tomada de O Rei do Cagaço, por exemplo, nos deparamos com a câmera focalizada no tão vilipendiado e menosprezado ânus – e em plena atividade de ejeção. Apesar do alerta impresso, parte da platéia evacuou (atente à polissemia do verbo) a sala de projeção voluntariamente, como não poderia deixar de ser.

O cinema é prodigioso em mostrar o ato da ingestão dos alimentos como um momento de confraternização, de crescimento e felicidade. Um grande exemplo seria A Festa de Babette – sem esquecer, é claro, um seu antípoda, o clássico italiano La Grande Bouffe, de Marco Ferreri. Por outro lado, a ejeção sempre compôs o invólucro das baixezas humanas, o perverso (etimologicamente do latim per, a preposição “por” e versum, “trás”). Mas, tudo que entra tem que sair. E ninguém filmou a segunda parte deste simples adágio com tanta propriedade quanto Edgar Navarro.

Em Superoutro (1989, 47 minutos) vê-se um esquizofrênico morador de rua (Bertrand Duarte, irretorquível) perambulando pelas vielas e pontos turísticos de Salvador. Uma noite, depois de um acesso de loucura, invade um condomínio de classe média na capital baiana bradando: “Acorda, humanidade!”, como se pedisse o despertar da consciência dos mais validos em direção aos miseráveis. A partir de então, as vozes não mais param na cabeça do Esquizofrênico e se processam uma série de episódios cômicos, trágicos e escatológicos.

Mereceria um artigo à parte a fixação de Edgar Navarro pelo ânus e a ejeção (Freud explicaria isso através da fase anal da criança: ela tenta controlar os pais através do jogo de retenção/expulsão das fezes): é o desbunde – literalmente – elevado à derradeira potência. Da mesma forma que na abertura de O Rei do Cagaço, temos em Superoutro a visão privilegiada do esfíncter anal de Bertrand Duarte em trabalho pleno e absoluto. Recordo-me da frase expelida por um ex-professor, já falecido, quando cursava pós-graduação (não lembro o contexto do dito): “O cu é bom demais. Sem o cu a gente explode”.

O escatológico nas artes nunca foi novidade, vide as obras do italiano Piero Manzoni que, em 1961, defecou em várias latas colocando a etiqueta Merde d’artista, vendendo-as a preço de ouro para diversos museus mundo afora; algumas cenas de Philippe Noiret (em especial num momento de prisão de ventre e flatos) no supracitado La Grande Bouffe; o roqueiro punk GG Allin que durante suas performances costumava defecar no palco, jogava uma parte na platéia e comia também um bom bocado justificando-se que “não gostaria de ver seus dejetos indo por qualquer canto” (Ah, bom – faz sentido! Pensei que fosse loucura!); muito antes, na literatura de François Rabelais (1483–1553), o escatológico se fazia presente. No Gargântua, Rabelais descreve as ferramentas do jovem gigante para limpar o ânus:



O cachecol de veludo de uma dama, um lenço de pescoço, um tapa-orelhas de cetim, a touca de uma pajem, um “gato de março” (que lhe arranhou o traseiro com as patas), as luvas de sua mãe perfumadas de benzina, a sálvia, o funcho, o aneto, folhas de couve, alface, espinafre (série comestível), as rosas, a urtiga (sic), as cobertas, as cortinas, os guardanapos, o feno, a palha, a lã, o travesseiro, os sapatos, um alforje, um cesto, um chapéu. O melhor limpador de cu é um gansinho com a penugem macia: (...) tanto pela maciez dos pelos quanto pelo calor que se transmite pelo intestino reto e pelas outras entranhas, chegando até a região do coração e do cérebro.



Está na escatologia uma das melhores cenas de Superoutro: quando o Esquizofrênico defeca sobre um jornal, na beira-mar de Salvador (e aqui se pode abrir o parêntese da relação da loucura, normalmente suja e impura, com a água – límpida, cristalina e terapêutica, tal como pregava o psiquiatra francês Leuret, no século XIX, no tratamento de choque de seus pacientes com fortes duchas) e mela com seus resíduos a camisa de uma versão baiana de playboy – o rapaz incauto está parado no semáforo, dentro de um automóvel Santana Quantum, engravatado e escutando o impagável hit oitentista Kátia Flávia, de Fausto Fawcett.

Se os dejetos sólidos têm o poder de causar o riso, de desarmar a sisudez, libertar um da tirania e promover o desbunde total, o Esquizofrênico, nosso anti-herói de Superoutro, se mostra demasiado humano, e não um ser de outra natureza: como todos nós ele come, bebe, evacua e peida. Só que tudo isso numa escala enlouquecida e miserável.



*Pedro Sobral é licenciado em história pela Universidade Católica de Pernambuco, bacharelando em ciências sociais pela UFPE, professor da rede pública e particular e cinéfilo nas horas vagas.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

PostHeaderIcon Mostra Beckett do Cineclube Dissenso: um “acontecimento”?



Esboço para teatro I (Rough for theatre I)

Encenação (Play)

                                                                              Fim de partida (End game)




Entre os dias 25 e 28 de julho do presente ano o Cineclube Dissenso (atualmente sediado no prédio do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife) exibiu uma mostra de filmes (curtas e longas metragem) baseados na(s) obra(s) do escritor/dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Embora (ainda) nada tenha lido do autor, a exibição de tais filmes se deu em sincronicidade com o brotar de meu interesse por ele; já na edição de 2010 do festival pernambucano de artes cênicas Janeiro de Grandes Espetáculos, quando Antônio Abujamra encenou a peça (?) “Começar a terminar” (texto do próprio, inspirado em obras de Beckett), comecei a me interessar pela obra do irlandês, alimentado pela ótima cobertura dada pelos jornais locais (embora tenha perdido esta encenação por ter sido ela realizada no teatro Barreto Junior, na distante – para mim – zona sul da cidade). Acabei, assim, deixando Beckett de lado. Entretanto, em meados do ano seguinte, a figura do autor de “Esperando Godot” ressurgiu (novamente de maneira indireta) para mim, através de insistentes menções a uma célebre frase dele, redigidas pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek; em “Primeiro como tragédia, depois como farsa” (Boitempo, 2011), referindo-se à perseverança de Lenin, afirma Zizek: “Esse é Lenin em sua melhor forma beckettiana, fazendo eco à frase de Pioravante marche: ‘Tente de novo. Erre de novo. Erre melhor’” (ZIZEK, 2011, p. 79). Na mesma obra, o esloveno volta a utilizar a frase do irlandês, desta vez na página 108. Também no livro “Em defesa das causas perdidas” (Boitempo, 2011), Zizek utiliza esta máxima beckettiana, referindo-se desta vez a Kant e a Mao Tse-Tung (p. 215).

Ressurgido assim meu interesse por Beckett, comecei a procurar uma tradução portuguesa da tal “Pioravante marche”, e me deparei com sua suposta inexistência (ao que me consta, há pelo menos uma tradução em português de Portugal, mas aparentemente de difícil localização). Pesquisando um pouco mais, eis a grande descoberta: o tal texto acabara de ser traduzido em edição nacional (sob o título “Pra frente o pior”); trata-se do livro “Companhia e outros textos”, cuja tradução para o português brasileiro foi realizada por Ana Helena Souza, sendo o livro lançado em 2012 pela Editora Globo. Bastou meu interesse por Beckett ressurgir (de maneira direcionada, ao contrário do que ocorrera em 2010) para que o texto em questão fosse lançado em português (e por um preço acessível!) e, na seqüência, o supramencionado cineclube levasse a frente à realização da mostra sobre a qual este texto se debruça. Para que pensou em coincidência, repito o termo supramencionado: sincronicidade.

Adentrando (enfim) aos filmes exibidos na mostra, não os comentarei individualmente, pois isto seria bastante desgastante para mim e para os leitores deste blog (sim, eles existem, embora não costumem comentar...). Sugiro que, caso alguém tenha algo a dizer especificamente sobre algum dos filmes exibidos, que empreendamos um debate na parte dos comentários. Pois bem, a primeira coisa a se falar da obra de Beckett é que ela exige muito do leitor/espectador, não só por sua profundidade, mas também por sua forma; sem medo de ser polêmico, afirmo com todas as letras: não raro sua obra é maçante. Entretanto, de modo algum isto implica necessariamente ser ela desinteressante. Voltando brevemente ao supracitado livro “Companhia e outros textos” (uma coletânea, como o título deixa claro), adquiri-a prontamente, porém, renunciei a sua leitura imediata ao ler o prefácio de Fábio de Souza Andrade, pois este deixou claro que os textos exigiram de mim mais do que eu poderia dar no momento (não por falta de interesse, mas devido a outras prioridades). Dessa forma, o contato com a obra beckettiana adaptada para o cinema veio a calhar, pois me tomou “apenas” algumas horas, ao passo que a leitura dos “contos” me levaria dias, quiçá meses (o livro tem menos de 100 páginas, se desconsiderarmos o prefácio que não é do próprio Beckett, mas leio “degustativamente”). Uma característica comum de todos os filmes exibidos (ao menos de todos que pude assistir, pois perdi a exibição do último dia, justamente o de “Esperando Godot”) consiste no fato de a encenação se restringir a um único espaço: uma rua, um cômodo de uma casa, o espaço interno de um teatro, etc. Além disso, em alguns filmes a verborragia (não uso o termo em sentido pejorativo) tornava inevitável e perda de algumas palavras por parte dos espectadores, mesmo num filme como “Encenação”, no qual todo o texto é repetido integralmente. Aliás, falando em texto, cabe aqui uma informação de grande relevância: de acordo com os organizadores do evento, todas as adaptações primaram pela fidelidade aos textos originais, conservando-os integralmente nas encenações (também se mencionou o excesso de cuidado que Beckett tinha com seus escritos, não deixando que fossem encenados – seja no cinema, seja no teatro – por qualquer um).

Outro aspecto pelo qual o cineclube merece destaque positivo consiste no fato de não se limitarem a contextualizar os filmes antes de sua exibição, mas empreenderem também debates ao final; embora seja mais de ouvir do que de falar quando me encontro entre estranhos, foi-me impossível não me pronunciar sobre a (muito) grande semelhança existente entre o supracitado “Encenação” e a peça “Entre quatro paredes” de Jean-Paul Sartre: em ambos, vêem-se três pessoas no inferno (um homem, duas mulheres); em ambos há algo de triângulo amoroso, embora de maneira ambígua; em ambos há o eterno retorno (repetição contínua do castigo, remetendo ao mito de Sísifo – aliás, título de uma obra de Albert Camus, contemporâneo de Sartre e Beckett –, ao mito de Prometeu, entre outros mitos gregos). Saliento desde já ter sido este um de meus filmes favoritos. Nele o elemento estético alcança nada menos que a perfeição. As atuações também são soberbas.

Nada há de coincidência no fato de outro de meus favoritos na mostra –“Esboço para teatro I” –, ser, igualmente, de um primor estético invulgar. Neste filme (que se passa numa esquina em ruínas, cenário típico pós-guerra), vemos o diálogo entre o mendigo cego e um cadeirante (ambos idosos); este último propõe ao primeiro: “você me empurra e eu lhe guio”. A colaboração entre eles não se converte em realidade e o filme se encerra com direcionando seu “cajado” em direção ao cadeirante com intuito de agredi-lo violentamente, após ter sido humilhado durante quase toda a conversa; a mensagem me parece de uma clareza desoladora: embora pudesse complementar-se “perfeitamente” no caso de colaborarem, ambos os homens sequer conseguem conversar civilizadamente. A degradação humana constitui um tema recorrente em Beckett, embora algumas vezes sendo retratada com ironia, outras vezes, de forma bastante “crua”.

Dentre os longas, minha preferência elegeu “Fim de partida”; embora haja nele algo de semelhante ao filme acima citado, haja vista que um dos protagonistas não pode ficar de pé (além de aleijado é cego, possuindo assim as deficiências de ambos os personagens de “Esboço para teatro I”), ao passo que o outro (seu “criado”/empregado), sendo manco, não pode sentar-se, o que mais me chamou atenção no filme foi o fato de ter sido ele o único dos longas que assisti que não me causou nenhuma espécie de enfado (os outros longas que assisti foram: “Dias felizes” e “A última gravação”, não sendo demais repetir que perdi a exibição de “Esperando Godot”). Cabe salientar que não considero o enfado despertado por um filme como algo necessariamente ruim; pelo contrário, posso considerá-lo com um diferencial positivo, desde que ele seja proposital e transcenda a intenção de ser maçante sem mais. No entanto, não pude deixar de me espantar com a maneira fluída de contemplar um filme complexo, restrito a um único ambiente, em contraste com os dois longas que havia assistido nos dias anteriores (será um diferencial dele, ou estaria eu me acostumando em demasia com as idiossincrasias beckettianas?). Outra coisa, embora a apresentação de personagens fragmentados (em muitos filmes foram exibidas apenas cabeças dos personagens), penso que em nenhum deles este expediente alcançou a dimensão do bizarro tão bem quanto em “Fim de partida”: nele, os pais do protagonista patrão não possuíam corpo da cintura para baixo (em virtude de um acidente), e viviam, cada qual e uma lata de lixo. Embora a relação entre os protagonistas (patrão-empregado) fosse pesada (nitidamente sado-masoquista no sentido não sexual-genital do termo), ela me pareceu essencialmente verossímil, contrariando a dimensão do absurdo que tornou Beckett célebre; contudo, o aparecimento dos pais nas suas respectivas latas de lixo (!) a certa altura do filme acrescentou ao filme uma dimensão de bizarrice (absurdidade) inesperada e só não desconcertante por tratar-se de Beckett.

Em suma, a experiência foi deveras enriquecedora, na reflexão, no enfado, no deleite estético, no estranhamento (tudo isso propiciado pelas próprias obras), bem como pelas informações (fornecidas pelo pessoal do cineclube) e pelos debates (promovido pelos organizadores do cineclube, mas com participação ativa de alguns dos espectadores).

Ps. 1: o próprio pessoal do cineclube divulgou um blog no qual pode-se assistir a todos os filmes exibidos na mostra:http://beckettemfilme.blogspot.com.br/

Ps. 2: o termo “acontecimento” utilizado no título deste texto remete a uma noção de Alain Badiou (o qual também conheci através de Zizek).



Alberto Bezerra de Abreu; 06/08/2012 (redigido ao som de Thelonious Monk – “Monk’s blues”, Dizzy Gillespie – “Dizzy’s party” e John Coltrane – “Coltrane”).



Dedico este texto a Marcel Koury e Gorette Silva (ambos – cada um a seu modo – apreciadores de Beckett) e a Alessandra Alencar, responsável pela inclusão do conceito junguiano de “sincronicidade” neste texto (embora ela não saiba que o estou redigindo =)



segunda-feira, 11 de junho de 2012

PostHeaderIcon Cine PE 2012, terça-feira: uma noite introspectiva



                                                                                    "Dia estrelado"
                                                          

                                                                                       "A fábrica"


                                                                            "Sonhando passarinhos"


                                                                      "Na quadrada das águas perdidas"



                                                                                   "Estradeiros"



Ao contrário do que ocorrera no sábado, a noite de terça (feriado) do Cine PE 2012 teve um público notoriamente escasso. Não só por isso, mas também pela ausência de filmes “chamativos” – digamos assim –, como “À beira do caminho” e o documentário de Pedro Bial e Heitor D’ Alincourt sobre Jorge Mautner, o clima da noite pareceu-me estranhamente intimista, haja vista a recorrente alcunha segundo a qual o Cine PE constitui “o Maracanã dos festivais nacionais de cinema”.

Reforçando (para mim) o caráter intimista da noite, descobri que a jovem diretora do primeiro curta-metragem exibido é alguém com quem já cursei uma disciplina na UNICAP, embora eu fosse um estranho na turma (acho que era de jornalismo) e tenha passado quase completamente despercebido naquele espaço (sem contar que, pela primeira vez em anos de Cine PE, acomodei-me na parte superior do Cine-teatro Guararapes; o que quebrou um pouco o intimismo foi o fato de eu estar acompanhado, algo que não ocorria fazia anos no evento em questão).

Adentrando no primeiro curta exibido “Dia estrelado” (17 min., de Nara Normande), não há muito o que ser dito; trata-se duma animação stop motion de alta qualidade (na forma), mas pouco significativa no conteúdo (e saliento que minha comparsa naquela noite teve exatamente a mesma opinião que eu). Acaba de me ocorrer um insight no que concerne a expressar o que tal filme despertou em mim: trata-se duma fratura estética, haja vista que a qualidade da forma não se resume ao fato de a animação ser bem feita, mas também ao fato de ser ela expressiva (sempre observo se personagens de animação são realmente expressivos), de a trilha sonora ter sido muito bem encaixada, de o filme ter conseguido criar todo um clima, mas de a tudo isso ter faltado substância. Se em minha resenha sobre o curta “Km 58” (exibido no sábado – ver minha resenha em http://www.miradourocinematografico.blogspot.com.br/2012/05/noite-de-sabado-do-cine-pe-2012.html), afirmei que uma nova edição/montagem da obra poderia melhor aproveitar sua excelência técnica, no que concerne a “Dia estrelado”, penso algo parecido; se a parte técnica tivesse sido direcionada para um outro enredo, o filme poderia ser excelente; porém, da forma que foi realizado ele deixa a sensação de que poderia ter sido muito melhor, embora não chegue a ser ruim.

O segundo curta-metragem exibido foi “A fábrica” (15 min., de Aly Muritiba); trata-se duma caracterização realista da vida num presídio, que não intenta retratar o cotidiano deste, mas apenas uma situação específica nele ocorrida: trata-se da tentativa que a mãe do protagonista faz de entrar no presídio com um celular, para entregar a ele; poucas palavras são proferidas entre mãe e filho no seu encontro e o desfecho surpreendente do filme me fez gostar dele muito mais do que eu pensei que gostaria, ao começar a assisti-lo; sua mistura de hostilidade com afeição foi realizada com maestria.

Terceiro e último curta da noite, “Sonhando passarinhos” (12 min., de Bruna Carolli) mostra a história de uma pequena garota que deseja criar passarinhos; o enredo é simples, o filme é bonitinho (sem conotação pejorativa), as atuações são fracas (mas a guria é espontânea) e, acima de tudo, seu conteúdo é bastante pessoal, embora tal característica (paradoxalmente) desperte empatia de algumas pessoas (o que não foi o meu caso). Valho-me aqui da imprescindível contribuição de Txiliá Credidio, minha comparsa naquela noite, para elucidar o sentido de tal afirmação; segundo ela, os mínimos detalhes do filme remetem ao que foi a infância de uma garota na década de 1990 (experiência com a qual não tive o menor contato, pois não tenho irmã).

Antes de passar aos longas, aproveito para informar que dois dos três curtas tiveram problemas técnicos e precisaram ter sua exibição interrompida para ser(em) posteriormente reiniciada(s). Sobre isto, não poderia deixar de postar aqui a frase paradigmática de minha comparsa Txiliá: “Festival de cinema sem problemas técnicos não é festival de cinema”. Inspirado por ela, formulo a seguinte assertiva: “Cine PE sem atraso não é Cine PE” (quem freqüenta bem sabe...).

O primeiro longa da noite foi “Na quadrada das águas perdidas” (74 min., de Wagner Miranda e Marcos Carvalho). No elenco, apenas Matheus Nachtergaele; seu enredo é bastante simples: mostra o (longo) deslocamento de um sertanejo até uma venda para trocar dois cabritos por alimentos diversos. Como os realizadores deixaram claro ao apresentar o filme, sua intenção era didática, no sentido de familiarizar os espectadores com a paisagem da caatinga e, de fato, ele é surpreendente neste aspecto; vários animais aparecem na obra (cobra, pica-pau, coruja, outras aves; tamanduá, jabutis e mesmo um felino de grande porte – do tamanho de uma onça –, mas que não era nem pintado nem preto, de modo que não sei se era onça); aparece ainda uma colméia, bem como o procedimento do personagem para espantar parte das abelhas e consumir o mel; três espécies de cactos são mostrados, dois deles sendo consumidos. Mesmo no final do filme, quando o protagonista chega na venda, não vemos mais que o braço de seu interlocutor e não há uma única palavra proferida: os produtos desejados são apontados com a mão, limitando-se a isso a comunicação entre os dois homens. Aliás, a única palavra pronunciada no filme é o nome da cadelinha que acompanha o sertanejo; quando nota sua demorada ausência, ele assovia por ela e não obtendo resposta, a chama pelo nome algumas vezes. Isto acentua (e muito) e sensação de isolamento, o que pode tornar o filme um pouco maçante para algumas pessoas. Penso que isto seja proposital e verossímil, haja vista o caráter tour de force da jornada do personagem (muitas são as dificuldades por ele enfrentadas no caminho, inclusive cansaço e tédio). Por fim, cabe salientar que o filme retrata inclusive as crenças locais, como quando mostra o protagonista “assombrado”, juntar algumas pedras e formar um terço para rezar. Em suma, embora o filme não seja exatamente divertido, seu mérito não reside apenas em seu caráter informativo, pois além de informativo ele é interessante, ou seja, ele envolve, funciona.

Fechando a noite, exibiu-se o longa “Estradeiros” (79 min., de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira). Trata-se dum documentário sobre um grupo de jovens itinerantes que residem em diversos locais da América do Sul e que possuem certos traços da cultura hippie em sua organização social. Um dos aspectos mais interessantes do filme consiste em mostrar como o grupo coleta alimentos (em boas condições para consumo) jogados no lixo por supermercados e com isso evitam no só o desperdício, como economizam seu pouco dinheiro (conseguido, por exemplo, através de malabarismos feitos em semáforos). Não há rumo no filme, tal qual a trajetória de um de seus entrevistados: aleatória, como o próprio afirma. Trata-se dum filme interessante, que nos faz pensar e (ao menos para mim), causa certa inveja, embora eu não deseje ter uma vida tão errante quanto a daquelas pessoas.

Em suma, minha opinião de que sempre é possível encontrar coisas boas no Cine PE, mesmo escolhendo aleatoriamente as noites nas quais iremos ao festival permanece.



Dedico este texto a Txiliá Credidio, uma comparsa inspiradora



Alberto Bezerra de Abreu, maio/junho 2012













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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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