segunda-feira, 15 de agosto de 2011

PostHeaderIcon "Emprenhando pelos ouvidos": como conheci Tarkovski




A primeira vez que ouvi falar em Tarkovski foi em sala de aula, disciplina "Cinema e construção do tempo" (graduação de cinema da Universidade Federal de Pernambuco, semestre 2009.2). A disciplina, como o título deixa claro, trata da construção do tempo na narrativa cinematográfica; nunca esquecerei uma das falas do professor Eduardo Duarte sobre este tema, referindo-se a Tarkovski; mencionou uma cena em que uma senhora carregava lentamente uma lamparina até uma vela, acendia-na, voltava, via o vento apagar a lamparina, retornava à vela para novamente acender a lamparina, numa cena que deveria durar cerca de 7 minutos e que mesmo ele, estudioso da sétima arte (e também realizador de filmes), confessou sentir-se tentado a avançar (ou seja, não assisti-la na íntegra) devido ao conteúdo supostamente demasiado maçante. Não pude deixar de lembrar de uma amiga que me acompanhou em minha desvirginação cinematográfica em Bergman (no festival de cinema sueco, realizado no cineteatro Apolo em janeiro de 2006, no qual foram exibidos os três filmes do cineasta que compõem o que foi chamado de "trilogia do silêncio") e que não deu uma segunda chance ao cineasta sueco, considerando-o demasiado lento. Mas há ainda outros dois detalhes marcantes em relação a Tarkovski que vivenciei nesta disciplina deveras proveitosa; a afirmação do professor de que o próprio Tarkovski admitira que seus filmes eram apreciados por um público seleto – "minhas filhas não assistem meus filmes, gostam é de Spielberg" teria dito ele –, bem como a menção a um livro do diretor russo, intitulado "Esculpir o tempo". Nem preciso dizer que está breve menção feita pelo professor me deixou demasiado (curioso não seria bem a palavra, sedento talvez) por adentrar neste mundo aparentemente hermético e deveras profundo. Acabei descobrindo, ao conversar com uma amiga, que entre os filmes que ela havia colocado num DVD para mim (meu interesse principal era o "Salo – os 120 dias de Sodoma" de Pier Paolo Pasolini, filmes este aliás também mencionado pelo professor, mas que comentarei posteriormente) estava justamente um de Tarkovski ("Nostalgia"); no entanto, após haver assistido o citado filme de Pasolini, deixei o DVD de lado por longo tempo, não tendo assistido a nenhum dos demais filmes e quando tentei ver o de Tarvokvski, descobri que o DVD havia dado pau. Não seria ainda desta vez...
Meu primeiro contato direto, efetivo com a obra de Tarkovski se daria em ordem cronológica: assisti, há pouco menos de um mês, seu primeiro – na verdade, segundo, pois o primeiro fora feito para TV – filme), intitulado "O rolo compressor e o violinista" (1960, curta metragem). Apesar do apresso que senti pela obra, foi impossivel não pensar se tratar ainda dum primeiro tatear do cineasta (o filme foi realizado como trabalho de conclusão do curso de cinema). Em seguida (ontem, mais precisamente), assisti a seu primeiro longa metragem: "A infancia de Ivan"(1962); este já mostra de forma mais contundente o profundo vigor artístico do cineasta. Acredito não ser exagero dizer que me tornei fã apriori de Tarkovski (como quem "emprenha pelos ouvidos", me fascinei por sua obra antes de haver tido oportunidade de contemplá-la); após assistir aos dois filmes citados, percebi não haver me enganado (isso tavez tenha acontecido com Pasolini, é cedo para ter certeza); no entanto, o fator decisivo para pôr-me a escrever este texto hoje foi o início de minha leitura de "Esculpir o tempo" (livro este que pretendo comentar neste blog). Tudo bem, foi após assistir "A infância de Ivan" que me vi impelido a reconsiderar a decisão de só iniciar a leitura do livro em meados deste ano (em virtude da extensa carga de estudos – os quais nada tem a ver com cinema! – que devo realizar neste semestre); mas o fato é que o livro, somado aos dois filmes, me capturaram de tal forma que me vi – como já mencionei – impelido a escrever hoje. A idéia inicial era, após esta breve introdução de como conheci o cineasta russo, tecer já algumas considerações sobre a introdução do livro mencionado, mas, como idéias existem para ser abandonadas, limitar-me-ei agora a publicar a sinopse do livro (a ser aqui dissecado ou ao menos singelamente discutido posteriormente).



"O meu mais fervoroso desejo sempre foi o de conseguir me expressar nos meus filmes, de dizer tudo com absoluta sinceridade, sem impor aos outros os meus pontos de vista. No entanto, se a visão de mundo transmitida pelo filme puder ser reconhecida por outras pessoas como parte integrante de si próprias, como algo que nada, até agora, conseguiria dar expressão, que maior estímulo para o meu trabalho eu poderia desejar? Este livro amadureceu durante todo o período em que minhas atividades profissionais estiveram suspensas... Seu principal objetivo é ajudar-me a descobrir os rumos da minha tragetória em meio ao emaranhado de possibilidades contidas nesta nova e extraordinária forma de arte – em essência, ainda tão pouco explorada – para que nela eu possa encontrar a mim mesmo, com plenitude e independência."



Alberto Bezerra de Abreu 04/04/2010

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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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