terça-feira, 8 de maio de 2012

PostHeaderIcon Noite de sábado do Cine PE 2012: estética, conteúdo e entretenimento em doses mais que satisfatórias

                                                                        À beira do caminho

                                                             Maracatu atômico - kaosnavial

                                                                               Km 58

                                                                         Até a vista

                                                      Jorge Mautner - o filho do holocausto

              Heitor D' Alincourt (de preto),  Jorge Mautner (ao centro) e Pedro Bial (trajando uma rídicula calça rosa) na apresentação do filme, antes de sua exibição



Embora isto seja vergonhoso, o fato é que não escrevi sobre os filmes a que assisti na edição de 2011 do Cine PE não por falta de tempo ou por não ter gostado deles, mas essencialmente por preguiça. Dois filmes em especial me marcaram naquele ano (ambos longas e documentários): “Augusto Boal e o teatro do oprimido” (62 min., de Zelito Viana) me apresentou a figura extremamente relevante do dramaturgo Augusto Boal, cuja intenção central (não só estética, mas também política) era a de romper a barreira entre atores e público. Lembrou-me Paulo Freire, mas pareceu-me mais interessante, até por conta da dimensão lúdica. O outro filme foi “JMB, o famigerado” (105 min., de Luci Alcântara), sobre o agitador cultural, poeta, ensaísta e cineasta Jomard Muniz de Britto (seu clássico Cult “O palhaço degolado”, curta em super 8 será por mim resenhado mais ou menos em breve). Ao contrário da figura de Boal (cuja existência eu vergonhosamente ignorava), a persona de Jomard já me era conhecida (inclusive já o vi tanto no próprio Cine PE em 2011, como no Cinema da Fundação); no entanto, Jomard é bem menos reconhecido no Brasil do que Boal, e o fato de aquele ainda estar vivo (ao contrário deste último) torna a situação mais escandalosa, em minha opinião. Deixando 2011 de lado, adentremos no presente ano.

Primeiramente, cabe esclarecer que minha breve incursão na edição passada do Cine PE não se limitou a um mea culpa em virtude de minha não cobertura do evento em 2011; mais do que isso, tratou-se de um link com a edição atual do evento, haja vista que o filme mais significativo da noite de sábado do Cine PE 2012 foi um documentário longa metragem dedicado a (mais) uma figura essencial para a cultura brasileira, embora inexistente no âmbito da mídia hegemônica nacional: Jorge Mautner. Mas deixemos o melhor para o final. A noite de sábado começou com a (re)exibição do longa “À beira do caminho” (100 min., de Breno Silveira), devido aos problemas técnicos que prejudicaram o filme em sua exibição na noite anterior do festival. Cabe salientar que peguei o filme já em andamento (cena de “amor” entre o protagonista, interpretado por João Miguel e a personagem de Dira Paes) e não tenho a mínima idéia de quanto tempo de projeção perdi; só sei que deu para entender perfeitamente a obra. Inicialmente o filme me lembrou “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz) no mote: caminhoneiro segue pela estrada com dor saudade de sua amada; contudo, não demorou para se tornarem nítidas as diferenças entre os dois filmes: em segundo lugar, o sentimento predominante em “À beira do caminho” não era a saudade, mas a culpa, embora em ambos os filmes a solidão exerça papel destacado; em primeiro lugar, em termos técnicos, estéticos e narrativos os filmes são muito diferentes: “Viajo porque preciso...” pode ser caracterizado como filme algo experimental (ver minha resenha em http://www.miradourocinematografico.blogspot.com.br/2011/01/blog-post.html), enquanto “À beira do caminho” é inteiramente convencional. Não darei uma de intelectual pedante (embora algumas pessoas assim me considerem, não é?); “À beira do caminho” é indiscutivelmente mais divertido (o que não significa que seja melhor filme que “Viajo porque preciso...”); o filme de Silveira e fluido e conta com grandes atuações (o guri é ótimo, e constitui a válvula de escape cômica do longa); contudo, o grande destaque da obra é a atuação de João Miguel (ator que já me chamara atenção no excepcional “Cinema, aspirinas e urubus” também de Marcelo Gomes), sobretudo nas cenas em que está barbudo e sentindo o peso duma enorme culpa. Embora eu deteste Roberto Carlos, não posso criticar a utilização de músicas dele no filme, pois estas se encaixam bem com a temática da obra, além de funcionarem como elementos presentes dentro da própria narrativa (o protagonista aparece em flashback cantando uma música de Roberto para sua amada em seu casamento e um CD do “músico” é posto para tocar no caminhão do personagem principal), constituindo algo de verossímil, haja vista que a “música” de Roberto Carlos possui este caráter popular (seria inverossímil se o protagonista fosse fã de Villa-Lobos, por exemplo). Já no que concerne às músicas instrumentais, as quais não fazem parte da narrativa e servem exclusivamente para criar “o clima” almejado pelo diretor, penso constituírem elas o calcanhar de Aquiles do longa; ora, o filme é emotivo e funciona ao emocionar pelo enredo e pelas atuações, de modo que a inserção de músicas feitas sob medida para levar os expectadores às lágrimas me soou como evidente apelação. Isto, em minha opinião, tornou o filme algo piegas, e isto nada têm a ver com o desempenho dos atores, pelo contrário. Penso que a atuação de João Miguel foi tão boa, intensa e convincente que poderia prescindir, senão de trilha sonora, ao menos de uma que fosse tão forçada. Em suma, minha impressão é a de que, para o diretor, emocionar é igual a arrancar lágrimas, o que definitivamente não é o caso. Considero o filme realmente bom, mas poderia ser melhor se o cineasta não se deixasse levar por aquilo que intitularei como “cacoete spielbergiano”. Lamentável.

A mostra competitiva de curtas-metragem se iniciou com a exibição do documentário “Maracatu Atômico – Kaosnavial” (20 min., de Marcelo Pedroso e Afonso Oliveira); embora valorize a divulgação de nossa cultura popular, penso que o curta não disse a que veio, pois ele não parece nem inovar nem se destacar em relação a outros curtas de temática similar. Faço minhas as palavras de Carolina Santos (Diário de Pernambuco, Caderno Viver, sábado 28 de abril de 2012, p.F1):

[...] mostra o encontro de Mautner, autor de Maracatu atômico, com o mestre Zé Duda, do Maracatu Estrela de Ouro, de Aliança. O curta traz uma abordagem superficial da relação do músico com a cultura da região. Ensaia um paralelo das vidas de Mautner com Duda, mas parece muda de idéia com imagens de cavalo-marinho. Perde-se na fragmentação de temas em face ao pouco tempo disponível”.

O segundo curta da noite foi “Km 58” (20 min., de Rafhael Barbosa); antes de expor meu comentário, citarei o publicado no Caderno C do Jornal do Commercio (30 de abril de 2012, p.6), com o qual concordo, mas o qual pretendo complementar:

Apesar de tecnicamente irrepreensível, como uma ótima fotografia e um desenho de som muito inteligente, o filme se desenvolve de uma maneira tão misteriosa que acaba deixando o espectador de fora. O que se percebe é que talvez um homem esconda um corpo no porta-malas de um carro – vê-se uma mão e um braço, mas não temos certeza se é homem ou mulher – e que ele vai se livrar dele”.

De fato, concordo com o comentário postado no jornal: o filme é um primor técnico, mas deixa o espectador de fora, como quando alguém profere uma ótima aula/palestra, mas em nível tão alto que ninguém entende. Pessoalmente, embora tenha admirado a fotografia, encantei-me com a trilha sonora, não só pela qualidade em si (que não interessa tanto), mas por sua vinculação perfeita ao todo. O problema do filme, em minha opinião é que ele não é eficaz em realizar aquilo que me pareceu ser sua proposta principal: fazer com que o espectador sinta a angústia do personagem. O estilo excessivamente hermético e fragmentário da narrativa causa acima de tudo estranhamento, não suspense, muito menos angústia. A reação de algumas pessoas (desconhecidas) que estavam ao meu lado ao final de exibição foi de perplexidade negativa, do tipo “é muito chato, não entendi nada”. Se não estou enganado, trata-se do primeiro filme do cineasta e o fato é que ele e toda a equipe possuem grande potencial, mas que a mistura de elementos de grande qualidade não resultou numa totalidade satisfatória. Em suma: a soma das partes não formou um todo homogêneo e convincente. Me pergunto se uma remontagem do filme não poderia fazê-lo melhorar substancialmente.

O terceiro e último curta da noite foi “Até a vista” (18 min., de Jorge Furtado); trata-se do filme divertido entre os três curtas: leve, despretensioso, bem realizado, mas comum. Assistimos, nos agradamos, mas não somos marcados pela obra, que conta a história dum cineasta gaucho que viaja até a Argentina para comprar os direitos autorais de um livro dum escritor daquele país, para adaptá-lo para o cinema.

Antes da exibição do único longa em competição na noite houve uma relevante homenagem ao cineasta Fernando Meirelles a qual, entretanto, não merece maiores comentários (o ato fala por si). Eis que surge então o ponto alto da noite: o longa-metragem “Jorge Mautner – o filho do Holocausto” (93 min., de Heitor D’ Alincourt e Pedro Bial). O título é inspirado no livro de memórias do escritor, cineasta e músico Jorge Mautner (o título preciso do escrito é “O filho do holocausto: Memórias, 1941 a 1958”). E mais uma vez confesso minha ignorância, pois não conhecia a figura (extremamente relevante, aliás) de Mautner, grande lacuna que o Cine PE preencheu. O documentário merece todos os tipos de elogio, pois além de ter acertado em cheio ao homenagear Mautner ainda em vida (ele apareceu no palco do Cine PE ao lado dos diretores do filme durante a apresentação deste), conseguiu mesclar com excelência o aspecto informativo e a fluidez, não se tornando assim chato, monótono e/ou hermético. Pelo contrário: a imbricação entre conteúdo e entretenimento é perfeita. Os apontamentos de alguns trechos os quais julguei particularmente relevantes no documentário necessitam ser precedidos da seguinte ressalva: há muita coisa absolutamente relevante no filme que ficará de fora deste texto, seja por falha de minha memória, seja por seletividade. O primeiro aspecto que destaco é a assertiva de Mautner (quem possui origem judaico-européia, tendo nascido no Brasil em virtude da fuga de sua família do nazismo), segundo a qual ou o mundo se “brasilifica” ou se “nazifica”. Quando ele afirmou isso ao vivo, durante a apresentação do filme, sem o indispensável complemento da frase, tal assertiva causou-me certo mal-estar: não se trata (que fique aqui absolutamente claro!) de algum tipo de simpatia minha pelo nazismo (nem o fascismo eu suporto), mas antes de minha alergia crônica a toda visão romântica do Brasil como paraíso (o livro “O mito fundador e a sociedade autoritária” de Marilena Chauí possui informações relevantes acerca deste tema); ao me deparar com tal frase de Mautner (não sucedida por seu – repito – indispensável complemento), logo me veio a mente a romantização hipócrita da miscigenação brasileira perpetrada seja por Gilberto Freyre, seja por leitores incompetentes (e/ou mal intencionados) de sua obra. Mais uma vez cabe dissipar a possibilidade de mal entendidos: não sou contrário à miscigenação, mas aos estupros e outras formas abusivas que deram origem nos primeiros séculos de Brasil a esta tão exaltada (acriticamente) miscigenação. No filme, porém, a tal frase complementar dissipou inteiramente me mal-estar inicial, pois Mautner mencionava Jesus de Nazaré e o Candomblé, deixando assim absolutamente claro que sua exaltação da “brasilização” dizia respeito menos a mistura de sangue que a mistura de cultura (abrangendo assim um sentido mais amplo – e complexo – e menos arbitrário que a simples mistura sangüínea, ainda tão mal digerida entre nós na prática, apesar de na teoria ninguém ser racista no Brasil).

Ainda sobre a questão do nazismo, um relato de Mautner sobre um avô (se não me falha a memória, apenas de criação, e não de sangue), que fora sempre muito gentil com ele (em contraste com a posição da avó – esposa deste senhor gentil – que sempre tratava mal o pequeno Mautner), mas que conservava aparatos nazistas em seu quarto, tornou clara a complexidade e ambigüidade das coisas, haja vista que mesmo persistindo fiel ao ideário nazista (isto no Brasil, após a derrocada do regime), o velho homem além de bom, era um artista de vanguarda (algo não tolerado naquele regime). Cabe salientar que tal complexidade/ambigüidade é mencionada explicitamente por Mautner (não se tratando, portanto, duma análise minha).

Outro aspecto de extrema relevância no documentário é a exibição de trechos dum filme longa metragem (inacabado) intitulado “O demiurgo” (1970), dirigido por Mautner (que também nele atua, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros). Trata-se da mais pura loucura, algo psicodélico-escrachado; o próprio Mautner o define como uma “chanchada filosófica”. Cabe salientar que Gil e Caetano aparecem em entrevistas no documentário falando sobre Mautner; também a filha deste (cujo nome Amora não diz respeito a fruta, mas ao feminino da palavra amor, como nos informa o filme) aparece, numa conversa face a face (divertidíssima, por sinal), relatando como a psicanálise a salvou duma existência muito mais atormentada, haja vista que seu pai (Mautner), a ia buscar na escola trajando nada mais que uma sunga (entre outras práticas nada convencionais).

Não sei dizer que Mautner estudou filosofia academicamente, mas durante o documentário há menções à filosofia que demonstram não ser ela algo inteiramente desconhecido dele; aliás (quase esqueço de pôr isso neste texto), o modo original que ele encontrou de estimular sua filha a ler é bastante interessante (mas só saberá quem assistir ao documentário...). Cabe ainda salientar que intercaladamente com as entrevistas, há performances musicais recentes (especialmente gravadas para o documentário) de Mautner e sua banda, o que permite aos incultos como eu um contato direto com a obra do artista.

Em suma, filme imperdível, e que torna imperativa uma busca não só pela música, mas também pelos escritos de Mautner.





Alberto Bezerra de Abreu, abril/maio de 2012


terça-feira, 24 de abril de 2012

PostHeaderIcon Pina (parte I)

                                                                   “West end blues” (Louis Armstrong)

                                                                 “A sagração da primavera” (Igor Stravinsky)

“Tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança” (Pina Bausch)

                                               “Dance, dance, dance. Senão estaremos perdidos” (Pina Bausch)

                                                                 Sua fragilidade é sua força (Pina Bausch)


                                                                   Os detalhes são imprescindíveis

                                                                                              !? ...





Por Alberto Bezerra de Abreu, abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

PostHeaderIcon Raul – o início, o fim e o meio: um documentário completo, porém, não equilibrado







Antes de adentrar propriamente no filme “Raul – o início, o fim e o meio” (2012, Brasil, dirigido por Walter Carvalho), faz-se necessário tecer um breve comentário sobre sua divulgação: vi muito pouca propaganda dele na mídia e mesmo assim me surpreendi com a tímida presença da obra nos cinemas de Recife, haja vista a imensa popularidade de Raul Seixas, a qual não se restringe a uma determinada região (como no caso de Luiz Gonzaga) ou a uma determinada classe social (como – ao menos assim me parece – acontece com Chico Buarque); em termos mais explícitos: Raul foi deveras popular em todo Brasil (ou pelo menos em muitos locais do país) e entre diversas classes sociais, o que torna, a princípio, bastante estranha ausência de uma forte propaganda divulgadora do filme. Contudo, não me foi necessário pensar muito para chegar a uma resposta para tal descaso: penso dever-se ele ao fato de o filme tratar-se dum documentário, gênero cinematográfico não muito popular/rentável no Brasil. Tome-se como exemplo o renomado cineasta paulista Eduardo Coutinho, referência no âmbito dos documentários cinematográficos, mas ignorado pelo grande público. Igualmente servem de exemplos os filmes não documentários “Cazuza – o tempo não para” (2004, Brasil, dirigido por Sandra Werneck e – justamente – Walter Carvalho) e “Dois filhos de Francisco” (2005, Brasil, dirigido por Breno Silveira), ambos bastante divulgados pela mídia hegemônica.

No que concerne à temática do filme, não há como começar a presente exposição sem mencionar o fato central (que nomeia o presente texto): trata-se dum documentário completo. Ao optar por não se centrar numa época específica da vida de Raul, mas em toda ela, o cineasta pretende uma abordagem total de figura de Raul Seixas: artista, homem e mito. A exposição se inicia mostrando imagens de Raulzito ainda (pré)adolescente, de gola levantada e topete, imitando seu ídolo (não só de juventude), Elvis Presley, e já naquele tempo bebendo e fumando. Neste início de filme são expostos alguns depoimentos interessantes de Waldir Serrão, amigo de juventude, que mostra o local onde se reunia o “Elvis rock club”, o modo peculiar como os jovens fãs baianos de Presley se cumprimentavam, entre outros aspectos curiosos. A ênfase no caráter de rebeldia que o rock representava para os jovens da época (ainda mais no nordeste, onde o novo estilo musical ainda não havia se popularizado) é central para uma melhor compreensão da figura de Raul e é expresso a contento no filme.

No que concerne ao início da carreira musical de Raulzito, são apresentados depoimentos de produtores, tratando desde o disco “Raulzito e os Panteras” (1968) e “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10” (1971), até seu disco de estréia em carreira solo, “Krig-há, Bandolo!” (1973), contendo clássicos como “Mosca na sopa”, “Al Capone”, “Metamorfose ambulante” e “Ouro de tolo” (esta última sendo bastante elogiada por Caetano Veloso, que inclusive interpreta um trecho dela em voz e violão).

Numa passagem que adquiriu um significado mais abrangente para mim através do filme, alguém menciona a inovação de Raul ao misturar rock com baião em “let me sing, let me sing”. Ora, embora já houvesse atinado para tal fusão eu ignorava ter sido precursora, como é apontado no documentário. A menção ao fato (por mim já sabido) de que no Brasil houve até passeata contra o uso da guitarra elétrica (convém salientar que embora o termo “guitarra elétrica” seja redundante no Brasil, ele não o é noutros países), bem como o apontamento em dois momentos do filme (se não me engano, um deles provindo do próprio Raul), de que Raulzito era fã de Luiz Gonzaga levaram-me a perceber um aspecto complementar desta fusão de rock e baião: tratou-se igualmente da fusão de dois reis: Elvis Presley e Gonzagão.

Outro entrevistado que merece destaque é Sylvio Passos, fundador do Raul Seixas Oficial Fã-Clube (1981) e amigo de Raultizo, tendo recebido do próprio grande quantidade de gravações não lançadas em disco. Também as várias esposas de Raul aparecem no documentário, exceção feita à primeira (Edith Wisner), de quem é lida uma pequena carta onde ela justifica sua opção por não conceder entrevista; as demais companheiras do “maluco beleza” (Glória Vaquer; Tania Mena Barreto; Kika Seixas e Lena Coutinho) fornecem depoimentos importantes e elucidativos (em minha opinião, sobretudo as duas últimas). Também a empregada/governanta de Raul na época de seu falecimento é ouvida, mas ao proferir afirmações como a de que nunca viu o cantor embriagado parecem demasiado forçadas. Kika menciona episódios em que Raulzito bebia, vomitava, bebia novamente, este processo de repetindo inúmeras vezes até que ele conseguisse reter algum álcool no corpo. Outra pessoa (Lena, se não me engano) fala de uma ocasião em que o músico estava todo vomitado no quarto e de como achava necessário ele passar por isso, chegar ao fundo do posso para querer sair. Kika afirmou que Raul tentou parar várias vezes, mas não conseguiu, tendo chegado a ser internado contra sua vontade numa clínica de reabilitação.

O escritor Paulo Coelho, mais famoso parceiro de Raul nas composições (letras) também aparece no filme; numa de suas afirmações, menciona duas músicas de Raul que gostaria de ter composto com ele: “Maluco beleza” e “Metamorfose ambulante” (surpreendentemente não menciona “Ouro de tolo”, também composta só por Raulzito). O documentário tematiza a aproximação de ambos (foi Raul que procurou Paulo), bem como a insistência daquele para que este compusesse com ele (haja vista que Paulo não só não sabia compor letras – como ele mesmo afirma –, mas inclusive desprezava este caráter mainstrem da música, optando por um viés alternativo, sendo justamente a possibilidade de divulgar a mensagem da “Sociedade Alternativa” para grande número de pessoas o que o convenceu a adentrar neste meio). Neste sentido, aponta-se a influência “mística” que Paulo exerceu sobre Raul que, até então era “meio ateu” (não lembro quem proferiu essa frase, mas recordo ter me pego pensando no cinema: como pode ser alguém “meio ateu”?). O cineasta entrevista um líder do grupo (inspirado em Alester Crowley) do qual Paulo e Raul fizeram parte; numa assertiva deveras interessante, o ancião esclarece que a palavra “demônio” foi deturpada pelo cristianismo, e que Sócrates possuía o seu próprio demônio (mais precisamente, trata-se do termo “daimon”, cujo sentido é divindade, espírito ou gênio, que pode expressar o bem ou o mal, ao contrário do maniqueísmo cristão). É mostrado ainda um depoimento de Raul acerca do que seria o “satanismo” por ele defendido (por exemplo, na música “Rock do diabo”), o qual nada tem a ver com uma ideologia maléfica e destrutiva, mas simplesmente com uma afirmação da liberdade criativa das pessoas (embora o documentário não aponte este fato, parece-me nítida a inspiração que a crítica de Nietzsche ao cristianismo exerceu em Raul). Por outro lado é mostrada uma cena em que ocorre sacrifícios de animais (pareceu-me real, mas não tenho certeza; e vi apenas um dos barbudos, sem conseguir identificar se era Raul ou Paulo, embora a cena tenha sido rápida e talvez ambos estivessem ali). Paulo afirma que eles cometeram excessos e que todos pagaram por isso. Nelson Motta, ao tratar do convite de Raul (e insistência, ante a recusa de Paulo) para comporem letras juntos, afirma que Paulo, num raro momento de humildade/modéstia, confessara que não sabia escrever letras. A afirmação de Motta é importante, pois, para quem presta atenção em detalhes fica patente a grande vaidade de Paulo Coelho. Este menciona inclusive que ele e Raul tiveram vários desentendimentos, tendo chegado provavelmente (ele não tem certeza!) a trocarem sopapos pelo menos uma vez. Define a relação entre ambos como um casamento sem sexo, mas o (excelente) registro do último encontro entre eles (após muitos anos), realizado em pleno palco, durante a turnê de Raul com Marcelo Nova (sendo este quem combinou tudo com Paulo, sem que Raul soubesse), mostra como a admiração, respeito e quiçá carinho entre ambos não se dissipou, apesar dos desentendimentos, originados principalmente por uma rivalidade entre eles.

Outros dois momentos de Paulo Coelho que merecem destaque no documentário são aquele em que uma mosca atrapalha sua fala (trata-se duma clara alusão à música “Mosca na sopa”, música, aliás, composta apenas por Raul), sugerindo-se que a mosca seria (literalmente Raul). Caso aquilo tenha ocorrido espontaneamente, certamente consistiu em algo deveras significativo, mas, por algum motivo que não saberia explicar, a cena me pareceu planejada, montada, para não dizer forjada. O outro momento consiste na declaração de Paulo, segundo a qual foi ele quem apresentou todas as drogas ao careta Raul, que então só bebia e fumava. Porém, Coelho refuta qualquer responsabilidade pelo desfecho final de Raulzito, haja vista que este já tinha por volta de 27 anos quando foi iniciado no mundo das drogas ilícitas.

Uma parte do filme extremamente significativa para mim foi aquele em que alguém (que não lembro) mencionou os plágios de Raul; para quem não sabe, o músico freqüentemente se apropriava de músicas estrangeiras, compondo letra nova para pôr nelas, sem que isto fosse creditado como aquilo que no Brasil se conhece como “versão”. Segundo este entrevistado, Raulzito justificava tal procedimento alegando que já éramos por demais colonizados e que seu empreendimento consistia numa espécie de expropriação. A importância fundamental de tal declaração reside no fato de que Raul não era um oportunista barato como cheguei a pensar logo que soube destes “plágios”, mas que seu intento era crítico-anárquico (muito bem sacada foi a execução de trecho da música anti-colonialista “Aluga-se” neste trecho do documentário, pois sua letra bem expressa a opinião de Raulzito acerca da exploração que o Brasil sofre enquanto país periférico).

Outro aspecto importante abordado no filme concerne à relação entre Raul e Marcelo Nova; este foi responsável pelo ressurgimento artístico de Raulzito (seu ídolo), através de uma turnê (de ambos) que teve 50 shows e resultou na gravação do disco “A panela do diabo”. O fato é que muitos acusam Marcelo Nova de ter se aproveitado de Raul, mas em depoimentos realmente significativos, ninguém menos que Caetano Veloso (também baiano), afirma não ter notado nenhuma espécie de oportunismo, pelo contrário, percebeu foi a grande reverência de Marcelo Nova para com Raulzito, bem como a sinceridade de suas boas intenções. Assim também me pareceu. Além disso, Raul não era de modo algum ingênuo.

Após ter apontado os momentos do filme que considerei mais significativos, mencionarei pontualmente alguns outros momentos interessantes: o primeiro deles trata-se da homenagem que Raul faz para Glauber Rocha durante um de seus shows; o filme não contextualiza este momento, mas suponho que tal menção de Raul ao cineasta (baiano como ele) tenha se dado quando este morreu. A breve aparição de Tom Zé, cantando a cômica música “A chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI” também merece ser mencionada. Quanto ao depoimento do jornalista (e projeto precário de poeta) Pedro Bial, cabe dizer que (para variar), nada de relevante acrescenta. Também me surpreendi em ver a figura do produtor André Midani entre os depoentes, haja vista que numa de suas músicas Raul dá uma alfinetada nela, citando literalmente seu nome. Deve ter sido um desentendimento momentâneo. Por fim, me impressionei ao ver como o neto pré-adolescente de Raul é parecido com ele em sua juventude (cabe salientar que Raulzito só teve filhas).

Em suma, o documentário sobre Raul Seixas é completo, pois trata de todos os aspectos relevantes de sua vida, contornando assim o perigo da pretensão de totalidade, haja vista de que nenhum aspecto fundamental é omitido. Por outro lado, trata-se duma obra que não possui equilíbrio, pois todos os depoimentos são inteiramente favoráveis ao personagem do documentário, tendo como única exceção uma certa alfinetada de Paulo Coelho, onde este afirma que a história do exílio de Raul não foi bem como este contou (e Coelho diz inclusive que se a equipe do filme investigar, constatará o que ele afirmou); no entanto (e aqui há uma omissão do cineasta em se aprofundar no tema), pouco se fala dos problemas de Raul com a ditadura; a única fala acerca do tema além da de Paulo Coelho advém da mãe de Raulzito, que afirma ter ele chegado em casa com as costas ensangüentadas; ainda segundo ela, enquanto lavava as costas do filho, este disse para ela ser rápida, pois havia dois homens na porta do apartamento esperando por ele (trata-se do exílio supostamente forçado). Em sua fala, Paulo afirma que ele é que foi preso (se levarmos em conta o fato de que pessoas famosas possuíam um relativo “escudo”, pois qualquer fato que lhes acontecesse teria grande repercussão, somado ao fato de que Paulo Coelho não era famoso como Raul, seu relato parece verossímil). De qualquer forma, não se trata aqui de um desejo meu de condenação da figura de Raulzito, até porque simpatizo com ele. Trata-se apenas de chamar atenção para o fato de que o culto exacerbado de sua figura contraria as próprias crenças do artista (ao menos assim me parece). Não acho que o filme tenha exagerado neste aspecto, inclusive considero sábia a decisão de não se ter estendido muito as cenas do velório de Raul, bem como o registro de uma das homenagens que todo ano são feitas a ele (se não me engano, na Avenida Paulista, em São Paulo). De qualquer forma, esta pequena ressalva não tira o brilho do filme, que é informativo, divertido, fluído (não é cansativo, como por vezes é o ótimo documentário de Wim Wenders sobre a banda Buena Vista Social Club, ao qual assisti recentemente), constituindo uma ótima pedida tanto para os fãs do “maluco beleza” como para aqueles que, não o conhecendo bem, intentam fazê-lo.

Ps. Dedico esta postagem a meu amigo (e colaborador deste blog) Pedro Tenório, cujo convite me levou a assistir ao filme aqui resenhado.

 

Alberto Bezerra de Abreu, 09-12/04/2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

PostHeaderIcon Filmow, a rede social dos cinéfilos


                                                                       Página inicial do(a) Filmow


Página de um filme





 

“Redes sociais” são espaços virtuais nos quais os usuários da Internet (rede mundial de computadores) criam perfis para interagirem entre si. No Brasil, durante muito tempo a rede social mais famosa foi o Orkut (aliás, os brasileiros chegaram a se tornar os principais usuários de tal espaço virtual no mundo inteiro); nos últimos tempos, porém, a febre “tupiniquim” chama-se Face Book (embora muitos dos que a ele aderiram não deletaram (apagaram) seus perfis no Orkut, apesar de terem-no deixado em segundo plano).

A popularidade das tais redes sociais foi/é mundial (excetuando-se os locais – remotos, penso eu – nos quais a Internet não é viabilizada), a ponto de em 2010 ter sido lançado um filme intitulado justamente “A rede social” (dirigido por David Fincher de “Clube da luta” e do atualmente em cartaz “Millenium – os homens que não amavam as mulheres”), o qual foi inclusive indicado ao Oscar em mais de uma categoria, foi elogiado pela crítica e fez boa bilheteria (em suma, destacou-se positivamente em várias frentes).

Quem costuma acessar este blog com freqüência já deve estar familiarizado ao meu padrão de escrita que sempre começa com uma introdução contextualizadora (por vezes demasiado extensa) e deve estar achando que a presente introdução se refere ao acima mencionado “A rede social”: ledo engano; na verdade eu ainda nem assisti este filme, mesmo sendo fã de Fincher (e apesar de ter me interessado, também não assisti ainda “Millenium”...). Antes que os mais afoitos principiem uma crise de ansiedade (apenas – evidentemente –, no caso de não terem lido o título deste texto) adentrarei no tema central desta postagem: trata-se da rede social chamada Filmow, dedicada aos cinéfilos. A descobri através de minha amiga Isabele “solipsista Tinuviel” Santos, embora tenha demorado muito tempo até aderir (meu perfil, evidentemente, tem um tanto de fake – em termos fora do “internetês significa que não uso meu nome ou foto –, de modo que se virem alguns perfil comum de minha pessoa, estejam certos que não sou eu, como ocorre no Face Book – não é mesmo, Sr. Aécio? ¬¬).

Tentando deixar minhas recorrentes delongas de lado e enveredar pelo aspecto objetivo da coisa, cabe apontar as características (objetivas, não custa repetir) do Filmow: seu diferencial em relação às demais redes sociais consiste na possibilidade de selecionar filmes cadastrados (e os não cadastrados podem sê-lo pelos usuários) e marcá-los como “já vi” (e neste caso é possível pôr o/s filme/s entre os favoritos); “não quero ver”; “quero ver”, atribuir nota (de uma a cinco estrelas) a eles; marcar ídolos, postar imagens e trocar recados com outros usuários; na realidade a Filmow (construída por dois brasileiros) se inspirou numa rede social dedicada à literatura chamada Skoob (suponho que pouco popular no Brasil, pois nunca ouvira falar dela, além de que brasileiro não lê hehehe), de modo que, a aqui apontada inovação do Filmow se refere apenas às redes sociais mais famosas no país (Orkut, Face Book, e Twitter, embora não esteja certo se este último pode ser chamado de rede social).

Outro aspecto interessante do Filmow consiste no fato dele contemplar também curtas metragem e seriados de TV. Além disso, como existe uma espécie de perfil de cada filme (informando nome, ano de produção, diretor, roteirista, atores, entre outras informações), podemos constatar qual o verdadeiro título em português, pois livros como “1001 filmes para ver antes de morrer” por vezes apresentam títulos em português que não são os verdadeiros (por exemplo, ao não encontrar o filme apresentado no livro com o título em português “Jogo mortal” [1972, dirigido por Joseph L. Mankiewicz], pesquisei pelo título original [“Sleuth”] e o encontrei com o título “Trama diabólica”) ou o título em português, quando um filme é mencionado apenas com o título original estrangeiro mas há tradução para o português brasileiro (caso do filme “Le chagrin et la pitié” [Marcel Ophüls, 1971], apresentado no livro acima mencionado apenas com o título original mas que ganhou a tradução nacional cujo título ficou sendo “A tristeza e a piedade”).

Por fim, cabe apontar algumas críticas: em primeiro lugar, achei as propagandas demasiado invasivas; tudo bem que no Orkut também as tem, mas neste achei-as mais discretas. Mas o pior é o perfil algo puritano do Filmow, pois se a mensagem “pôster indisponível” que aparece no lugar do cartaz de alguns filmes é – em minha opinião – aceitável, o mesmo não se pode dizer da ridícula mensagem “pôster impróprio” que substitui o cartaz de alguns outros filmes (e não são exatamente poucos, cabendo salientar não tratar-se aqui de nenhum filme pornô – pelo menos não aqueles aos quais aqui me refiro –, por exemplo, a versão de “O decameron” de Boccaccio, dirigido por Pier Paolo Pasolini, que é classificado no próprio Filmow como sendo comédia, romance!).

Em suma, sou da opinião de que o Filmow é uma ferramenta deveras interessante para cinéfilos e quiçá para aqueles que, mesmo não considerando-se sê-lo, são, de alguma forma cativados de maneira especial pela chamada sétima arte.

Dedico esta postagem a Isabele “solipsista Tinuviel” Santos, a “culpada” pela minha adesão ao Filmow.



Alberto Bezerra de Abreu, redigido durante o recluso carnaval de 2012, ao som do ventilador

domingo, 29 de janeiro de 2012

PostHeaderIcon Theo Angelopoulos (1936-2012)

Theo Angelopoulos
                                                                                               "Paisagem na neblina"



a) Aspecto objetivo

Na semana passada (mais precisamente, dia 24/01/2012) faleceu aos 76 anos o cineasta grego Theodoros Angelopoulos, atropelado por uma motocicleta (há certa ironia trágica no fato de em seu filme “Paisagem na neblina” um dos personagens possuir uma moto na qual aparece em diversas cenas transportando o casal de protagonistas infantis do filme). O diretor se encontrava ainda em atividade, inclusive preparando-se para filmar uma obra sobre a crise político-econômica que a Grécia enfrenta nos últimos anos. Angelopoulos tornou-se o cineasta grego mais reconhecido do país, alcançando sucesso internacional com o filme “A viagem dos comediantes” (1975); com “A eternidade e um dia” (1998), conquistou a Palma de Ouro em Cannes. De acordo com o verbete que leva seu nome da Wikipédia:



Seus filmes são conhecidos pelas longas cenas sem cortes (plano-sequência), pelo silêncio, alegorias e referências mitológicas, além da temática que percorre os caminhos da melancolia na civilização moderna - de maneira mais específica em duas fases: a primeira mais marxista-brechtiana, e a segunda, a partir de "Viagem a Citera", com abordagens mais emocionais e subjetivas

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Theo_Angelopoulos)



b) Aspecto subjetivo

Não sei ao certo se a primeira vez que ouvi falar em Angelopoulos foi quando minha mãe comprou (sabe-se lá o motivo, já que ela não conhecia o cineasta, ao contrário de Bergman, por exemplo) o DVD “Paisagem na neblina” ou se foi através do livro “1001 filmes para ver antes de morrer” (2008), adquirido por ele em 2009 ou 2010. Na realidade isto pouco importa, pois se primeiro veio o DVD, foi por causa dele que me interessei pela resenha do filme, e se veio primeiro o livro, foi por causa deste que me interessei pelo filme. Não se faz necessária demasiada inteligência/sensibilidade para perceber (olhando-se a capa, lendo-se a sinopse, bem como a resenha do filme no livro citado) que “Paisagem na neblina” (1988) é um filme belo e profundo, porém, lento. Como tal tipo exige maior disposição, acabei não assistindo-o até ontem (evidentemente o falecimento do cineasta me impeliu a isto, pois não gostaria de dedicar-lhe uma postagem sem ter visto sequer um filme seu). Não cabe aqui tratar do filme acima citado, pois ele merece um texto específico; limito-me então a dizer que gostei bastante dele e que, a impressão acima mencionada foi correta: o filme é lento e pode tornar-se extremamente cansativo para quem não tiver alguma familiaridade com o padrão narrativo desacelerado de muitos dos filmes autorais europeus. Cabe ainda salientar que a citação da Wikipédia acima utilizada parece ser perfeitamente verossímil.

No que concerne às influências de Angelopoulos, no fórum de discussão/página de comentários do filme “Paisagem na neblina” na rede social de filmes e seriados Filmow (falarei desta em alguma postagem posterior), mais de uma pessoa aponta Andrei Tarkovski com influenciador do cineasta grego, o que não me parece absurdo; na resenha deste mesmo filme no já mencionado livro “1001 filmes para ver antes de morrer”, afirma-se que Roberto Rossellini (no que concerne a fragmentação do pós-guerra) e Chantal Akerman (no aspecto paisagístico) constituem os dois pólos entre os quais se situa “Paisagem na neblina”. Pessoalmente, ao assistir o filme, lembrei-me (por conta das paisagens) de “Deserto Vermelho” de Michelangelo Antonioni e de “O homem de mármore” de Adrzej Wajda. Acabou de me ocorrer que talvez o “Não matarás” e o “A liberdade é branca” (na parte passada na Polônia) de Krysztof Kieslowski também possuem similaridades paisagísticas com tal filme de Angelopoulos. Tratam-se todos de cineastas europeus mais ou menos contemporâneos uns aos outros, todos fortemente influenciados pelo contexto pós Segunda Guerra Mundial (e alguns pelo próprio conflito, como Rossellini e Wajda), de modo que vejo aspectos comuns entre eles, embora alguns sejam mais subjetivos, outros mais políticos (não sendo, entretanto, de modo algum tais enfoques auto-excludentes, ao contrário).

Mais difícil para mim de interpretar é a declaração de Angelopoulos de que Orson Welles (de quem muito já ouvi falar, mas cuja obra conheço pouquíssimo) e Kenji Mizoguchi (que até o presente momento é-me um ilustre desconhecido) sejam suas influências primárias. Tal declaração é mencionada no livro (mais uma vez ele) “1001 livros para ver antes de morrer”, desta vez na resenha do filme “A viagem dos comediantes”. Talvez tais influências sejam mais fortes nas obras da suposta primeira fase, mas isto não passa de vaga especulação. Faz-se necessário debruçar-me sobre os filmes do cineasta para poder escrever sobre ele com maior propriedade. Fica aqui minha homenagem a ele, bem como a lamentação pela perda de mais um cineasta “classe A”, bem como a indicação do filme “Paisagem na neblina”.



Alberto Bezerra de Abreu, 29/01/2011, (redigido ao som de João Gilberto e Paulinho da Viola=)



Ps. eis um texto interessante sobre Angelopoulos:

sábado, 28 de janeiro de 2012

PostHeaderIcon La malédiction de L’Apollonide



Imagem 1 - Cartaz do filme

                                                         Imagem 2 - foto do folder

                                                                Imagem 3 - foto do site


Em dezembro de 2011 realizou-se no cinema da Fundação Joaquim Nabuco o festival Expectativa 2012/retrospectiva 2011 (evento que abordarei posteriormente); um dos filmes previstos para e exibição era o francês “L’Apollonide – os amores da casa de tolerância”; como nunca ouvira falar deste, devo confessar que inicialmente meu interesse de deteve em filmes mais famosos que não pude ver antes, como “A árvore da vida” (Terrence Malick), “Meia-noite em Paris” (Woody Allen) e “A pele que habito” (Pedro Almodóvar); contudo, bastou que eu visse o cartaz de “L’Apollonide” no cinema citado para que meu interesse pelo filme fosse imediata e fortemente despertado. Não há espaço aqui para eufemismo, muito menos para hipocrisia: o fator central para tamanha atração foi sexual, pois o corpo feminino exibido (sem nudez, mas com muita sensualidade) no cartaz é realmente belo (vide imagem nº 1).

Por sua vez, no folder do evento as informações de alguns dos filmes a serem exibidos eram acompanhados por imagem e “L’Apollonide” foi um dos contemplados; na imagem em questão aparece um grupo de mulheres, todas de topless (vide imagem nº 2), o que só aguçou minha curiosidade pela obra. Cabe aqui, porém, salientar que, embora a motivação sexual tenha sido a principal não foi ela a única que me moveu: a dinâmica dum prostíbulo francês aparentemente chique parece-me um enredo interessante, até porque não pensei que tal história constituísse mera desculpa para exibir a nudez de belos corpos femininos.

Pois bem, quando enfim fui assistir a tal filme eis que o rapaz da bilheteria me informa que houve mudança no filme que seria exibido: “L’Apollonide” não mais seria exibido no festival devido a problemas técnicos (não especificados). Em seu lugar foi exibido o filme “O último dançarino de Mao” (o qual acabei assistindo e gostando) e na segunda sessão prevista do filme francês (já num outro dia) foi exibido “O garoto da bicicleta”.

Passaram-se então as festas de fim de ano e a quase totalidade do mês de janeiro do ano seguinte (2012), e eis que num sábado, vejo “L’Apollonide” na programação do Cinema da Fundação através dum jornal. A primeira sessão seria as 16h e a segunda 20:10; a da tarde me atraiu mais, mas decidi não ir para ouvir no rádio o jogo do meu querido Santa Cruz; no entanto, informei-me que o jogo do santinha não seria às 16h como ocorre no domingo, mas às 18h, de modo que levei meu radinho de pilha para acompanhar a partida ao sair do cinema. Cabe salientar que no site do cinema (que consultei para confirmar o horário, tendo em vista que jornais não são confiáveis) vi a terceira imagem interessante do filme, desta vez sem tanta sensualidade, mas esbanjando requinte (vide imagem nº 3), o que não significa que as imagens anteriores também não fossem de notório bom gosto (sensualidade não vulgar, apelativa).

Filme iniciado e nada de som nos diálogos, porém tanto eu quanto um amigo que encontrei por acaso pensamos que poderia advir isto de as primeiras falas serem sussurradas (vai saber); entretanto a ausência de som persistiu e o filme foi interrompido para que se procurasse sanar o problema; passados alguns minutos (entre cinco e dez), fomos informados de que o problema estaria presente em todas as cópias distribuídas do filme (se bem entendi, no Brasil inteiro) e de que não seria possível a exibição daquela sessão, quiçá apenas a da noite, ou seja, foi a segunda vez que fui ao mencionado cinema para ver tal filme e fiquei a ver navios. Será acaso? Azar? Intervenção puritana estadunidense? (recentemente tiraram do ar o site de compartilhamento de arquivos Megaupload). Sabotagem proposital dos próprios produtores do filme com intuito de deixar o público inteiramente louco de curiosidade, interesse ou – talvez este seja o termo mais apropriado – desejo pelo filme? Não sei, só sei que certamente estarei lá numa das próximas sessões previstas.

Ps. O santinha perdeu =/


Alberto Bezerra de Abreu, 28/01/2012 (redigido ao som do ventilador).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

PostHeaderIcon O Gato de botas ou o aventureiro ronronador


                          Da esquerda para a direita: Humpty Dumpty; Kitty Pata Mansa; Gato de Botas; Jack e Jill

"É por isso que me chamam de 'pata mansa'"

                                                                      "E ai, gatinha?"

                                                                        Amigos?

                                                               "Noooooossaaaaaaaaaa!!!!!"



Comecemos pelo começo: o Gato de botas é um personagem de um conto (infantil?) de Charles Perrault, publicado no livro “Contos da mamãe gansa” (1697). O felino protagonista de “Gato de Botas” (Puss in Boots, EUA, 2011, dirigido por Chris Miller) é inspirado no personagem de Perrault, só que transposto para um contexto completamente diferente do original (uma versão aproximada do conto original pode ser encontrada no seguinte endereço: (http://www.educacional.com.br/projetos/ef1a4/contosdefadas/gatodebotas.html). A primeira aparição do felino que protagoniza o filme aqui resenhado deu-se no filme “Shrek 2” (2004) e de imediato tal versão estilizada do gato de botas roubou a cena no longa; no “Shrek 3” (2007), o felino volta a aparecer e dessa vez o diretor do longa foi Chris Miller, justamente quem dirigiu esta primeira aventura do gato como protagonista.

A primeira diferença entre a franquia Shrek e a do Gato de botas consiste na origem dos personagens; como já dissemos, o felino espadachim se baseia num conto, sendo ele no original um personagem perspicaz; assim, embora tenha havido estilização (sobretudo no que concerne a aproximá-lo duma versão felina do herói Zorro, não sendo a toa que o dublador do gato não só em inglês e espanhol, mas também em italiano foi Antônio Banderas, interprete do Herói mascarado no cinema), o personagem de um gato que usava botas e dava uma de herói. Cabe salientar que, embora no conto original o gato não seja espadachim, muito menos um Don Juan, sua perspicácia é preservada no longa, sobretudo quando o felino utiliza sua indefectível carinha meiga. Por sua vez, Shrek não constitui uma estilização dum personagem já existente, mas a personalização dum eterno figurante em contos de fada: a figura genérica do ogro, cuja função geralmente se limitava a ser um personagem do lado mau, porém figurante (se não me engano os trolls de Tolkien se inspiram nos ogros).

A segunda diferença dar-se na estrutura narrativa, e aqui o gato leva uma surra: toda a dinâmica estrutural de todos os episódios de franquia Shrek se baseavam num humor escrachado, escracho este que se dava tanto em relação aos contos de fada (um ogro bom, um príncipe baixinho e mesquinho, uma fada madrinha mau caráter) como em relação a clássicos do cinema (no momento me fugiram os exemplos, mas encontrei muitos no “Shrek 2”). Já na aventura “solo” do gato o humor se baseia majoritariamente (quiçá exclusivamente) em gags visuais; o personagem Humpty Dumpty tem um quê que ridículo que torna desnecessário grandes esforços para ser engraçado. Cabe salientar que, em minha opinião o maior carisma do gato em relação a Shrek compensa a notória inferioridade do enredo de seu filme “solo”.

No que concerne às similaridades entre os filmes Shrek e o Gato de botas, a principal consiste no fato de ambos se utilizarem do recurso anárquico da mistura de contos de fada: como já mencionamos e repetimos, o personagem do Gato de botas se baseia no personagem homônimo de um conto de Charles Perrault; por sua vez o enredo do filme nada tem a ver com o do conto original, misturando a história do conto de fada “João e o pé de feijão” com a história de infância do gato num orfanato ao lado de Humpty Dumpty; este último, embora apareça em “Alice através do espelho” (1871) de Lewis Carroll, existia antes disso como personagem duma rima em língua inglesa (http://nossospequenosleitores.blogspot.com/2012/01/voce-conhece-historia-do-humpty-dumpty.html#!/2012/01/voce-conhece-historia-do-humpty-dumpty.html); seu hilário diálogo com Alice merece ser conferido: (http://www.arquivors.com/lcarroll1.htm). Cabe ainda salientar que os personagens Jack e Jill parecem constar também em algum conto de fadas, mas ao pesquisar, só me deparei com um seriado televisivo ¬¬.

Após esta introdução geral, enfim adentrarei de modo mais detido no filme em questão; na realidade, ando tão desinteressado nas produções hollywoodianas que sequer estava sabendo desta aventura “solo” do Gatos de botas, a qual me interessou exclusivamente por ser eu um apaixonado por gatos; no entanto, o fator decisivo que me levou a assistir o filme no cinema foi o relato da verossimilhança felina do protagonista. Em termos mais claros: trata-se do fato de o personagem principal em alguns momentos abandonar a postura antropocêntrica (falar, andar sobre duas patas) e adotar atitudes tipicamente felinas. Nas palavras de Jerônimo Teixeira (edição de 07/12/2011 da revista Veja, matéria intitulada “México feérico”, p. 200):

"O grande barato do novo filme está nas vibrantes cenas de ação e nas gagues visuais: o protagonista às vezes abandona a postura antropomórfica para se dedicar a atividades próprias de sua espécie, como lavar-se com a língua ou perseguir focos de luz."

No final das contas, tal matéria de Veja serviu não só para que eu me inteirasse desta aventura “solo” do Gato de botas do Shrek, mas também (especialmente no trecho acima citado) para me impelir a assistir ao filme no insuportável Multiplex. Gostaria de salientar que tal autenticamente felina já fora adotada pelo gato em sua estréia no segundo Shrek; numa das cenas mais carismáticas, quando Fiona pensa que quem está montado no cavalo é Shrek, depara-se com um gatinho asseando-se (através de um banho de língua); o recurso da carinha meiga, também inaugurado no segundo episódio da franquia do ogro volta a aparecer na aventura específica do gato; no entanto, um aspecto no qual o segundo Shrek não fora verossímil em relação ao comportamento felino foi ao mostrar o gato bebendo algo como um humano, ou seja, levando o copo até a boca e inclinando-o, de modo a despejar o liquido em sua garganta. No filme que aqui resenhamos (numa das cenas fofas e simultaneamente cômicas, feita para despertar expressões do tipo “onn” na platéia), após adentrar num bar cheio de pose e pedir leite (!), o felino utiliza a língua para levar o liquido à boca, tal qual fazem os gatos. Há ainda outro aspecto cuja verossimilhança felina passa longe, desta vez sendo utilizado não só no segundo Shrek, mas também em “Gato de botas”, a saber, o fato de o felino se molhar e não se incomodar com isso (em seu filme, o gato só se incomoda ao ser molhado quando borrifam água nele); nada mais inverossímil, já que gatos detestam tomar banho que não seja o de sua própria língua. Faz-se aqui pertinente a menção a outra matéria (esta lida por mim só após assistir ao filme); nela, afirma Flávia de Gusmão (edição de 21/11/2011 do Jornal do Commercio, matéria intitulada “O encantador Gato de Botas”, caderno C, p. 1): :

"É justamente na contradição e na justaposição entre homem e animal, neste antropomorfismo, que reside o encanto desta personagem. Ele é diminuto, mas tem a voz de um tarimbado latin lover; ele é valente, mas bebe leite enfiando a lingüinha rosada no copo, e não aos goles; ele desfia um discurso shakespeariano para, no instante seguinte, ficar hipnotizado por um foco de luz e passar a fazer o que os gatos fazem por natureza: persegui-lo tonta a inutilmente."

Relendo a matéria de Teixeira, me dei conta de algo que me havia passado batido: de fato “Gato de botas” investe bastante em cenas de ação, diferenciando-se assim de Shrek (ao menos dos dois primeiros, que foram os que assisti); no entanto, como passei da adolescência, prefiro um bom roteiro a cenas de ação, e neste aspecto os filmes do ogro são superiores ao do gato. Dessa forma, os maiores atrativos de “Gato de Botas” são as cenas de ação e o carisma do personagem principal, e não só dele; discordo de Teixeira quando este afirma que “Não são personagens tão cativantes quando aqueles que se viam em Shrek”. No que concerne a Kitty Pata Mansa (terá o primeiro nome algo a ver com Hello Kitty?), esta constitui uma versão feminina do gato, mas o mais interessante é que capricharam na feminilidade da personagem; não sei explicar o motivo, mas ela tem charme, embora não tenha ganho nenhuma atenção nas várias resenhas sobre o filme que li. Já o outrora mencionado Humpty Dumpty é um caso aparte e, para falar dele, utilizo-me duma analogia com o Burro do Shrek: ambos me pareceram inicialmente personagens chatos, mas posteriormente pude perceber seus méritos; porém, no caso do ovo falante minha impressão variou de um extremo a outro, pois embora seja apaixonado por gatos, inclino-me a considerar Humpty o melhor personagem do filme. Primeiramente por suas expressões faciais, extremamente expressivas (enquanto a dos felinos é charmosa, mas um tanto clichê); em segundo lugar por ser ele o personagem melhor explorado do ponto de vista psicológico, além de ele ser simultaneamente trágico e cômico. O aspecto original do personagem (preservado no filme) aponta para sua falta de equilíbrio advinda de sua formato corporal, porém, tal peculiaridade possui forte caráter metafórico (não abordarei aqui este tema devido ao caráter já extenso do texto, mas a leitura do trecho de “Alice através do espelho” que linkei acima elucida um pouco a questão).

Em suma, “Gato de Botas” não constitui um Shrek alternativo; possui vantagens e desvantagens em relação aos filmes do ogro e as preferências numa comparação entre ambos dependerá do que cada expectador buscar. Achei que o filme do gato poderia ser muito melhor em enredo/roteiro, porém considero o carisma dos personagens forte o bastante para, na pior das hipóteses, equiparar o filme do felino aos do ogro que assisti em termos gerais (todos valem a pena serem assistidos, ao contrário, por exemplo, do “Alice” de Tim Burton).



Alberto Bezerra de Abreu, janeiro de 2012, redigido majoritariamente ao som da coletânea Ken Burns jazz the story of american music


Ps. dedico esta postagem a meus gatos: passados, presentes e futuros  =^^=

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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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