sábado, 31 de dezembro de 2011

PostHeaderIcon Clássicos do cinema em "nordestinês"

Ano novo, preguiça nova? Espero que não, sobretudo no âmbito artístico, incluindo-se neste o nosso Miradouro Cinematográfico. Digo isto não só em virtude do relativo abandono no qual se encontra o blog nos últimos tempos, mas também em relação a postagem minimalista que pensei em realizar a exatamente uma semana atrás e que, por conta dela – a preguiça – não levei a frente. Trata-se do seguinte: em plena noite de 25 de dezembro (dia absolutamente comum para mim), resolvi conferir alguns cd’s/dvd’s que estavam sem nome; entre eles encontrei meio primeiro backup (de 2005); como diz o ditado, “recordar é viver” e lá fui eu “xeretar” o conteúdo do qual pouco recordava e eis o que encontro: o arquivo intitulado “Cinema no nordeste!!”, que trazia títulos de filmes populares “traduzidos” para o “nordestines”; procurei tal lista na internet e consegui encontrá-la, mas sempre sem trazer autoria. Posto-a então como aperitivo para futuras atualizações, as quais pretendo tornar mais freqüentes.


Alberto Bezerra de Abreu 31/12/2011



Clássicos do cinema traduzidos para "nordestinês":



Uma Linda Mulher: A Cabrita Aprumada




O Poderoso Chefão: O Coroné Arretado




O Exorcista: Arreda Capeta!




Os Sete Samurais: Os Jagunço di Zóio Rasgado




Godzila: O Calangão




Os Brutos Também Amam: Os Vaquero Baitola




Sansão e Dalila: O Cabiludo e a Quenga




Perfume de Mulher:  Cherim di Caboca




Tora, Tora, Tora!: Oxente, Oxente, Oxente!




Mamãe faz cem anos: Mainha num Morre Mais!




Guerra nas Estrelas: Arranca-rabo nas Altura




Um Peixe Chamado Wanda: O Lambarí cum nomi di Muié




Noviça Rebelde: Beata Increnquera




O Corcunda de Notre Dame: O Monstrim da Igreja Grandi




O Fim dos Dias: Nóis Tamo é Lascado




Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita:Um Cabra Pai dégua di Quem Ninguém Discunfia




Os Filhos do Silêncio: Os Minino du Mudim




A Pantera Cor-de-rosa: A Onça Viada

domingo, 23 de outubro de 2011

PostHeaderIcon Uma postagem bem “twitteira” sobre Spike Lee




O que sempre me fez ter ressalvas em aderir ao Facebook e nutrir ojeriza a priori pelo Twitter (ou seja, desprezá-lo sem nunca ter nem mesmo visitado sua página) foi o padrão hegemônico do “veja tudo o que todo mundo está fazendo”, padrão este incorporado pelo Orkut e que demorei a descobrir como eliminar (nada mais irritante que entrar na minha conta e ver uma lista com tudo o que meus contatos fizeram naquele espaço virtual recentemente). Penso da seguinte forma: se quiser saber o que fulano, beltrano ou sicrano postaram (fotos, vídeos, poemas, enfim), basta ir até seu perfil; não preciso nem aprecio este cardápio virtual que me era imposto a contragosto só pelo fato de eu fazer parte de uma rede social, embora utilizando-a de forma um tanto idiossincrática (ao menos existe a possibilidade de desativa tal opção sem ter de sair da rede social, opção esta negada no que concerne a receber diariamente odiosos telefonemas com oferecimentos de indesejados cartões de créditos, entre outras coisas). Entretanto, em virtude da arrebatadora preguiça que me dominou, impedindo-me não só de escrever novos textos para o blog, mas mesmo de postar textos já prontos (sejam meus, sejam de meu até agora único colaborador Pedro Tenório, que tem mais de um texto “no prelo”), opto por uma postagem essencialmente singela, a qual consiste justamente em dizer o que ando “respirando” no âmbito artístico-cultural.

Minha paixão pelo rock’n roll data de minha levemente longínqua adolescência. Já o jazz, só nela entrou muito recentemente, em que pese meu interesse antigo por ele (e penso que o motivo principal desta demora foi justamente ele/a: a onipresente preguiça!). Pois bem, os primórdios de minha incursão no mundo “jazzístico” deram-se há pouco mais de um mês (por volta de setembro de 2011), quando avistei numa banca de revistas um DVD integrante duma coleção dedicada ao estilo. Tratava-se da coleção que trazia DVDs com documentários de Ken Burns e livretos com textos e fotos; o primeiro que adquiri foi o volume 8, com Charlie Parker na capa. Antes disso, havia baixado dois álbuns particularmente clássicos do Miles Davis: “Bitches Brew” (ao ler uma matéria no Jornal do Commercio intitulada “A bruxa que enfeitiçou Miles Davis”) que apresentava este disco duplo como o início do fusion – fusão do jazz com o rock –, não pude deixar de elegê-lo como inaugurador de minha incursão no estilo) e “Kind of blue” (este contando com participação de John Coltane); entretanto, meu mergulho mais contundente no mundo jazzístico deu-se quando baixei alguns discos da série justamente de Ken Burns (desta vez não documentários em áudio-vídeo, mas coletâneas de vários nomes consagrados do estilo, como Louis Amstrong, Charlie Parker, Thelonious Monk, Miles Davis, Charles Mingus, Ella Fitzgerald, Art Blakey, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, Dave Brubeck, entre outros).

Por coincidência (ou não?), acabei adquirindo na mesma época o livro “História social do jazz” de Eric Hobsbawm, na Bienal do Livro de Pernambuco; já sabia da existência da obra e tinha interesse nela por basicamente dois motivos: meu apreço pelas obras do autor que conhecera em meus estudos de História e meu interesse pelo jazz, acerca do qual nada sabia. Contudo, não o procurei, mas foi ele (o livro) quem veio até mim no estande da editora Expressão Popular.

Outro passo decisivo para adentrar de cabeça no mundo do jazz foi a descoberta do site http://www.ejazz.com.br/ (que me foi indicado por Mariana Mayer, a quem dedico esta postagem). Por fim, ao ler que raros jazzistas foram tão combativos em relação ao racismo quanto Charles Mingus (embora o estilo jazz por si tenha constituído uma vanguarda anti-racismo nos EUA), não pude deixar de fazer um link direto com o cineasta também estadunidense Spike Lee.

Em que pese o fato de Lee ser um grande problematizador dos gravíssimos conflitos étnicos em seu país, atendo-se prioritariamente ao setor “afro-descendente” (leia-se negro), sem, contudo, cair numa visão maniqueísta, o que me fez adquirir recentemente um Box de filmes deste cineasta foi menos seu engajamento étnico do que minha memória afetiva. Explico: quando era ainda criança/ pré-adolescente, assisti na TV a um filme chamado “Mais e melhores Blues”, do qual gostei deveras; embora vez por outra lembrasse dele, foi este meu mergulho no jazz que me fez ir atrás da obra e assim cheguei no Box de Lee (“Mais e melhores blues”, de 1990 integra o Box, juntamente com mais cinco filmes: “Faça a coisa certa” (1989); “Febre da selva” (1991); “Crooklyn” (1994); “Irmãos de sangue” (1995) e “O plano perfeito” (2006)). Ontem assisti “Faça a coisa certa” e achei-o excelente, cabendo destacar uma cena em que o locutor de rádio interpretado por Samuel L. Jackson cita uma penca de músicos negros (a maioria do jazz), deixando bastante claro o quão grande foi a contribuição negra para a cultura humana em geral e estadunidense (país hiperbolicamente racista) em particular.

Aguardem textos sobre os filmes de Spike Lee e sobre o próprio, mas tenham paciência, pois deve demorar. Por enquanto, assistam a eles.

Alberto Bezerra de Abreu 22-23/10/2011, redigido ao som de clássicos do jazz

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

PostHeaderIcon "Emprenhando pelos ouvidos": como conheci Tarkovski




A primeira vez que ouvi falar em Tarkovski foi em sala de aula, disciplina "Cinema e construção do tempo" (graduação de cinema da Universidade Federal de Pernambuco, semestre 2009.2). A disciplina, como o título deixa claro, trata da construção do tempo na narrativa cinematográfica; nunca esquecerei uma das falas do professor Eduardo Duarte sobre este tema, referindo-se a Tarkovski; mencionou uma cena em que uma senhora carregava lentamente uma lamparina até uma vela, acendia-na, voltava, via o vento apagar a lamparina, retornava à vela para novamente acender a lamparina, numa cena que deveria durar cerca de 7 minutos e que mesmo ele, estudioso da sétima arte (e também realizador de filmes), confessou sentir-se tentado a avançar (ou seja, não assisti-la na íntegra) devido ao conteúdo supostamente demasiado maçante. Não pude deixar de lembrar de uma amiga que me acompanhou em minha desvirginação cinematográfica em Bergman (no festival de cinema sueco, realizado no cineteatro Apolo em janeiro de 2006, no qual foram exibidos os três filmes do cineasta que compõem o que foi chamado de "trilogia do silêncio") e que não deu uma segunda chance ao cineasta sueco, considerando-o demasiado lento. Mas há ainda outros dois detalhes marcantes em relação a Tarkovski que vivenciei nesta disciplina deveras proveitosa; a afirmação do professor de que o próprio Tarkovski admitira que seus filmes eram apreciados por um público seleto – "minhas filhas não assistem meus filmes, gostam é de Spielberg" teria dito ele –, bem como a menção a um livro do diretor russo, intitulado "Esculpir o tempo". Nem preciso dizer que está breve menção feita pelo professor me deixou demasiado (curioso não seria bem a palavra, sedento talvez) por adentrar neste mundo aparentemente hermético e deveras profundo. Acabei descobrindo, ao conversar com uma amiga, que entre os filmes que ela havia colocado num DVD para mim (meu interesse principal era o "Salo – os 120 dias de Sodoma" de Pier Paolo Pasolini, filmes este aliás também mencionado pelo professor, mas que comentarei posteriormente) estava justamente um de Tarkovski ("Nostalgia"); no entanto, após haver assistido o citado filme de Pasolini, deixei o DVD de lado por longo tempo, não tendo assistido a nenhum dos demais filmes e quando tentei ver o de Tarvokvski, descobri que o DVD havia dado pau. Não seria ainda desta vez...
Meu primeiro contato direto, efetivo com a obra de Tarkovski se daria em ordem cronológica: assisti, há pouco menos de um mês, seu primeiro – na verdade, segundo, pois o primeiro fora feito para TV – filme), intitulado "O rolo compressor e o violinista" (1960, curta metragem). Apesar do apresso que senti pela obra, foi impossivel não pensar se tratar ainda dum primeiro tatear do cineasta (o filme foi realizado como trabalho de conclusão do curso de cinema). Em seguida (ontem, mais precisamente), assisti a seu primeiro longa metragem: "A infancia de Ivan"(1962); este já mostra de forma mais contundente o profundo vigor artístico do cineasta. Acredito não ser exagero dizer que me tornei fã apriori de Tarkovski (como quem "emprenha pelos ouvidos", me fascinei por sua obra antes de haver tido oportunidade de contemplá-la); após assistir aos dois filmes citados, percebi não haver me enganado (isso tavez tenha acontecido com Pasolini, é cedo para ter certeza); no entanto, o fator decisivo para pôr-me a escrever este texto hoje foi o início de minha leitura de "Esculpir o tempo" (livro este que pretendo comentar neste blog). Tudo bem, foi após assistir "A infância de Ivan" que me vi impelido a reconsiderar a decisão de só iniciar a leitura do livro em meados deste ano (em virtude da extensa carga de estudos – os quais nada tem a ver com cinema! – que devo realizar neste semestre); mas o fato é que o livro, somado aos dois filmes, me capturaram de tal forma que me vi – como já mencionei – impelido a escrever hoje. A idéia inicial era, após esta breve introdução de como conheci o cineasta russo, tecer já algumas considerações sobre a introdução do livro mencionado, mas, como idéias existem para ser abandonadas, limitar-me-ei agora a publicar a sinopse do livro (a ser aqui dissecado ou ao menos singelamente discutido posteriormente).



"O meu mais fervoroso desejo sempre foi o de conseguir me expressar nos meus filmes, de dizer tudo com absoluta sinceridade, sem impor aos outros os meus pontos de vista. No entanto, se a visão de mundo transmitida pelo filme puder ser reconhecida por outras pessoas como parte integrante de si próprias, como algo que nada, até agora, conseguiria dar expressão, que maior estímulo para o meu trabalho eu poderia desejar? Este livro amadureceu durante todo o período em que minhas atividades profissionais estiveram suspensas... Seu principal objetivo é ajudar-me a descobrir os rumos da minha tragetória em meio ao emaranhado de possibilidades contidas nesta nova e extraordinária forma de arte – em essência, ainda tão pouco explorada – para que nela eu possa encontrar a mim mesmo, com plenitude e independência."



Alberto Bezerra de Abreu 04/04/2010

segunda-feira, 25 de julho de 2011

PostHeaderIcon Mostra de filmes argentinos no cine-teatro Apolo

Abutres

Os segredos de seus olhos

As leis de famíla

A menina santa

Prata queimada


Será realizada, de segunda (25/07/2011) até sexta-feira (29/07/2011), no cine-teatro Apolo uma mostra de filmes argentinos, composta por longas e curtas metragem. A exibição serão iniciadas sempre às 19h e a entrada é gratuita. Após as exibições haverá debate com especialistas sobre as produções exibidas.


A programação completa (incluindo os curtas, bem como as sinopses de todos os filmes) pode ser acessada no link abaixo, num arquivo em PDF.

http://pe360graus.globo.com/diversao/diversao/cinema/2011/07/24/NWS,536509,2,20,DIVERSAO,884-MOSTRA-FILMES-ARGENTINOS-OCORRE-SEXTA-SESSOES-GRATUITAS.aspx


abaixo segue uma programação resumida (só os longas):


Segunda-feira (25): Abutres (2010), de Pablo Trapero

Terça-feira (26): O segredos de seus olhos (2009), de Juan José Campanella

Quarta-feira (27): As leis de família (2006), de Daniel Burman

Quinta-feira (28): A menina santa (2004), de Lucrecia Martel

Sexta-feira (29): Prata queimada (2000), de Marcelo Piñeyro


Ps. para quem isto importar, “O segredo de seus olhos” foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado.


Alberto Bezerra de Abreu, 25/07/2011

sexta-feira, 15 de julho de 2011

PostHeaderIcon "A composição do vazio" no cinema da Fundação (23/07/2011)



No sábado da semana que vem (23/07/2011) será exibido em SESSÃO ÚNICA E GRATUITA o documentário de Marcos Enrique Lopes "A composição do vazio" sobre o filósofo pernambucano Evaldo Coutinho. No cinema da Fundação, às 16h (NÃO MAIS ÀS 16:20 COMO HAVIA DIVULGADO ANTERIORMENTE).

(Na imagem, Benedito Nunes e Evaldo Coutinho)

Na edição deste mês (julho de 2011) a revista pernambucana Continente publicou uma matéria em comemoração ao centenário de nascimento de Evaldo Coutinho.
Segue o link que traz parte da matéria.
http://www.revistacontinente.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6386&Itemid=



Favor, DIVULGUEM.




Alberto Bezerra de Abreu, 15/07/2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

PostHeaderIcon Entrevista com Cláudio Assis na Cult deste mês




Cláudio Assis, cineasta pernambucano, diretor dos filmes “Amarelo Manga” (2003), “Baixio das bestas” (2007) e o mais recente “A febre do rato” (2011), concedeu um breve, porém interessante entrevista a edição deste mês da revista Cult.

http://revistacult.uol.com.br/home/2011/07/o-anarco-cineasta/

Dentre os aspectos mais interessantes abordados, menciono sua denúncia ao corolenismo no cinema brasileiro (exercido, segundo ele, pela família Barreto e por Cacá Diegues e Hector Babenco, bem como por cineasta de uma nova geração, os quais se limitam a repetir fórmulas consagradas. Sobre isso, afirma:


Por mais que se diga que o cinema é uma arte nova, ele está em extinção, então é preciso um olhor novo, que não esteja preso a regras, estereótipos, mercado


Destaco também o compromisso com os problemas sociais mencionado pelo cineasta, bem como o moralismo hipocríta em relação à nudez no cinema:


O cara mata, rouba, estupra criancinha e sai livre; a gente coloca um cara nu em um filme e isso é crime? Isso mé falsa moral, prepotência, anacronismo”.


Ps. embora a reportagem esteja on-line na íntegra no site da revista, há outras matérias que não estão e justificam a compra da revista, como as de capa, sobre o intelectual francês Michel Foucault e a sobre o intelectual brasileiro Sérgio Buarque de Holanda.



Alberto Bezerra de Abreu, 08/07/2011


segunda-feira, 23 de maio de 2011

PostHeaderIcon Cannes 2011 ou quando o “patrulhamento ideológico” (quase?) se sobprepõe ao cinema

Lars von Trier

Melancholia

A árvore da vida

A árvore da vida


Em sua 64º edição, o festival de Cannes teve como protagonista uma polêmica não cinematográfica; trata-se da desastrada declaração do cineasta dinamarquês Lars von Trier, o qual, provocativamente, demonstrou simpatia para com Hitler e o nazismo. Certamente Trier sabia que estava mexendo em vespeiro, mas parece-me ter sido deveras ingênuo em não acreditar que a reação pudesse ser tão extrema (o cineasta foi expulso do festival, embora seu filme tenha permanecido entre os concorrentes). Ou será que sua afirmação de que estaria chocado com a reação não passa de puro cinismo? (não tenho e menor dúvida que Trier é profundamente perturbado, mas igualmente genial, persuasivo, corajoso, provocador, iconoclasta e etc.). Sua afirmação, segundo a qual “Talvez Cannes tenha me expulsado para que eu me torne um rebelde maior.”(http://ultimosegundo.ig.com.br/cannes/expulso+de+cannes+von+trier+acha+desagradavel+pedir+desculpas/n1596966883626.html) quiçá pode indicar que seu objetivo maior não era promover seu filme, mas sua visão de mundo (acabo de perceber que terei de esforçar-me imensamente para não converter este texto sobre Cannes numa hermenêutica pessoal da figura fascinantemente asqueirosa – ou asqueirosamente fascinante – e altamente contriversa de Trier). Fato é que a polêmica declaração não vitimou apenas a pessoa do cineasta, mas também seu filme, (em entrevista com Trier, intitulada “Preciso beber e tomar remédio”, a edição do último sábado 21/05/2011 do Jornal do Commercio, Caderno C, p. 4 informou que “o novo longa-metragem de von Trier, Melancholia, que disputa a Palma de Ouro, pode ter sua distribuição internacional boicotada. A rede de cinemas DC, da Argentina, já descartou seu lançamento, que no Brasil está previsto para 5 de agosto”); além disso, mais de uma das fontes por mim consultadas (uma delas antes da premiação, a título de previsão do que poderia ocorrer, outra, posteriormente, a título de explicação do ocorrido), afirmaram que “Melancholia” poderia sair da briga por premiações centrais (melhor filme, melhor diretor) por conta das declarações de seu relizador (saliente-se aqui: tais declarações de Trier nada têm a ver com o conteúdo do filme, ou seja, trata-se dum julgamento exôgeno, de pressões político-ideológicas externas ao âmbito cinematográfico). E, de fato, “Melacholia” foi agraciado tão somente com o prêmio de melhor atriz para Kirsten Dunst, o que gerou a seguinte pergunta: “A escolha de Kirsten Dunst como melhor atriz, por 'Melancholia', esconde uma pergunta, apesar de seu bom trabalho: não teria sido um prêmio de consolação, depois de Lars Von Trier literalmente dar um tiro no pé ao levar uma piada longe demais?” (http://ultimosegundo.ig.com.br/cannes/premiacao+tem+zebras+inexplicaveis/n1596971444326.html), pergunta esta respondida positivamente pelo mesmo texto.

Entretanto, nem só de Lars von Trier vive o cinema autoral de qualidade realizado atualmente, tendo sido o veterano “estadosunidense” Terrence Malick agraciado com a Palma de Ouro de melhor filme nesta polêmica 64º edição do festival de Cannes, com o filme “A árvore da vida” (The tree of life). Autor de filmes clássicos da década de 1970 como “Terra de ningém”(Badlandas, 1973) e “Cinzas no paraíso” (Days of heaven, 1978), Malick sumiu do mapa cinematográfico, retornando 20 anos depois, com o excepcional “Além da linha vermelha” (The thin red line, 1998). Penso que, se, por um lado, a recepção positiva de “A árvore da vida” não foi unânime (longe disso), não é menos verdade que o filme já era considerado um dos favoritos antes da “questão Trier” e que, embora “Melancholia” pudesse, num contexto político ideológico não tão flagrantemente desfavorável, ter brigado realmente pelo prêmio, não ficou no ar (ao menos assim me pareceu, de longe como estou) a sensação de que a escolha pelo filme de Malick tenha se dado exclusivamente pelo fato de Trier não poder ser premiado.

Polêmicas à parte (a serem retomadas posteriormente aqui, em momento oportuno), fomos agraciados com duas promessas de filmaços de dois de meus cineastas favoritos (Malick apenas por “Além da linha vermelha”, seu único filme que assisti até então), Trier por seus últimos filmes (não me agradam os primeiros). Resta torcer para que o “patrulhamento ideológico” não inviabilize sua exibição por estas bandas (embora eu acredite que haverá estados brasileiros nos quais há chance real de isto ocorrer, infelizmente).

Ps. não mencionei os demais filmes, pois desconheço não somente a eles, mas também a seus realizadores; porém, a coisa mais fácil do mundo é informar-se sobre os premiados via internet.



Alberto Bezerra de Abreu, 23/05/2011 (redigido ao som de Rachmaninov)


quarta-feira, 4 de maio de 2011

PostHeaderIcon 15 anos do Cine PE: últimos dias!



Neste ano de 2011, o renomado festival de Cinema de Pernambuco (incialmente chamado "Festival de Cinema do Recife", atual "Cine PE Festival") completa 15 anos. Considerado o maior festival brasileiro em termos de expectadores por sessão, bem como tendo a platéia mais calorosa, a edição deste ano do evento se iniciou no último sábado (30/04/2011) e se encerrará na próxima sexta (06/05/2011).

Meu intento é o de comparecer ao evento todos os dias, intento este que tenho conseguido realizar até agora, apesar do dilúvio que insiste em cair em diversas partes do Estado (tanto no litoral quanto no interior). Pretendo, posteriormente, redigir resenhas pontuais sobre cada um dos filmes que assisti. Por hora, limito-me a enfatizar que o festival está acabando (sexta será o encerramento, havendo entrega de prêmios e exibição de apenas um filme, fora de competição, de modo que as duas últimas noites “valendo” serão a de hoje – quarta-feira, 4 de maio de 2011 e a de amanhã). Destaco, até então, os curtas “Janela molhada” e “As aventuras de Paulo Bruscky” (ambos pernambucanos, os quais eu já havia assistido), “Fábula das três avós”, “Traz outro amigo também”, bem como os educativamente subversivos longas “Augusto Boal e o Teatro do Oprimido” (que me fez conhecer esta figura essencial da cultura brasileira) e “JMB, o famigerado” (que fez-me interessar-me mais pelo hilário “mau velhinho” Jomard Muniz de Britto, “agitador cultural marginal” de Recife – ainda vivo, ao contrário de Boal).


Alberto Bezerra de Abreu, 04/05/2011


quinta-feira, 28 de abril de 2011

PostHeaderIcon A última tentação de Cristo ou como uma ode é recebida como ofensa








Meu nada recente repúdio ao cristianismo institucionalizado (anterior inclusive às leituras de Nietzsche) fez-me ter outrora algumas atitudes um tanto abusadas, como quando, no Ensino Médio, pintei uma cruz de ponta cabeça em minha farda, pondo os números 6,6,6, respectivamente ao lado/ em baixo das três pontas do símbolo (mas como a camisa era azul escura e a “arte” tomava o preto como efetivador), o desenho ficou discreto. Já a insistência em comer carne durante a semana santa durou mais tempo (confesso que neste ano, tendo demasiadas coisas mais urgentes com as quais me preocupar, nem pensei nisso, apesar de que de hoje acabei comendo pirão com guisado de boi). No entanto, minha verve herética se manifestou nesta semana santa no plano cinematográfico: resolvi assistir novamente “A última tentação de Cristo” de Martin Scorsese. Conheci tal obra através de um amigo que a trouxe, há alguns anos (uns três acredito eu, talvez mais). Lembro-me de ter apreciado a obra, mas tendo ficado com uma pulga atrás da orelha em relação a seu conteúdo supostamente polêmico.

Acontece que se trata do famoso filme que mostra Jesus se casando com Maria Madalena. A questão fundamental é em que contexto isso se dá. Ora, meus conhecimentos acerca do cristianismo são parcos; quando cursei a disciplina “filosofia da religião” escolhi traçar uma comparação entre judaísmo e islamismo justamente com o intuito de, ao conhecer um pouco de ambas as religiões, tentar investigar até que ponto suas divergências justificariam seu conflito bélico e constatei que a questão é essencialmente política, pois no plano estritamente religioso elas têm muito mais em comum do que um leigo (como eu) poderia supor e fiz tal escolha também com o intuito de não estudar o cristianismo. Voltando a este último, o filme parece-me ser bem tradicional até chegar na “heresia” próxima do final. A exceção é uma cena em que Cristo está num leito ao lado de vários homens os quais, um a um possuem uma mulher. Após todos se saciarem, ele se aproxima da tal mulher (deitada numa cama/ esteira e despida) e esta, ao perceber de quem se tratava, se cobre com um pudor insuspeito caso se tratasse de qualquer outro homem. Mas este era Jesus e a mulher em questão era Madalena. Somos então informados de que eles se conhecem desde a infância e de que ela é apaixonada por ele que, por sua vez, parece correspondê-la, mas não da mesma forma (a mim, pareceu ser o sentimento dele mais o seguinte: não querer seguir os desígnios do “Senhor”, mas viver uma vida comum com mulher e filhos, sendo Madalena uma boa opção, mas não propriamente uma paixão – tal interpretação está aberta a controvérsias, claro).

No mais, o filme parece retratar a jornada de Cristo de forma bastante tradicional (aliás, o fato de ele fazer cruzes e de conhecer Judas antes dos demais apóstolos também me soou estranho, mas como passei longe da Bíblia até então não posso especular mais a fundo sobre a fidelidade do filme aos textos “Sagrados”). Insisto nesta questão da fidelidade por dois motivos: 1) o filme se inicia com a afirmação de que não se inspira nos Evangelhos; 2) tudo que vá contra os textos “Sagrados” é taxado de herético, infame e mentiroso pelos cristãos donos da verdade .

No decorrer do filme, lá estão as passagens mais célebres da vida de Jesus, conhecidas por todos que tenham o mínimo de cultura cristã, mesmo que não tenha sequer chegado perto da Bíblia; Cristo salvando Madalena do apedrejamento perguntando “quem nunca pecou” (o interessante aqui é que um ancião não intimidado com tal assertiva dizia não ter o que esconder, sendo necessário ao Messias mencionar alguns de seus podres – o fato de enganar seus empregados, bem como um romance indevido – de modo que o argumento me pareceu mais psicológico que moral – enquanto for possível negar meus pecados não hesitarei em apedrejar, mas não ouso faze-lo se muitos sabem de minhas faltas); o batismo de Jesus por João Batista; as meditações e a provação das tentações no deserto (merece destaque aqui a confiança adquirida por Cristo após tal provação, questão essa que mencionarei mais a frente); os milagres (fazer um cego voltar a enxergar, transformar água em vinho); a fúria contra os mercadores no templo; a última ceia; o beijo de Judas.

É interessante a caracterização inicial de um Cristo atormentado, cheio de dúvidas no qual o sentimento predominante é o medo. Ao começar a criar confiança de poder realmente efetivar os desígnios de Deus, faz ele um discurso que não repercute exatamente como o esperado; fala de amor, mas afirma que “os que riem hoje amanhã chorarão” e acaba involuntariamente incitando muitos à violência, ao que ele retruca, decepcionado “eu não disse morte, disse amor”. Após receber o machado de João Batista, Jesus fala em guerra (o que para mim parece mais algo metafórico, ainda que no templo ele efetivamente destrua barraca dos mercadores); no entanto, após o amor e o machado/ guerra, percebe ele que o caminho é o (auto) sacrifício. (As oscilações entre o Jesus medroso e angustiado do início, confiante e altivo pós encontro com João Batista, provações no deserto e “embate” com os mercadores e em desespero após a última ceia, implorando a Deus que haja outro jeito que não seja sua morte na cruz expressam a meu ver uma caracterização verossímil de um homem que enfrentou um grande fardo e realizou um grande feito). Ponto para Scorsese (e para Nikos Kazantzakis, autor do livro no qual o filme foi inspirado) que enfatizaram o lado humano de Cristo (sem negarem seu lado divino – o que pessoalmente considero um ponto negativo).

Um dos aspectos mais interessantes da obra é, sem dúvida, a caracterização de Judas; enviado para assassinar Cristo, resolve segui-lo. Quando este encontra outros apóstolos, Judas (Harvey Keitel, ótimo como sempre) queixa-se serem todos eles muito fracos. Só ele seria forte o suficiente. E essa força ser-lhe-ia cobrada de forma deveras exigente; Cristo não só sabia da “traição” de Judas, mas lhe pedira para perpetrá-la. Desse modo, penso eu, não se pode falar propriamente em traição. Na realidade, só Judas seria suficientemente forte para realizar tal ação, a ponto de Cristo dizer que sua tarefa era mais fácil que a de seu fiel apóstolo. No filme não vemos um Judas trair Jesus por dinheiro, mas – paradoxalmente! – por extrema fidelidade a seu mestre. Tal fato me soa de uma beleza trágica que permite uma analogia bastante significativa: se amo alguém, mas tenho motivos para pensar que tal pessoa será mais feliz com outrem, desistir de tal pessoa não é uma prova de não ama-la, mas, – paradoxalmente – uma prova suprema de amor (desde que tal renúncia tenha sido feita realmente em prol da felicidade do ser amado, e não em virtude de meu medo de ser feliz com a pessoa amada).

Cristo é posto na Cruz; chegamos aqui ao ponto culminante da obra? De forma alguma. Em pleno tormento do Messias, que se pergunta “pai, por que me abandonas-te?”, vemos se desenhar a heresia; diante dele surge uma garota de cabelos loiros que aparenta ter entre 9 e 12 anos, um verdadeiro anjo que veio salvar o salvador da humanidade (e a interpretação da garota é soberba). Deus pediu a Abraão que matasse seu filho, mas quando este provou que o faria, foi impedido. O mesmo se dava então com Jesus, que após tanto sofrer havia cumprido sua missão e não precisaria sacrificar a própria vida. Assim, Cristo escapa de seu destino trágico tao bem conhecido por todos nós ocidentais, sejamos nós cristãos, anticristãos ou qualquer um dos meio-termos existentes entre estes dois extremos. Em cena breve e discreta, vemos Jesus possuindo Madalena. Esta engravida dele, mas acaba falecendo. A “anja”, porém o persuade a arrumar outra esposa, afinal “todas são Madalena, só que com rostos diferentes”. Ele não só arruma esposa, como tem filhos. Encontra então Saul (Paulo) pregando em nome do cristianismo e contando como o Messias foi morto na cruz para nos salvar; Jesus o refuta, dizendo estar vivo e aquele lhe responde dizendo que dá às pessoas a verdade da qual elas precisam (ou seja, afirma explicitamente que não se preocupa em ser fiel aos fatos, mas em ser o mais persuasivo possível, o que provavelmente aconteceu realmente, visto que Cristo nada deixou escrito...).

Jesus envelhece, e próximo de sua morte recebe a visita dos apóstolos; todos lhe são condescendentes, menos Judas; este lhe revela que a “anja” é na verdade o demônio e que ele (Jesus) renunciou a Deus ao aceitar não morrer na cruz. Esta revelação é, de fato, deveras surpreendente. Temos um Jesus covarde, traidor. Nada mais herético, não? Mas ai temos a segunda virada de mesa do filme (e a grande questão a se discutir é até que ponto esta atenua ou mesmo anula a primeira): Jesus ancião (brilhantemente interpretado por Willem Dafoe – ele me parece melhor interpretando o Cristo ancião, apesar de se sair muito bem interpretando o Cristo jovem) cambaleia até o lugar onde fora fixada a cruz na qual ele fora pregado e pede perdão a Deus; vemos então ele novamente jovem, preso à cruz (o que indica que esta sua renúncia ao sacrifício não passou de um sonho). É indiscutível a grande engenhosidade destas duas viradas de mesa (não sei até que ponto isso é produto original do romance...).

Em suma, parece-me que a obra supostamente herética, no fundo constitui uma exaltação da figura de Cristo, essa não sendo ingênua e inverossímil como aquelas que o concebem como infalível (qual seria o mérito de suportar o sofrimento se o sofredor fosse imune a ele?). Não deixa, porém, de ser corajosa, ao apontar caminhos logo taxados de heréticos. Um belo filme, sem dúvida, e que nos faz pensar, e muito (se estivermos dispostos a isso).

Em tempo: não tenho nada contra a figura de Cristo (ainda que minha visão sobre ele seja mais a de um homem a frente do seu tempo – como foram outros antes e depois dele – do que a de um santo ou mais que isso) nem contra o cristianismo puro (se é que isso existiu!), mas contra o que chamo de cristianismo institucionalizado, ou seja, a religião transformada em instrumento de opressão e dominação, auto-intitulada portadora duma verdade inquestionável (acredito que isso começou com Paulo e a fundação da Igreja Católica, mas posso estar enganado; não estou enganado, entretanto, quanto a abundante bestialidade perpetrada em nome de Deus, sejam por cristãos de diferentes cisões, seja por adeptos de outras religiões). A isso, deixo expresso meu mais visceral repúdio.



Alberto Bezerra de Abreu 02/04/2010 (redigido ao som de Chopin e Villa-Lobos)

segunda-feira, 28 de março de 2011

PostHeaderIcon Glauber Rocha: o mais importante cineasta brasileiro?


Todo juízo de valor implica o seguinte questionamento: é ele fundado em algo objetivo ou subjetivo? Inicio o presente texto com tal reflexão para defender a seguinte perspectiva: considerar Glauber Rocha como sendo o melhor cineasta brasileiro é algo inserido no âmbito da subjetividade; eu, por exemplo, sou completamente apaixonado por “Lavoura arcaica”, filme de 2001, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, paixão tal que me faz considerar tal cineasta como o melhor do país, embora o filme citado seja o único por ele realizado até então (além dele, Carvalho dirigiu séries exibidas na Rede Globo, a mais recente delas intitulada “Afinal, o que querem as mulheres?”, merecendo destaque ainda as excelentes “Capitu” e “A pedra do reino”). Porém, admito que tal opinião é subjetiva, pois se insere fortemente em me gosto pessoal; por outro lado, a perspectiva segundo a qual Glauber Rocha foi (e continua sendo) o mais importante cineasta do país, parece-me fundada em dados objetivos, e não em preferências pessoais de gosto. Deixando de lado a posição hipócrita do “ter de gostar de algo por ser ele reconhecidamente bom segundo as autoridades intelectuais”, afirmo que a questão “gostar ou não gostar” do cinema glauberiano é bastante controversa, complexa e ambígua.

Para abordar tal questão espinhenta (colocar o gosto pessoal acima da “autoridade intelectual dos críticos”, os quais dizem o que é bom e o que é ruim), recorrerei à minha experiência pessoal: em meados de 2008, assisti meu primeiro filme de Glauber Rocha na Fundaj, num festival que comemorava os 40 anos do turbulento ano de 1968; tratava-se de “Terra em transe” e achei-o nada menos que excelente, fazendo jus a minha nada singela expectativa; não lembro bem quanto tempo depois, assisti em DVD a “Deus e o diabo na terra do sol” e, não sem certo pesar, sentencio: detestei. Ambos são filmes herméticos e difíceis, ao menos se comparados ao “cinemão” de entretenimento o qual, década após década, somos acostumados a consumir. Porém, enquanto o primeiro me envolveu e me causou empatia, o segundo só me causou enfado e nada me disse. Evidentemente, quando conhecemos algo devidamente contextualizado, temas mais elementos para apreendermos a obra, e como assisti a ambos os filmes já a alguns anos, em época que quase nada sabia de seu realizador, é bem possível que ao (re)assisti-los, minha reação seja outra.

Pois bem, dito isto, chego enfim ao tema que me levou a redigir este texto: neste ano de 2011, completam-se 30 anos da morte de Glauber Rocha e, em justa homenagem, a revista CULT lhe dedicou uma matéria de capa; esta conta com textos de especialistas na obra do cineasta e constituem valiosos dados de introdução no universo glauberiano. Glauber não se limitou a dirigir filmes, mas escrevia para diversos jornais, exercendo a função de agitador cultural e combinando estética com política (seu cinema é o que se pode chamar de engajado, sem, contudo, ser submisso a qualquer determinação externa ao autor: nada de submeter-se aos ditames do Partido – Glauber se dizia comunista, mas nunca filiou-se a tal partido, mantendo assim sua autonomia – ou do que quer que fosse, pois, tanto forma quanto conteúdo advinham do próprio Glauber, e não de modelos pré-estabelecidos).

Percebo que ainda não proferi meu argumento em defesa da perspectiva segundo a qual Glauber é o mais importante cineasta brasileiro; farei-o então agora. Como quis argumentar antes de passar a isso, a questão da qualidade ou não de seu cinema não deixa de passar pela questão subjetiva do gosto, afinal, para algumas pessoas, por mais profundo que seja um filme, se ele não causar algum tipo de prazer, ele é ruim. Neste sentido, poder-se-ia dizer que, “Deus e o diabo...” é um filme ruim. Não concordo com tal perspectiva, mas não tratarei dela neste texto. O foco de minha argumentação é outro; trata-se do seguinte: gostando ou não das obras de Glauber, não se pode negar sua originalidade, bem como a grande repercussão por elas alcançadas, inclusive no exterior (o cineasta chegou a vencer como melhor diretor no festival de Cannes – festival este muito mais sério que o tal do Oscar). Além disso, Glauber tomou a frente do célebre movimento conhecido como Cinema Novo (o qual me remete um pouco ao chamado Neo-realismo italiano, o qual, se não me engano, é pouco anterior ao movimento brasileiro, já que surgiu no imediato pós Segunda Guerra Mundial). Ou seja, Glauber Rocha pode, sem exageros, ser tido como um divisor de águas dentro da cinematografia nacional, coisa que não se pode dizer de Luiz Fernando Carvalho (que fique claro: não estou insinuando que por isto este último seja inferior àquele). Neste sentido, pode-se dizer o seguinte: pode-se gostar ou não de Glauber Rocha, mas não se pode ser indiferente a ele.

Para fechar com chave de ouro, indico o site dedicado à Glauber Rocha; lá há vasto material, inclusive textos do autor; indo na sessão “textos e poesias”, é possível ler seu texto-manifesto “Eztetyka da fome”, bem como outros textos, os quais favorecem sobremaneira uma apreensão mais profunda de seus filmes. http://www.tempoglauber.com.br/



Alberto Bezerra de Abreu, 28/03/2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

PostHeaderIcon Hayao Miyazaki, o “Disney nipônico”

A princesa Mononoke
A viagem de Chihiro
Ponyio - uma amizade que veio do mar
Hayao Miyazaki

Não fosse uma reportagem intitulada “O triunfo do sol nascente”, publicada na saudosa revista de cinema SET (edição 190, de abril de 2003, tendo na capa Hugh Jackman, como Wolverine no filme “X-Men 2”), talvez eu ainda ignorasse a excelente animação japonesa “A viagem de Chihiro”. Até o presente momento, esta é a única obra de Hayao Miyazaki a qual tive oportunidade de assistir (e que merecerá uma resenha específica), mas a presente postagem pretende “apresentar” este soberbo realizador a quem nunca ouviu falar dele. Sua popularidade no Japão é tamanha, que lhe apelidaram de “o Disney japonês”, em referência não só ao sucesso, mas também a qualidade das animações do consagrado Walt Disney.

A princesa Mononoke” (1997) foi a obra através da qual Miyazaki alcançou sucesso internacional; no Japão, o desenho tornou-se a obra cinematográfica detentora da maior bilheteria até então (seria superada por “Titanic”); por sua vez, “A viagem de Chihiro”(2001) superou o filme de James Cameron, tornando-se a maior bilheteria do país (não sei se hoje persiste esse recorde, até porque outros filmes de Miyazaki foram lançados, e estes quebrarem o recorde de bilheteria do cinema no Japão é algo comum); além disso, Chihiro venceu o Urso de Ouro no festival de Berlim e arrebatou o Oscar de melhor animação (na estreia daquela categoria no evento); por fim (e por isso mesmo pode-se falar do papel revolucionário exercido pelo desenho), este personificou a ressurreição da animação tradicional no ocidente (era comum na época, considerar sua obsolência em relação à animação computadorizada). Cabe salientar que ambos os desenhos integram a lista do livro “1001 filmes para ver antes de morrer”.

Recentemente (em 2009, se não me engano), estreou no Brasil “Ponyo – Uma amizade que veio do mar” (2008), desenho este que não teria me chamado atenção, não fosse eu saber que se tratava de uma obra “do criador de 'A viagem de Chihiro'”, se bem que acabei não indo assisti-lo e ainda não o vi em dvd. O fato é que Miazaki é um mestre da fantasia, conseguindo envolver simultaneamente crianças e adultos; sua animação é belíssima e bastante expressiva, mesmo sem utilizar traços detalhados nas expressões faciais dos personagens; criatividade, encanto e profundidade (sem descambar para um pedantismo intelectualista que por vezes prejudica demasiadamente o cinema autoral europeu) são suas marcas registradas. Embora beba em elementos típicos da animação japonesa (um gênero bastante popular por lá, desde o célebre, e não raro tachado, mesmo no ocidente, como obra-prima “Akira” [1988], passando por obras televisivas que muito sucesso fizeram no Brasil – “Cavaleiros do zodiaco”, “Dragon Ball” e “Yu-Yu Hakusho”), as obras de Miyazaki parecem ter sua própria magia, pessoal e específica.

Por ter assistido apenas “A viagem de Chihiro”, não posso redigir um relato mais aprofundado acerca da obra de Miyazaki, então posto um link com uma lista de seus 10 melhores filmes: http://melhoresfilmes.com.br/diretores/hayao-miyazaki

Para finalizar, cabe dizer que o intento desta postagem foi homenagear (e ao mesmo tempo divulgar) o trabalho de Hayao Miyazaki, cabendo salientar que, embora haja assistido apenas a uma de suas obras, esta foi mais que suficiente para considerar-me já seu fã.


Alberto Bezerra de Abreu, 13/03/2011




sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

PostHeaderIcon III janela internacional de cinema do Recife: um festival de gente grande

Três homens em conflito
Cópia fiel
Masala Mama
Poesia (Shi)



Escolhi iniciar meu texto sobre a III janela internacional de cinema do Recife relatando um fato curioso: a não muito tempo, percebi que na parte interna do banheiro masculino do cinema da Fundação Joaquim Nabuco havia um adesivo divulgando a II janela internacional de cinema do Recife; ora, era óbvio tratar-se dum festival de cinema, mas eu não o conhecia e fiquei especulando (ainda que não por muito tempo) que tipo de festival seria. Não tardou e pude conferir com meus próprios olhos (e ouvidos, e etc.) do que se tratava, pois de realizou-se na capital pernambucana a terceira edição do evento.

Pois bem, que posso eu dizer acerca do festival como um todo? Pela grande quantidade de filmes, pela duração extensa do evento (mais de uma semana), pela quantidade de público (pequeno em algumas sessões, mas bastante expressivo noutras) e pela qualidade e diversidade dos filmes, posso afirmar tratar-se dum festival de gente grande. Cabe salientar que a organização também foi boa, com exceção de tortuosa estadia nas salas de espera do São Luiz e do cinema da Fundação, que são locais bastante quentes.

Ao contrário das versões anteriores do festival (as quais não fui, mas fiquei sabendo através de pesquisa), dessa vez as exibições de dividiram entre a Fundaj (cinema da Fundação Joaquim Nabuco) e o tradicionalíssimo São Luiz (reaberto no início do ano). Antes as divisão ocorria entre Fundaj e cineteatro Apolo.

Outro aspecto importante a se destacar consiste nas diferenças entre a janela internacional de cinema do Recife e o cine PE festival: este é bem mais antigo (iniciado em 1997, então com o nome festival de cinema do Recife), possui um público diversificado (em meio a cinéfilos e profissionais da área, são comuns os “arroz de festa”, que muitas vezes passam mais tempo do lado de fora do cineteatro Guararapes que dentro dele), e se restringe a exibição de títulos nacionais (entre curtas e longas, ficção e documentário, animações e não-animações); aquele, por sua vez, é recente (está em sua terceira edição), possui um público menor (embora não seja exatamente pequeno – durante a primeira exibição de “Três homens em conflito” quase todos os 700 lugares do São Luiz foram ocupados) e mais específico, embora também alterne a exibição de longas e curtas, ficção e documentário, animação e não-animação, não se restringe à títulos nacionais, exibindo filmes de diversos países.

Terminado o singelo relato sobre a estrutura e o significado do evento, passemos às considerações acerca dos filmes exibidos que consegui assistir (fica aqui aberto o espaço para que outras pessoas escrevam sobre os filmes não contemplados neste texto, mas também para que escrevam sobre filmes por mim aqui mencionados); para tornar a leitura mais agradável e facilitar a localização, porei cada obra em destaque, na ordem em que as assisti. Antes de escrever minhas considerações pessoais, postarei as sinopses dos respectivos filmes (extraídas de um pequeno caderno que estava sendo vendido no evento por 5$) logo abaixo dos títulos, destacados em itálico e postos entre parenteses.


Três homens em conflito (El buono, il bruto, il cativo, Itália/ Espanha/ Alemanha 1966, de Sérgio Leone)

(Em meio à Guerra Civil Americana, três homens, Tuco, Blondie e Angel Eyes, fazem de tudo para colocar as mãos em 200 mil dólares roubados.)

Primeiro filme de Leone que assisti, “Três homens em conflito” foi-me uma grata surpresa. Embora a classificação western/ faroeste não lhe seja indevida, trata-se, ao meu ver, de uma meia-verdade, pois a obra flerta com gêneros diversos; é importante esclarecer que esta terceira parte da chamada “trilogia do dólar” não necessita de conhecimento das anteriores para ser entendida, já que se trata duma trilogia temática (pistoleiros em busca de dinheiro no velho oeste ou algo semelhante), e não duma trilogia cronológica (tanto que atores de um filme interpretam papeis diferente em outro). Além disso, ao contrário das partes anteriores, esta, a final, merece a alcunha de obra-prima, pois mostra um diretor com pleno domínio da matéria-prima da qual se utiliza. Este será um dos filmes aqui abordados que merecerá resenha específica posteriormente. Por fim, cabe salientar que a primeira sessão (exibida no São Luiz) foi um marco: as quase 700 pessoas que compareceram ao tradicional cinema pernambucano aplaudiram o clássico de Leone após seu término (que se aproximou de 3h de exibição). Sessão memorável aquela.


Janela molhada (PE, 2010, de Marcos Enrique Lopes)

(A história dos pioneiros do cinema pernambucano, os italianos Ugo Falangola e J. Cambieri, e a problemática da restauração de acervos do cinema mudo brasileiro.)

O nome Marcos Enrique Lopes (diretor deste filme) não me era estranho: após haver lido alguma coisa do filósofo pernambucano Evaldo Coutinho (falecido em 2007), e de ter pesquisado sobre sua vida (já que este, apesar de sua profundidade e originalidade, foi quase totalmente ignorado em vida, situação esta que persiste após sua morte), cheguei ao nome de Lopes, que em 2000/1 dirigiu o documentário “A composição do vazio” tendo o filósofo como tema. Não tive oportunidade ainda de assistir tal obra, de modo que “Janela molhada” foi minha primeira incursão no cinema de Lopes. Como dito na sinopse, o filme (documentário), trata dos primórdios do cinema em Pernambuco, bem como do resgate dessas primeiras obras. A menção a filme encomendados, que divulgavam ideologias dominantes me remeteu à “Cinema, aspirinas e urubus”, filme que mostra um alemão que vendia aspirinas no sertão nordestino durante a segunda guerra mundial, utilizando-se de um cinema improvisado para divulgar o produto (filme belíssimo!). Já a menção ao papel dos imigrantes na produção das primeiras obras cinematográficas em PE me remeteu ao filme “Baile perfumado”, já que nele se mostra a história de alguém que filmou o bando de Lampião com o consentimento deste (um turco, se não me engano). Dentre os clássicos dos primórdios da sétima arte em Pernambuco, foram citados os seguintes filmes: “Veneza americana”; “A filha do advogado”; “Sangue mineiro”; “Aiataré da praia” (para quem quiser aprofundar-se no assunto, indico o pequeno livro de Alexandre Figueroa, intitulado “Cinema pernambucano: uma história em ciclos”, que narra dos primórdios até o chamado cinema de retomada, que vai até o final dos anos 1990, início dos anos 2000, bem como – acabo de descobrir este livro agora, ao escrever este texto – “Relembrando o cinema pernambucano”, de Paulo Cunha, que trata do cinema em Pernambuco nas décadas de 1920 e 1930). Por fim, cabe mencionar (e apoiar) a fala de protesto de Lopes acerca das dificuldades de exibição (incluindo a crítica ao fato de não se ter incluído “Janela molhada” na edição deste ano do Cine PE; sobre isso, afirmo o seguinte: não é por tratar do cinema pernambucano que o curta de Lopes merecia estar no festival, mas por sua qualidade, até porque, em que pese a alta qualidade de alguns dos curtas exibidos no Cine PE deste ano, sem sombra de dúvidas assisti a alguns que considero flagrantemente inferiores ao de Lopes). Cabe salientar ainda que este curta, juntamente com outros (não sei quais), está sendo vendido em dvd (por 10,00) no cinema da Fundação (no térreo, ao lado da portaria), mas ainda não consegui comprar o meu (sempre encontro o local fechado ¬¬). Por fim (quase esqueço), destaco a fala de uma mulher da plateia, que conclamou o cineasta a não desanimar e desistir de “brigar” para conseguir exibições, já que ambos – o realizador e o público – sairiam perdendo. Intervenção deveras pertinente, mostrando que o debate, por vezes, mais que importante, é essencial.


Fantasmas (MG, 2009, de André Novais de Oliveira)

(O fantasma da ex.)

Filme curiosíssimo, mostra-nos um cenário de um posto de gasolina e suas imediações, complementado pela conversa de dois rapazes (que em momento algum aparecem); não é difícil perceber tratar-se duma câmera (mesmo antes que os diálogos confirmem a suspeita) e o desfecho é surpreendente, criativo e um tanto absurdo (e, no entanto, verossímil): ver para esquecer (se não deu para entender, assistam o filme; não fui mais específico para não estragar a possível surpresa). Cabe mencionar um fato curioso: em que pese a qualidade do filme, durante o debate com os realizadores dos curtas exibidos naquela sessão, o diretor de “Fantasmas” não conseguiu falar satisfatoriamente sobre seu filme; percebi timidez que o deixava desconfortável naquela exposição pública de sua pessoa.


Supermemórias (CE, 2010, de Danilo Carvalho)

(Mais uma memória para uma cidade sem lembranças... Um olhar sobre a cidade de Fortaleza – CE – Brasil – a partir de registros caseiros em super 8 das décadas de 60, 70 e 80. Este filme é fruto de uma manifestação da cidade no ato de doar suas memórias para uma poesia coletiva.)

Um filme bonito, que se vale de diversas (flagrantemente antigas) imagens de famílias na praia (mas em outros locais também), mas que me pareceu um tanto vago quando de sua exibição. Porém,

este filme se torna muito mais interessante quando nos é explicado do que se trata (a sinopse acima, que eu não lera antes de assisti-lo cumpre um pouco esta função, porém, foi a fala do diretor, pós exibição que tornou o filme mais interessante); trata-se de um verdadeiro “caleidoscópio afetivo” (são palavras dele), no qual se fundem imagens antigas de diversas famílias de Fortaleza, que as cederam ao cineasta, para compor a obra. O que as unifica? Justamente a temática de memória, somada a esta abordagem familiar (não recordo de imagens que mostrassem pessoas só).


Aeroporto (PE, 2010, de Marcelo Pedroso)

(Estarei partindo logo. É estranho pensar que esse tempo está acabando, as pessoas que conheci aqui parecem quase velhos amigos agora. Provavelmente, nunca mais vou vê-las. Um pensamento triste, mas acho, bem realista. A Austrália é tão longe do resto do mundo...)

Trata-se dum filme interessante, em certo sentido semelhante ao anterior (enfatizando as imagens em detrimento das palavras, ainda que estas não sejam inexistentes), mas, ao contrário daquele, aqui temos imagens novas, recentes e um espaço maior para depoimentos, ainda que a imagem prevaleça. As cores são fortes, belas e marcantes. No entanto, o que mais chamou-me atenção foram aspectos dos quais me apropriei de maneira muito pessoal: a idéia de que quem possui residência com pátio deseja prédio, como forma de segurança (isto me lembrou uma amiga que mora em SP e me relatava o quão inviável – por questões justamente de segurança – se tornou morar em casas naquela cidade); a contraposição de Brasília como utopia, e São Paulo como distopia; e aquilo que mais me envolveu: o início num pátio de aviões, mostrando-se uma mulher tomando café num aeroporto (situação na qual me vi pouco tempo antes de assistir ao filme e que por isso tornou-se bastante próxima para mim).


Por um punhado de dólares (Per um pugno dei dollar, Itália/ Espanha/ Alemanha 1964, de Sérgio Leone)

(Joe, um ex-sargento do exército da União, durante a Guerra Civil, dirige-se a San Miguel, um povoado na fronteira do México com os Estados Unidos, onde reina a confusão e abundam os bandidos e as viúvas. Neste povoado, duas famílias disputam a supremacia do território.)

Esta primeira parte da chamada “trilogia do dólar” de Leone corresponde a um típico filme western (faroeste), sem as grandes interpretações e sofisticações estéticas e narrativas de “Três homens em conflito” (terceira parte e disparado o melhor filme da trilogia). Trata-se do filme que tornou Clint Eastwood conhecido, consistindo numa adaptação ou releitura de “Yojimbo” (1961) de Kurosawa, substituindo o samurai do filme original por um pistoleiro do velho-oeste. Há algumas boas sacadas, como as belas paisagens naturais, o close nos pés de dois homens que duelam e algumas falas interessantes, como aquela em que o oportunista (quiçá ganancioso) protagonista afirma: “quando tem dinheiro um homem começa a gostar da paz”.


Copie conforme (Certified Copy, França/ Itália, 2010, de Abbas Kiarostami) Cópia fiel

(Essa é a estória do encontro entre um homem e uma mulher, em um pequeno vilarejo ao sudoeste de Toscana. O homem, um escritor britânico que acabara de dar uma palestra em uma conferência. A mulher, francesa, dona de uma galeria de arte. Essa é uma estória comum. Poderia acontecer com qualquer um. Em qualquer lugar.)

Tomei conhecimento do cineasta iraniano Abbas Kiarostami quando um amigo (cerca de 1 anos antes do evento em questão) gravou para mim “Gosto de cereja” (entre outros, os quais ainda não assisti ¬¬); li sobre o filme no livro “1001 filmes para ver antes de morrer” e cheguei até a encontrar um artigo sobre o cineasta na internet, mas só travei contato efetivo com sua obra ao assistir “Certified Copy” (traduzido, de maneira demasiado literal no folder do evento como “Copie conforme”, mas traduzido, de maneira mais apropriada nas legendas do próprio filme como “Cópia fiel”); trata-se de outro filme que merece uma resenha a parte; o que posso dizer resumidamente é que esperava um filme mais artístico e mais denso (acabei achando-o mais comum do que esperava), porém, gostei bastante dele e este aspecto “comum” parece antes um mérito do que um defeito, pois o filme não deixa de ser profundo e esteticamente belo (e também poético); no entanto, não há espaço para romance idealizado: vemos, isso sim, a dificuldade de entendimento entre um casal de meia idade que se respeita, se gosta, mas não se entende. Uma simplicidade aparente que “esconde” grande profundidade; um ótimo exemplo consiste em como pequenos detalhes fazem toda diferença para uma mulher, algo que é mostrado de forma simultaneamente sutil e contundente. Filmaço.


Não filme em três actos e um prelúdio (Portugal, 2010, de Rita Macedo)

(Um passeio conduzido por uma cabeça sem corpo, dois personagens invisíveis que têm pedras como corpos, uma cineasta sufocada por seu próprio filme e duas criaturas solitárias tipo Virgem Maria.)

É possível que o idioma (português de Portugal, muito próximo do brasileiro na escrita, mas bastante diferente na pronúncia) tenha atrapalhado significativamente minha apreciação do filme, que independentemente disso é hermético, experimental, mas o fato é que achei-o chato, pretensioso e nada consegui retirar dele (o que não significa que eu seja um detrator do hermético/ experimental em si).


Rech. Jf pour court métrage rémunére (Procuro garota para trabalho remunerado em curta metragem, França, 2010, de Manuel Schapira)

(Atriz que também trabalha na bilheteria de uma sala de cinema, responde a um anúncio de teste de elenco.)

Dando continuidade a sinopse, o que posso dizer é que a pretensa atriz encontra o diretor/ produtor e percebendo sua conversa fiada (ainda que ele pudesse realmente ser o que dizia e pretende-se de fato usa-la no filme, o fato é que o “fator cama” estava incluso no pacote). Ao contrário do anterior este filme nada tem de hermético, mas não entendi onde ele queria chegar, pois limita-se a retratar uma acontecimento cotidiano; não há crítica, apologia, reflexão acerca dele, apenas sua exposição, algo que remete ao documental, embora trate-se duma ficção. (Talvez seja baseado numa história real e tenha valor subjetivo para alguém...).


Amnesia (Rússia, 2009, de Cornelia Swann)

(Inspirado por uma série de TV e “Rebecca” de Hitchcock, o filme começa com uma heroína que descobre que seu marido é Pierce Brosnan. Ele dá pra ela um celular para que ela lembre do seu passado.)

Primeiramente, não consegui perceber absolutamente nada do que é dito nesta sinopse no filme; eis minha tentativa de descreve-lo: trata-se duma narrativa em que o narrador não aparece; cenas cotidianas (mar, pessoas, objetos) são mostradas e o que me parece ser o foco do filme é a questão: “o que é real?”. Achei-o um tanto hermético e me perdi em sua narrativa (seria esse o intuito?), mas não o achei aborrecido e pretensioso como o filme português de Rita Macedo acima comentado.


Masala mama (Singapura, 2010, de Michael Kam)

(Um garoto fascinado por super-heróis rouba uma revista de quadrinhos de uma pequena mercearia indiana (“mama shop”).)

O vendedor da mercearia acaba se convertendo no herói idealizado do garoto, constituindo uma espécie de mistura entre super-Mario e Robin; o filme é leve, divertido e curtinho.


Long live the new flesh (Vida longa à nova carne, Bélgica, 2009, de Nicolas Provost)

(Fragmentos de filmes de horror se consomem entre si. Uma nova história visual surge além do terror.)

Boa parte dos filmes “modificados” nesta curta me são completamente estranhos; talvez o mais famoso seja “O iluminado” que aparece – como todos os demais – de forma estilizada, uma imagem “derretendo” e originando outra, cores borradas, num verdadeiro mosaico caledoiscópico. Aparece também o filme Alien (não sei qual/ quais); a trilha sonora é potente, a intensidade e mistura das cores remete à pintura, numa imbricação entre o figurativo e o abstrato. Sendo estranho e envolvente, o filme pode ser satisfatoriamente descrito como uma psicodelia visual.


Por uns dólares a mais (Per qualche dollar in piu, Itália/ Espanha/ Alemanha 1965, de Sérgio Leone)

(Nos tempos em que valia mais um morto que um vivo, dois caçadores de recompensas: “O Manco” e o Coronel Mortimer. Rivais entre si a princípio, acabam se unindo para conseguir uma mesma presa, “O Índio”, um perigoso e sanguinário bandido pelo qual se oferece a mais alta recompensa conhecida.)

Na segunda parte da “trilogia do dólar” de Leone, há uma nítida evolução em todos os sentidos, a começar pelas atuações (o protagonista Eastwood é, sem dúvida, o mais fraco, mas o outro caçador de recompensa convence) e merece destaque ainda o atípico vilão de olhar perdido, que parece antes melancólico do que sádico. Penso que este esteja mais perto de “Por um punhado de dolares” que de “Três homens em conflito” (ou seja, constituindo antes um bom faroeste, do que uma obra-prima polivalente, travestida de faroeste mas transcendendo o gênero); no entanto, acredito que este segundo episódio ilustre bem a evolução que iria culminar no excepcional fechamento da trilogia. Frase marcante: “roubar é fácil, difícil é permanecer com o dinheiro”


Copo de leite (PE, 2004, de Jura Capela)

(Três mulheres conectadas pela música, pela água do mar, pela água doce e por um copo de leite.)

Trazendo Hermila Guedes como uma das protagonistas, o filme me pareceu vago demais; nada consegui apreender dele e limitei-me a apreciar o belo corpo parcialmente nu de outra das protagonistas, em belas cenas na praia.


Paranã-Puca “onde o mar se arrebenta” (PE, 2010, de Jura Capela)

(Documentário sobre o panorama das artes plásticas da capital de Pernambuco. O filme é uma pesquisa sobre os diversos grupos de arte e artistas da década de 1930 até os dias atuais. A narrativa mostra as várias situações econômicas e históricas que se passaram nestas décadas no Brasil. A pesquisa é baseada em artistas do Recife, localizado no nordeste brasileiro, mas os depoimentos refletem de uma forma direta a situação da arte contemporânea em todo o país.)

Trata-se de um longa rico naquilo que se propõe a mostrar, tendo como principal veículo para tanto, depoimentos de importantes artistas como Abelardo da Hora e Paulo Brucky; no caso do primeiro, destaco sua fala acerca da influência que Diego Reviera exerceu sobre os artistas plásticos no que concerne ao papel social da arte (em meados do século XX, pois Abelardo já é bastante idoso); Bruscky, por sua vez, possui perfil mais provocativo; entre suas afirmações está a de que no período da ditadura só se pensava por meio de provocação (pelo que eu entendi, sua perspectiva é a de que só se conseguiria acordar o “povão” de sua letargia mediante choques); proclamando-se artista conceitual, Bruscky afirma ter-se enveredado pelo funcionalismo público como forma de obter liberdade artística, sem ter de fazer concessões; afirmou ainda que a função do artista é deixar o testemunho de sua época; Gil Vicente também aparece no filme, mas não lembro se pessoalmente ou só em relatos de outro/s. Filme importante para melhor conhecer-mos a cultura pernambucana no âmbito das artes plásticas (ainda hoje não gozando do mesmo status que outros gêneros artísticos, salvo exceções).


Baptista virou máquina (de Carlos Dowling) filme concerto banda Burro Morto

(Entenda-se por trilha -visual o filme composto com base nas músicas e conceitos narrativos-sonoros provocadores iniciais, buscando uma sobreposição visual e imagética à sonoridade a ambivalência musical, resultando na busca de processo audiovisual integrado.)

A idéia era aliar o filme (que possui momentos de sonoridade própria) com músicas executadas ao vivo por uma banda (para mim, não sendo som e imagem produzidos simultaneamente, faria mais sentido a trilha ser composta para o filme e não o contrário, como a sinopse afirma ter ocorrido) pareceu-me flagrantemente mal sucedida. O filme se inicia com um homem trabalhando numa fábrica – ou algo similar – , adormecendo e enveredando por uma quase epopeia; um dos momentos que merece destaque é aquele onde ele adentrar uma espécie de bar/ boate vazia e liga uma junkebox; simultaneamente a banda recomeça a tocar (trecho particularmente vigoroso) e o protagonista se vê em meio a várias mulheres nuas, mas usando mascaras (daquelas que se usa quando vai sodar algo, para proteger a visão e o rosto), enquanto ele aparece sem a máscara (que usava no começo do filme); a medida que o enredo avança, fica-se cada vez mais confuso e surreal, mas não exatamente envolvente; a música, por outro lado (a cargo da banda Burro Morto) mostrou-se envolvente; prevalecendo o rock, com pitadas de progressivo e trechos mais pesados, o som exclusivamente instrumental dos caras se destacou em relação às imagens, ao invés de se fundir com elas (cabe salientar que tal opinião, de que a música foi melhor que as imagens, e de que estes dois aspectos não casaram como se pretendia, foi compartilhada por um amigo meu).


Desassossego (filme das maravilhas) RJ/CE/MG/SP, 2010 Karim Aïnouz

(Baseados em uma carta inspirada em um bilhete escrito por uma menina de 16 anos, quatorze cineastas do Rio, de Minas, do Ceará e de São Paulo, dirigiram os fragmentos de aventura, utopia e explosão reunidos neste filme. Terceira parte da trilogia Coração no Fogo.)

Quando assisti ao filme, não havia lido a sinopse, o que tornou o enredo vago, porém, no debate, realizado após a exibição, as informações tornaram-no um pouco mais compreensível; trata-se dum mosaico cinematográfico: diferentes cineastas gravaram suas respectivas partes e estas foram reunidas numa unidade fragmentária; cabe salientar que a versão exibida possuía 55 minutos, sendo a final terá 1:10, ganhando prólogo. Sendo difícil descrevê-lo em detalhes, cabe a cada um tentar assisti-lo (para mim, foi um filme a mais entre outros, sem destaques positivos ou negativos).


Poesia (Shi, Coréia do Sul, 2010, de Lee Chang-Dong)

(Mija vive com seu neto e uma cidade localizada nas encostas do rio Han. Por um acaso, ela acaba entrando em uma “aula de poesia” que acontece em um centro cultural na vizinhança e é desafiada pela primeira vez em sua vida a escrever um poema. Sua busca pela inspiração começa com uma observação do cotidiano da vida e da beleza que há nela, das coisas que acontece ao seu redor e que ela nunca havia reparado antes. Mija nasce novamente.)

Embora tivesse boa expectativa em relação ao filme (bem como ao cinema coreano como um todo), posso dizer que “Poesia” foi-me uma grata surpresa. Trata-se dum exemplo contundente de como a simplicidade e a sutileza podem render um resultado excepcional. A sinopse acima reproduzida retrata bem o enredo do filme, esquecendo de duas coisas importantes: simultaneamente à busca da protagonista pela poesia (por produzi-la), somos apresentados a vileza do mundo real: seu neto (mal educado, por ter sido mimado) praticou, juntamente com outros jovens, estupros a uma jovem que acabou se suicidando e para evitar que isso chegasse a público, os pais (ricos) dos outros garotos fizeram um alto acordo financeiro com a pobre camponesa mãe da garota; além disso, a protagonista descobre estar em estágio inicial de alzheimer (de modo que provavelmente, em alguns anos – ou meses! – não se lembrará da poesia buscada). No entanto, é justamente da beleza do mundo (flores, pássaros, a beleza das palavras nas poesias de outrem, bem como do cuidado, atenção e apreço dedicados a elas) que a protagonista irá se nutrir, não para escrever o poema, mas para acha-lo no coração, como diz numa de suas falas.


Alberto Bezerra de Abreu (novembro de 2010 – fevereiro de 2011)

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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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