domingo, 15 de agosto de 2010

PostHeaderIcon Viver: desperdício convertido em redenção





Na noite da última sexta-feira não estive no local de costume, pois desisti de cursar a disciplina “sinuca II” este semestre. Assim, me encontrava em casa, lendo o primeiro volume do livro “O conceito de tecnologia”, do filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto, autor/ obra estes que constituem a base de minha dissertação de mestrado. Tal leitura era embalada pelo álbum “The crucible of man” do Iced Earth. Repentinamente tive um pensamento que não constituía propriamente uma novidade em minhas reflexões em termos de temática, mas que revelou uma nova feição em relação a um contexto específico. Explico: muito antes de sequer cogitar fazer filosofia já peguei-me refletindo sobre o sentido da vida, questão essa que parece afligir a muitos (apesar de que nos últimos tempos as pessoas em geral parecem cada vez mais preocupadas em imitar, em detrimento de pensarem com a própria cabeça). No entanto, dessa vez foi diferente, pois tive inicialmente o seguinte pensamento: se eu morresse agora (me refiro ao momento em que tive o pensamento) e pudesse fazer um balanço do valor de minha vida, a que conclusão eu chegaria? Devido a evidente conotação metafísica de tal reflexão, optei por reformula-la da seguinte maneira

(prescindindo da ideia de uma vida postmortem): se eu descobrisse agora ter pouco tempo de vida, que julgamento faria do que foi ela até então? Evidentemente esta reformulação dá ao indivíduo a possibilidade de ao menos fazer com que o epílogo de sua existência valha apena; tipo: “o que você faria se soubesse ter pouco tempo de vida?”. Parece haver duas respostas básicas para tal questão, as quais não são necessariamente – ao menos assim penso eu – auto-excludentes. São elas: procurar exceder-se e certos tipos de prazeres como bebida e sexo ou buscar outro tipo de prazer mais profundo e duradouro, aquele advindo da valorização e boa convivência com as pessoas. Afinal, já diz o ditado que só damos valor quando perdermos, de modo que muitas vezes amamos alguem mas nossas atitudes acabam não estando de acordo com tal sentimento.

Toda essa minha reflexão pessoal me remeteu a um filme que assisti recentemente: “Viver” (Ikiru, 1952) de Akira Kurosawa. Cheguei a tal filme através da leitura da sinopse do DVD “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman (ele de novo!), a qual afirmava serem estes dois filmes, juntamente com “Umberto D” (de Vittorio De Sica) obras fundamentais sobre a temática da velhice. Na realidade, ainda que o filme de Kurosawa traga um protagonista já um tanto velho, a temática trata menos da velhice que da morte eminente, devido a um câncer de estomago; a maneira como o personagem recebe o diagnostico (ou melhor, não recebe) é impagável. Humor na tragedia, como só os grandes sabem expressar. Ao contrário do glacial Isak Borg (protagonista de “Morangos silvestres”), o protagonista de “Viver” não é frio e arrogante, mas antes híbrido e apático. Perde-se na burocracia, mergulhado em toneladas de papeis, agindo de modo mecânico e desanimado. É deveras interessante o exemplo da jovem que abdica do emprego na repartição (ou algo do tipo, lembro-me apenas que se trata dum ambiente burocrático, destinado a aprovar obras públicas) por considerar tal ambiente como morto. Prefere então mudar de emprego, executando um trabalho pesado, dando-nos um contundente exemplo de alguém que não se deixa dominar pelo comodismo, ao contrário dos parasitas burocráticos que empestam o local. A caracterização que Kurosawa faz do sofrimento do povo, que, buscando melhoria em suas condições de vida ver-se num jogo de empurra-empurra onde ninguém assume as responsabilidade que lhe cabem expressa uma crítica social deveras verossímil e pertinente, talvez até mais ao ocidente que ao oriente.

Ao saber de sua condição terminal, o protagonista primeiramente se entrega a bebedeira e a putaria. Com o passar do tempo, porém, percebe que não será com tais prazeres superficiais que fará sua vida ter um sentido maior. Entrega-se então à missão de humanizar – um pouquinho que seja – o ambiente no qual trabalha, visando o bem-estar da população ao invés da comodidade dos funcionários que não se empenham em absolutamente nada. Seu empenho terá como fruto a construção de um parque/praça, no qual ele irá protagonizar uma das mais belas cenas da história do cinema (curtinha e em flashback). Acredito que as obras de Kurosawa tragam lições, e duas das presentes neste filme são a de que a vida tem o sentido que lhe damos e que ela é curta demais, não devendo, portanto, ser negligenciada. Afinal, como escreveu Clarice Lispector: “A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque em um belo dia se morre”.


Alberto Bezerra de Abreu, 21/03/2010

3 comentários:

Aécio Prado Jr disse...

Essa questão do sentido da vida é bem crítica. Em psicologia há uma escola específica, a Logoterapia, criada por Viktor Frankl, um Judeu que passou pelo campo de concentração. Ele percebeu algumas pessoas que resistiam mais quando lhes havia um motivo/razão/sentido para continuar lutando, como: família, amigos, trabalho, estudos.

Tomemos como exemplo Wittgenstein. Foi parar no campo de concentração, e carregava consigo uma mochila para todo lado. A mochila continha o tratado-lógico filosófico. Quando perguntado sobre o que tinha na mochila, dizia que seria uma obra que mudaria toda o rumo da filosofia. Por intermédio do famoso economista, Keynes, é que a obra saiu do campo de concentração e foi publicada.

Husserl também. Desenvolveu sua filosofia escondido na época nazista. Não deixou a situação acabar como seu projeto. Nesse sentido a filosofia nos dá exemplos marcantes de que, desde que a pessoa considere aquilo que faz um dever, antes de tudo para com ele mesmo, então há aí um sentido para viver.

Pois bem, quando me deparo com a questão do sentido da vida eu não consigo encontrar nada significativo, com exceção da idéia de justiça. É a única consideração que faço. Que o sentido da vida é viver uma vida justa. Porque todo o resto se vai, mas acho que no ultimo momento você não pode se recordar de uma injustiça sua.

Mas ai fica a pergunta, uma vida justa em relação ao que ? Numa discussão Aristotélica, qual o BEM da justiça ? Acho que a pessoa antes de tudo, deve ser justa consigo mesmo. Perceber aquilo que tinha poder para fazer e FEZ, ou que tentou com máxima devoção. Seja um estudo, um relacionamento, um trabalho, uma ajuda à alguém.

Então, partindo desse ponto, se soubesse que morreria em tal data, apesar da tentação de transar com todo mundo, eu seria mais um “budista”. Faria tudo que pudesse no sentido do personagem do filme de Kurosawa. Melhoraria a vida ao redor e depois, se desse tempo, Iria para um lugar zen. Faria minha auto-avaliação. Perceberia em que ponto ficou meu karma e pronto. O que tiver de ser será. Minha na natureza é bastante estóica, pode-se dizer.
E por aí vai.

Ótimo tema. Ficaria melhor sendo discutindo numa mesa.

Você já foi no bar dos Abutres ? Fica em cima do Bomber Bar. Recomendo fortemente. Marquemos um dia qualquer.

Abraços.

Miradouro Cinematográfico disse...

Mesmo eu que não sou dado a consensos tenho de admitir: parece que, de fato, somos nós que damos sentido a vida, não tendo ela sentido em si. Dessa forma, por melhor que seja a existência de um dado indivíduo, ele pode escolher ater-se aos aspectos negativos (ainda que estes possam ser raros e efêmeros), ao passo que um grande sofredor poder transformar sua penúria em plenitude. É tudo uma questão de posicionar-se em relação a algo. Como afirmou Sartre (de quem o Sr. desdenhava a priori, mas passou a respeitar, quiçá se interessar) “não importa tanto aquilo que fazem com você, mas aquilo que fazes com o que fazem com você”, ou seja, mais importante que o fato é o posicionamento diante dele. “Viver” de Kurosawa mostra bem como a tragédia pessoal do protagonista foi convertida em elevação de seu espírito, algo que beneficiou tanto ele quanto outras pessoas.
Wittgenstein era meio muito perturbado, mas tinha uma força ímpar em suas convicções, pois sendo rico, alistou-se na guerra para servir não como enfermeiro ou burocrata (sua família tentou interceder neste sentido, já que não conseguiu evitar seu engajamento no conflito), mas indo para a linha de frente. Não sei se antes ou depois disso, abriu mão da herança e viveu como professor secundarista e jardineiro (!?!) após abandonar a filosofia (voltaria a ela, dissipando ao menos parte da ortodoxia inicial do seu “Tractatus Logico-Philosophicus” nas suas “Investigações filosóficas”). No entanto, apesar desta dedicação, viveu mal, sendo alguém fortemente atormentado, e morreu jovem (de câncer, se não me engano).
O caso de Husserl também é amargo; não tanto por ele ter visto seu “discípulo” Heidegger (que dedicou a Husserl a primeira edição de sua obra mais famosa, “Ser e tempo”) tornar-se um contundente colaborador do nazismo (Husserl era judeu). Pior deve ter sido sua constatação de não ter conseguido viabilizar seu projeto hiperbólico de colocar a filosofia no “caminho seguro da ciência” (para usarmos um célebre termo kantiano, ainda que a inspiração de Husserl para este intento tenha sido Descartes). Ainda que tenha sido o pai de um método filosófico bastante frutífero (a fenomenologia), que seria desenvolvida de forma bastante competente por pensadores como Sartre e Merleau-Ponty, além do já citado Heidegger, Husserl não conseguiu concretizar seu já mencionado projeto principal. Além disso, tais “discípulos”, ainda que tenham bebido de forma fundamental em sua fonte, a utilizaram para outros intentos (até mais interessantes, em minha opinião). Para uma justa noção de desilusão husserliana, indico o livro “História da filosofia no século XX”, de Christian Delacampagne (tem na bib. Da UNICAP).

Miradouro Cinematográfico disse...

Sobre essa sua reflexão acerca da justiça, me parece ser pertinente não só a colocação da efetivação (ou seja, não só pensou em fazer – pensamos tantas coisas, algumas ótimas, outras nem tanto, mas pomos tão poucas em prática, como o “emplasto Brás Cubas ou o poema inconcluso de Bentinho – mas fez) como a da máxima devoção. Vc menciou, parece-me, esta última como uma espécie de ressalva: se alguém não obteve êxito num intento, mas tentou (não desistiu) e insistiu (se empenhou), isso também propiciaria mérito. No entanto, alargo a questão: será que um êxito sem esforço/ dedicação ou mesmo sem intenção seria meritório? No primeiro caso, talvez menos; no segundo, talvez não. Porém entramos aqui numa questão deveras espinhosa, a da justiça; parece-me que máximas como a cristã “não faça aos outros aquilo que não queres que façam a ti” (princípio negativo) ou budista (que lhe é anterior) “faça aos outros aquilo que queres que façam a ti” (princípio positivo) continuam sendo nortes essenciais. Assim como o imperativo categórico kantiano (em que pesem as notórias ingenuidades éticas do filósofo): “age de tal maneira que tua ação possa ser convertida em lei universal”. Lembremos que devoção competência por si só não fazem o mérito (vide a extrema competência nazista).
Partindo de teu posicionamento final, coloco outra questão: porque não agir de tal forma desde já? Afinal, se o personagem tinha certeza que teria poucos meses de vida (o que de fato aconteceu), pode ser que nós (supostamente saudáveis) percamos a vida amanhã, bem mais jovens que o protagonista de “Viver” e sem esta notícia derradeira que o fez acordar. Talvez nosso momento derradeiro esteja em pleno curso, lenta e continuamente...
Discutamos numa mesa então! Chamemos outros interlocutores (de preferência que tenham assistido ao filme/ lido a discussão) ou discutamos só nós. O que importa é refletir intersubjetivamente.
Como já te disse, não fui; marquemos sim.

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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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