sexta-feira, 11 de junho de 2010

PostHeaderIcon Quanto mais quente melhor: humor, astúcia e sensualidade








Sexta passada fui assistir ao filme “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, 1959), que deu continuidade a sessão de arte do cinema São Luiz. É interessante notar que os dois primeiros filmes dessa retomada da sessão de arte (vide postagens anteriores) sejam comedias (a estreia se deu com “Meu Tio” de Jacques Tati). Isto me levou a pensar que o título mais apropriado seria sessão de clássicos e não de arte (concebo filmes de arte que sejam comedias, mas certamente “Quanto mais quente melhor” não pode ser taxado de artístico, pelo menos assim penso eu; além disso, na programação inicialmente anunciada há filmes das décadas de 1950 a 1970, não contemplando, portanto, filmes de arte recentes). Para mim se tratam de filmes consagrados, mas não é objetivo deste texto tratar disso, mas do filme em questão.

Pode parecer estranho, mas ainda que tenha achado “Meu Tio” mais engraçado, considero “Quanto mais quente melhor” mais bem feito (roteiro me parece mais bem amarrado, fazendo o filme fluir melhor, as atuações são superiores); o enredo trata de uma dupla de músicos que presencia um crime e é obrigada a fugir da máfia (disfarçando-se de mulheres acabam embarcando num trem e ingressando numa banda só de garotas); o interesse de um impagável (e um tanto repugnante) velho milionário por “Daphne” (nome adotado pelo personagem Jerry, interpretado por Jack Lemmon) rende momentos engraçados (destaque para a cena em que “Daphne” chacoalha maracás no quarto do hotel, comemorando seu noivado com o velho milionário, bem como a clássica cena final na qual, tentando livrar-se do velho, “Daphne” afirma: “não sou loira natural”, “eu fumo”, “não posso ter filhos” e, por fim, percebendo que seus argumentos não dissuadiam o interesse do milionário, após retirar a peruca: “eu sou homem”, ao que o idoso replica na mais pura tranqüilidade: “ninguém é perfeito”).

O personagem Joe (interpretado por Tony Curtis e que adota o codinome “Josephine”) protagoniza uma das cenas mais impagáveis do filme; ao saber que Sugar (Marilyn Monroe, carnuda e apetitosa!) está a procura de um milionário e que ela tem uma queda por homens de óculos (que lhe parecem mais sensíveis), ele se traveste e incorpora um milionário sensível e mal sucedido com as mulheres; o primeiro encontro deles se dá na praia e a maneira absolutamente cínica como ele se faz notar por ela e vai esnobando-a em seguida – ela diz que toca numa banda de jazz, ao que ele replica algo do tipo: “ah, aquela música rápida. Prefiro música clássica” – é deveras cômica. O mesmo se dá na cena em que ambos estão no iate (conseguido na mais pura malandragem), e ele afirma que após a morte de sua amada, nunca mais sentiu nada por outra mulher; vemos então o personagem de Marilyn dando-lhe sucessivos beijos (almejados por todos os homens do planeta, ou quase) e ele desdenhando (por puro fingimento), gerando uma situação na qual é a beldade feminina quem se joga aos pés de um homem que não era particularmente bonito ou culto, sendo rico apenas na aparência, mas muito inteligente (no sentido de astuto).

Vendo-se obrigados a fugir (pois por uma trágica coincidência os mafiosos foram parar no mesmo hotel e acabaram descobrindo o disfarce de “Josephine” e “Daphne”), Joe telefona para Sugar dizendo que precisou viajar e não mais irá voltar. Ao falar com ela, já como “Josephine” (obviamente ela não sabia desta dupla identidade), ele(a) diz a Sugar que ela irá esquecer o milionário por quem se apaixonara, mas ela retruca: como, se a em toda esquina há um posto Shell (ele dissera ser dono de tal empresa).

Em suma, um filme leve, divertido, bem feito, contando com boas atuações e com uma Marilyn Monroe hipnótica. Passa longe de arte, mas merece sem dúvida a alcunha de clássico.


Alberto Bezerra de Abreu, 11/06/2010

4 comentários:

Pedro S. disse...

Belo texto, Alberto. Despertou-me profundo interesse em ver esse filme.

ISABELE disse...

Creio que pode haver até exibição de filmes de arte, mas serão poucos, o foco realmente será os clássicos, estou torcendo para que passe "E o Vento Levou" e alguns musicais.

Miradouro Cinematográfico disse...

Despertei interesse? Não mais estranho do que surpreendente...

Na verdade quando vi a "lista" de filmes a serem exibidos na tal sessão de "arte" do São Luiz lamentei a escolha deste que pouco me interessava. No entanto, pelo preço bastante acessível (2$ a meia entrada), pela disponibilidade de tempo, pelo interesse histórico e até para ajudar a iniciativa (pois quando fui assistir a "Meu Tio" havia muito poucos espectadores), acabei indo assisti-lo.

Passa longe de profundo, revolucionário, belo, mas é competente naquilo que se propõe: divertir.

Ao resenha-lo, acabei matando três coelhos com uma só cajadada: 1) divulguei mais um filme da sessão de "arte" do São Luiz (a qual pretendo acompanhar sempre que possível, como espectador e como "resenhador"; 2) resenhei um filme da vidioteca da revista Veja (pretendo resenhar todos os 50); 3) resenhei um filme indicado pelo livro "1001 filmes para assistir antes de morrer" (pretendo resenhar todos os que conseguir ver - acredito que não serão todos, pois alguns são muito raros).

"E o vento levou" e musicais não me apetecem (neste último gênero sou fã do "The Wall" e só). Estou sedento por Bergman (em película!), Fellini, Truffaut (dentre os citados) e por Herzog, Wajda, Glauber Rocha, Kubrick, Rossellini, LUIS FERNANDO CARVALHO (entre os não especificados mas - creio eu - com chances de serem contemplados - menos este último, p/ meu desgosto).

Cristina Mota disse...

Quanto mais quente melhor foi de longe o filme mais engraçado que já vi na vida. E olhe que o gênero comédia é o meu favorito, então já vi várias.

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Miradouro Cinematográfico
Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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