sábado, 7 de agosto de 2010

PostHeaderIcon Um dia muito especial: cotidiano + paixão + fascismo + subversão = obra-prima





Enfim a sessão de clássicos do cinema São Luiz deixou de lado as comédias (nada contra, mas acredito que seria melhor ter variado o gênero ao invés terem passado duas seguidas: “Meu Tio” e “Quanto mais quente melhor”). “Um dia muito especial” (Una Giornata Particolare; Itália, 1977, direção: Ettore Scola ) constitui uma espécie de drama de costumes e simultaneamente, romance malfadado. A história se inicia com imagens de arquivo da visita de Hitler a Itália e sua recepção pública por Mussolini. Na realidade, tais cenas possuem uma duração até longa se levarmos em conta que sua utilização se dá a título de introdução ou prólogo. Em seguida, vemos uma dona-de-casa italiana (Antonietta, interpretada por Sophia Loren) acordando seus vários filhos (não lembro exatamente quantos) e marido; os preparativos cotidianos deles são mostrados com certo detalhe, o que demonstra certo viés realista do filme (numa de suas falas, a personagem de Loren afirma que precisariam três mães na casa: “uma para arrumar a cozinha, outra os quartos e eu, para dormir”); não demora muito e somos informados que todos – exceto Antonietta – irão ao desfile militar no qual Hitler será recebido por Mussolini (aquilo que é mostrado no prólogo, como já dissemos); a maneira como a câmera passeia em visão panorâmica pelo prédio popular no qual a família reside é belíssima e mostra como praticamente todos os habitantes do local se dirigem para o tal grande evento.
O título do filme tem um duplo sentido: trata-se de um dia especial pelo desfile nazi-fascista que as pessoas em geral acompanham com entusiasmo, bem como um encontro insuspeito entre duas pessoas que sobrevivem apesar das dificuldades e ao se conhecerem, acrescentam algo importante na vida um do outro. Tudo se inicia quando o pássaro de estimação da família de Antonietta foge pela janela, pousando próximo da janela do apartamento em frente; a mulher percebe que há alguém lá e tenta gritar de seu apartamento, mas sem obter resultado, acaba tocando na campanhia do vizinho, que atende surpreso. Vemos então um homem maduro, gentil e educado, mas com um ar levemente melancólico; trata-se de Gabriele (Marcello Mastroianni), um intelectual (vemos em seu apartamento diversos livros – um dos quais ele empresta a Antonietta – e alguns quadros) recentemente demitido de seu emprego de locutor de radio devido as suas tendências consideradas subversivas durante o vigente regime fascista. Uma das grandes sacadas do filme é que a subversão de Gabriele não se refere – como pensei inicialmente – a simpatia ou mesmo adesão ao comunismo, tratando-se antes de um detalhe que prefiro não revelar, pois aqueles que não lerem a sinopse do filme podem ter a mesma surpresa que tive ao assisti-lo (a sinopse estraga a surpresa mas eu não farei isso aqui!).
Após uma estadia não tão breve assim na casa de Gabriele, Antonietta volta ao seu apartamento, mas ele, que mora só e estava bastante solitário (na realidade, ao tocar em sua campanhia ela evitou que ele cometesse suicídio) a visita em seguida; um elemento cômico (e simultaneamente realista) é a zeladora do prédio (uma figura desprezível: fofoqueira, preconceituosa – adepta ortodoxa do fascismo que, apesar de não ter ido ao desfile, acompanhou-o atentamente pelo rádio – e ostentando um incômodo buço que lhe confere certo ar de repugnância), que por duas vezes bate na porta de Antonietta, não tanto para censura-la por estar sozinha com um homem em seu apartamento, mesmo sendo casada e mãe de vários filhos, mas antes por estar na companhia de um subversivo. É deveras interessante o dilema na qual a dona-de-casa se vê: apesar de ter ficado bastante interessada naquele homem peculiar, ela é casada; além disso, mesmo que nada ocorra entre eles, ao receber sozinha um cavalheiro em sua casa ela está batendo de frente com uma convenção social; há ainda uma oposição entre Antonietta e Gabriele que só ficará mais explicita no decorrer do filme: ela é também entusiasta do fascismo e tem adoração por Mussolini a ponto de ter um álbum com fotos dele e ter feito uma imagem sua formada pela junção de botões de diversas cores. Ele, apesar de não estar profundamente envolvido com política é, de fato, um “subversivo”. Apesar de ser uma mulher forte, Antonietta não questiona o machismo do fascismo e Gabriele discorda dela, afirmando que uma mulher pode sim ser um gênio: cita como exemplo sua própria mãe num belo diálogo. Aliás, momentos belos são o que não faltam neste ótimo filme: numa cena de uma beleza singela e tocante, Antonietta inventa uma desculpa qualquer para sair da presença de Gabriele e vai até o banheiro para ajeitar seu cabelo, calçando em seguida sapatos de salto alto (já no apartamento dele ela mexia na meia para esconder um furo); ele percebe a mudança em seu cabelo e acredito que este pequeno detalhe revele muito da condição subversiva dele, mas isto só me ficou claro posteriormente.
O beijo entre os dois no pátio onde são estendidas roupas é poética e peculiar, além de muito bonita esteticamente: com o sol atrás deles, vemos apenas os contornos de seus corpos, próximos um do outro. No entanto, não lhes seria possível terem um romance tradicional e em outra passagem marcante, Gabriele esbraveja contra as três funções que deveriam ser exercidas por um verdadeiro homem fascista: as de marido, pai, soldado, afirmando que não poderia ser nenhuma delas. O filme se passa em um único dia (o tal dia especial do título) e seu desfecho não podia ser mais realista, não fazendo concessões ao romantismo. Se saí do cinema encantado naquela noite de sexta-feira, neste momento, ao escrever este texto, percebo que meu apreço pelo filme tornou-se ainda maior. Percebo nele possíveis ecos do neo-realismo italiano, mas com pitadas de romance, além de uma sofisticação que inexistia naquele estilo. Não me parece exagero atribuir a “Um dia muito especial” a alcunha de obra-prima.


Alberto Bezerra de Abreu, 31/07/2010

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