Deixa ela entrar: revitalização do gênero filme de vampiros numa história em que a poesia transcende o horror
Contrariando o critério norteador das resenhas de filmes até então por mim redigidas para este blog (o de tê-los assistido pelo menos duas vezes), empreendo alguns comentários sobre “Deixa ela entrar” (Let the right one in, Suécia, 2008, dirigido por Tomas Alfredson), ao qual assisti em janeiro de 2010 no cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Recife). Meu primeiro contato com a obra se deu através de uma resenha no jornal Diário de Pernambuco (eis o link
http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/01/02/viver7_0.asp), mas apesar desta ter me despertado algum interesse, não foi o suficiente para que eu tivesse realmente vontade de assisti-lo (no entanto, acabei indo por outros motivos somados a este...). Apesar de ter lido sobre o filme, não criei grandes expectativas (nem positivas nem negativas) acerca dele e isso parece ter sido fundamental para a grata surpresa que tive.
A primeira questão a se colocar é a seguinte: o que mais um filme sobre vampiros pode acrescentar de relevante? Bem, este e “Entrevista com o vampiro” são os únicos filmes sobre vampiro que assisti que não se baseiam diretamente na obra de Bram Stoker (parece-me haver a seguinte regra: filmes intitulados “Drácula”, como o de Coppola se inspiram fielmente na obra de Stoker, enquanto filmes intitulados “Nosferatu”, como os de Murnau e Herzog constituem livres adaptações, ainda que fiéis ao original, mas sem buscar reproduzi-lo em seus mínimos detalhes). Os dois filmes primeiramente citados não se baseiam em Stoker e, em minha opinião, são superiores aos filmes que o fazem, em se tratando de caracterização vampiresca. Exploram, a meu ver, com maestria a fragilidade como contraponto das habilidades sobre-humanas de tais criaturas. Em ambos há a questão de alguém tornado vampiro ainda na infância, temática deveras interessante (a qual põe a seguinte questão: até que ponto tais indivíduos conseguiriam ingressar na idade adulta?).
Eis o enredo: Eli e Oskar são dois pré-adolescentes que iniciam uma amizade peculiar; ambos – cada um a seu modo – são solitários. Ele é alvo constante de agressões de valentões da escola, ela é uma vampira! (mas de início ele não sabe disso). Assim, cada um em seu respectivo exílio encontra no outro um bálsamo. Ela (por motivos óbvios) põe-se na defensiva, mas acaba se rendendo à delicadeza do garoto. A terna relação entre eles, tendo como pano de fundo uma cidade coberta de neve, retratada através duma belíssima fotografia adquire contornos poéticos tocantes. O filme cresce, aos poucos, vai-nos envolvendo paulatinamente, a relação entre os dois jovens constituindo o tema central da obra. Evidentemente, tal relação remete necessariamente à natureza vampiresca de Eli, que vai se revelando aos poucos a Oskar. Um dos destaques da obra é a renúncia: no final do filme descobrimos (ou ao menos temos a certeza) de que Oskar irá substituir o senhor que “cuidava” de Eli, e com isso percebemos que este outrora desempenhava o papel que Oskar então desempenha. Eis um amor que se contenta tão somente com a companhia do outro. Pelo menos para mim, o verdadeiro significado da devoção daquele senhor pela garota só fica claro a medida em que a relação entre ela e Oskar se intensifica.
No entanto, se parece evidente que o diretor não evidencia apenas Eli (Oskar não é de forma alguma um mero coadjuvante), não posso negar que o que mais me interessou no filme em termos de discussão (travadas como uma espécie da rascunho para uma posterior resenha com a pessoa que me acompanhou na exibição de tal filme) trata essencialmente da condição vampiresca e será este o prisma privilegiado no restante do presente texto. Eis então algumas questões que coloquei a respeito desta temática numa discussão via e-mail:
1) a questão do viver ou morrer; Eli diz a Oskar, quando este a censura por matar, que precisa fazer isso. De fato, para viver ela precisa fazê-lo, mas o suicídio é sempre opção para um ser racional. Não sei se a opção do Louis (“Entrevista com o vampiro”), de se alimentar de ratos é verossímil em outras “interpretações” acerca da natureza vampiresca (se poderiam se alimentar do sangue de qualquer ser vivo, ou mais especificamente, de qualquer mamífero). Neste caso poder-se-ia criar animais, não ratos, mas porcos, cavalos, cães, enfim. Seria simples. Mas tendo de ser humanos, poder-se-ia selecionar as vítimas (me peguei pensando nisso: eu, me tornando vampiro, quereria a imortalidade? Não seria demasiado chato não morrer nunca, e pior, ver todas as pessoas que amo falecerem e eu permanecer infinitamente? Acredito que sim, mas certamente eu passaria ao menos algum tempo utilizando meus “super-poderes” para me divertir e quiçá fazer justiça; adoraria chupar todo o sangue de um parasita como Sarney, por exemplo; por outro lado, ao pensar que teria toda a eternidade para ler os clássicos da literatura, da filosofia, assistir centenas ou mesmo milhares de ótimos filmes, ficaria tentado a ir prorrogando a imortalidade...). Voltando, ainda que ela precise matar, há uma escolha: ela pode matar-se e não matar outrem. É fácil? Não creio, no entanto, é possível. Outra coisa, no caso da mulher mordida por Eli, seu suicídio seria opção ou efeito colateral? Numa cena ela afirma que foi contaminada pela garota. Meus parcos conhecimentos vampirescos são de que se o vampiro não suga o sangue da vítima até seu falecimento, esta se torna vampiro; no entanto, haverá diferença em faze-lo propositalmente ou sem-querer ? (Eli o fez sem querer – foi impedida de continuar – e talvez por isso a mulher não conseguisse aceitar sua “nova natureza”). Vale salientar que o repúdio à luz do sol e o inconveniente de entrar num recinto sem ser convidado são apreendidos instintivamente pelo vampiro, isso fica claro no comportamento da mulher.
2) a questão do instinto; é célebre em filmes de vampiro a cena em que um humano se corta (normalmente sem querer) e o dentuço perde a compostura; no “Nosferatu” de Herzog, o vampiro chupa o dedo do convidado, e diz ser para o bem dele, mas a maneira afoita, esfomeada mesmo que ele o faz desmente esta sua intenção. Isso me suscitou algumas questões: a atração pelo sangue é incontrolável? (normalmente, um humano não avança daquele jeito na comida, por mais apetitosa, a não ser se estiver a dias sem comer); tal ímpeto alimentar se dá mesmo que o vampiro esteja bem alimentado (tenha se alimentado há pouco?); até onde é possível se controlar? Achei a cena do “Deixa ela entrar” duplamente inverossímil; primeiro, porque se ela sabia de sua fraqueza, devia ter fugido logo que viu o sangue escorrer (ela poderia faze-lo, já que o fez depois); além disso, não faz sentido p/ mim ela ter dito para ele correr/fugir, quando ela que o devia ter feito (pois era ela quem sabia do perigo, não ele); tanto é assim que ele não correu e ela teve de fazer o que eu sugeri desde o início.
3) A dúvida do motivo dos gatos terem não apenas “se armado” para a mulher tornada vampira por Eli (o que me pareceria normal, já que animais parecem ter uma maior sensibilidade que os humanos para captarem coisas do “além”), mas a atacado (e em bando!). A questão do ataque me parece deveras estranha (de novamente, inverossímil), pois em geral, quando um gato ameaça atacar se arrepiando, ele está na realidade se sentindo ameaçado (o fato de arrepiar-se serve justamente para que ele pareça maior, o que aconteça quando um gato encontra um cachorro ou um gato hostil – já presenciei ambas as situações), diferentemente de quando ele “ameaça” um dono chato que lhe está importunando (neste caso ele não se arrepia – e também já vivenciei tal situação=). De modo que o comportamento esperado seria a hostilidade dos animais, mas não o seu ataque (a não ser que a insegurança da mulher em relação a sua nova condição tenha-lhe tornado particularmente frágil – não imagino os gatos saltando em Eli, e se por acaso o fizessem, ela, no mínimo os jogaria longe).
Para finalizar, destacado dois dos momentos mais marcantes da película: a cena da piscina, na qual Eli literalmente despedaça os algozes de Oskar é belíssima, mas aquela que dá nome ao filme é realmente incomparável em termos de beleza. Aliás, cabe aqui uma breve reflexão sobre o sentido do título: remetendo a “Cinema, aspirinas e urubus”, cabe salientar que há filmes que vão além do puro entretenimento sendo cheios de significados profundos, expressos inclusive em seus respectivos nomes. No caso de “Deixa ela entrar”, sem dúvida não se trata apenas da maldição vampírica, podendo ser interpretado também no sentido metafórico de, ele – o humano – deixar que ela – a vampira – entre em sua vida, ainda que na verdade seja ela quem possui ressalvas quanto a relação, visto que ele terá muito a dar e pouco a receber. De qualquer forma, me recuso a enxergar no título uma menção exclusiva a tal maldição, ainda que a cena em questão seja de um primor irretocável. E cabe salientar ainda que, até onde lembro, não sabia o que aconteceria se um vampiro entrasse numa residência sem ser convidado; imaginava que eles não conseguissem, como se houvesse uma barreira invisível. Até onde sei, nenhum outro filme mostra este tipo de resultado, o qual, por si só, já vale o filme. Além da beleza estética, há a beleza poética, estando ambas imbricadas durante todo o filme. Belíssimo; surpreendente, quiçá tocante.
Em tempo: “A hora do espanto” é outro filme sobre vampiros não inspirado em Stoker o qual assisti, mas faz tanto tempo que até me esqueci de sua existência.
Dedico esta resenha a Isabele “Tinúviel”, minha companheira de sessão e interlocutora virtual das questões acima enumeradas.
Alberto Bezerra de Abreu (janeiro/abril de 2010)
Expectativa 2011/ Retrospectiva 2010 na Fundaj: prato cheio de ótimos filmes recentes
A vida cinematografica recifence anda movimentada nas ultima semanas; apos a III Janela Internacional de cinema do Recife, em meados de novembro, e da edição 2010 do Festival de Vídeo de Pernambuco (ambos aqui divulgados e a serem por mim resenhados em breve), realiza-se, desde a semana passada, a Expectativa 2011/ Retrospectiva 2010 no cinema da Fundação Joaquim Nabuco. O evento, que começou no dia 3 de dezembro e irá até o dia 16 deste mesmo mês (próxima quinta-feira) não me atraiu muito em sua primeira semana ("Mary & Max" eu já havia assistido; "Toy Story 3" não, e apesar de meu desejo, não pude vê-lo nesta exibição para os retardatários, de modo que limitei-me, nesta primeira semana, a assistir "Filme Socialismo", do sempre desafiador Godard).
Porém, ao abrir o jornal no sábado a tarde, pouco tempo após acordar (o enfado de fim de ano me fez dormir das 2h da madrugada de sexta para sábado até as 14:20 deste último), meu olhos brilharam ao ver que seria exibido "Vício frenético", filme estrelado por Nicolas Cage e dirigido pelo talentosissimo cineasta alemão Werner Herzog. Duplamente imperdível, não só pela qualidade do "homi", mas por eu haver perdido quando passou ano passado (saiu de cartaz muito rápido). Como soube já em cima da hora, não deu tempo de postar nem avisar a ninguém.
Ainda no sábado, uma amiga me disse ter ouvido coisas boas do filme "Hanami: cerejeiras em flor" e após assisti-lo, justamente no festival em questão, endossou o elogio; após afirmar que o filme seria re-exibido, fui a site da Fundaj e tive a grata surpresa de ver que outros filmes interessantes também serão exibidos no festival; entre eles o faladíssimo "Tropa de elite 2" (que estou tentando assistir a algum tempo, mas sempre ocorre algum emprevisto ¬¬), bem como o clássico "Dona flor e seus dois maridos" (para quem não sabe, este filme foi por mais de 20 anos o filme brasileiro recordista de bilheteria, sendo tal recorde quebrado justamente por "Tropa de elite 2"). E mais: esses dois serão exibidos no mesmo dia. Empolgado com a notícia, resolvi divulgar aqui a programação completa da segunda semana do evento. Ei-la abaixo. Para maiores detalhes,
http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=455&date=currentDate
Além dos filmes citados, destaco o excelente "Deixa ela entrar" (fiz uma resenha dele e com esta nova exibição, é possível que a poste nos próximos dias) e, para quem perdeu o Festival e Vídeo de Pernambuco deste ano, aconselho a sessão Curta PE (dois destes foram exibidos no festival).
Boas sessões.
Alberto Bezerra de Abreu.
Segue a programação:
16h30 – Homens em Fúria
(Stone, EUA, 2010) De John Curran. Com Robert De Niro, Edward Norton, Milla Jovovich.
18h30 – Minhas Mães e Meu Pai
(The Kids Are Alright, EUA, 2010), de Lisa Cholodenko. Com Julianne Moore, Annette Benning, Mark Ruffalo.
20h30 – Morte e Vida Severina
(Brasil, PE, 2010) Animação de Afonso Serpa. Com vozes de Gero Camilo, André Ríccari, Vanda Phaelante, Lívia Falcão, Eduardo Japiassu, João Augusto Lira, Jones Melo, Fábio Caio, Vavá Schön.
Terça, 14 de Dezembro
17h50 – Tropa de Elite 2: O Inimigo agora É Outro
(Brasil, 2010) De José Padilha. Com Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Maria Ribeiro, Milhem Cortaz, Tainá Müller.
20h10 – Dona Flor e Seus Dois Maridos
(Brasil, 1976), de Bruno Barreto. Com Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça.
Quarta, 15 dezembro
16h10 – Deixa Ela Entrar
(Låt den Rätte Komma In, Suécia, 2008), de Tomas Alfredson. Com Kåre Hedebrant,
Lina Leandersson.
18h20 – Sede de Sangue
(Bakjwi, Japão, 2009), De Chung Seo-kyung, Park Chan-wook. Com Song Kang-ho, Kim Ok-vin, Kim Hae-sook.
20h40 – Terra Deu, Terra Come
(Bra., 2010) De Rodrigo Siqueira.
Quinta, 16 de Dezembro
16h – Atraídos pelo Crime
(Brooklin Finest, EUA., 2009), De Antoine Fuqua. Com Richard Gere, Ethan Hawke, Don Cheadle, Wesley Snipes, Lili Taylor, Ellen Barkin.
18h15 – Hanami: Cerejeiras em Flor - (2ª exibição)
(Kirschblüten: Hanami, Alemanha, 2008). De Doris Dörrie. Com Elmar Wepper, Hannelore Elsner. Seleção oficial de Berlim 2008. 126 min. / Filmes da Mostra / Inédito / Digital / 14 anos.
20h30 – A nova safra de curtas metragens pernambucanos
- O Monstro da Várzea
De André Pinto
ficção, cor, digital, 3 min., PE, 2010
- O Ano Passado em Itamaracá
De German Ra
ficção, cor, digital, 15min., PE, 2010
-My Way
direção: Camilo Cavalcante. Com Marisa Santanafessa, João Eduardo, Asaias Zaza, Soraya Silva, Henrique Viana Brandão, Hugo Coutinho, Aninha Martins
ficção, cor, digital, 7min, PE, 2010
- Café Aurora
direção: Pablo Polo
ficção, cor, 35mm,19min, PE, 2010
- Acercadacana
direção: Felipe Peres Calheiros
documentário, cor, 35mm, 19min58, PE, 2010
Edição 2010 do Festival de Vídeo de Pernambuco

Abaixo, seguem o link da reportagem mencionada, bem como a programação completa. Aproveitem!
Alberto Bezerra
http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/11/27/viver1_0.asp
Segunda, 29/11
19h
O Sertão de Zé do Mestre, de Alice Chitunda
Ossos do ofício, de Camila Rocha, Luciano Branco, Ricardo Arruda, Yuri Serbedzidja e Thiago Oliveira
Cacique Luna - guerreiro dos caboclinhos, de Patrícia Aráujo, Isabella França, Aline Silva
Vale desenho, de João Lin
Cambinda Estrela, maracatu de festa e de luta!, de Adriano Lima
Poesia em alto relevo, de Hanna Godoy
20h30
Mestre Dengoso, de Alex Ramos, Carlos Alberto, Diogo Sobral, Obailê Santana, Marcos Paulo, Pablo José, Rayanne Kelly e Washington Santos
Mar de Lia, de Hanna Godoy
Por que não?, de Mariane Bigio
Do morro?, de Mykaela Plotkin e Rafael Montenegro
Confessionário, de Leonardo Sette
Nós, de Victor Dreyer
Filmes e quadrinhos, de Domingos Sávio
Cores da rua, de César Santos e Marcele Lima
As aventuras de Paulo Bruscky, de Gabriel Mascaro
Terça, 30/11
19h
Maxixe, de Breno César
Bode movie, de Taciano Valério
River raid - Alright (4 minutos, 2010), de Pedro Severien
Bokeh, de Breno César
À felicidade, de Carlos Nigro
Breve ensaio sobre a bestialidade humana, de Wilson Freire
Teatro da alma, de Deby Mendes
20h30
Fome de bola, de Juliana Serfaty e Isaac Chueke
Intempestiva, de Carlos Nigro e Cacá Macena
My way, de Camilo Cavalcante
Tempo impresso, de Marcos Enrique Lopes
Matriuska, de Pablo Polo
Afeiçoado, de Diogo Luna
Malunguinho, histórico divino, de Mísia Coutinho
Coisa linda, de Cezar Maia
Dualidade, de Bruna Coutinho
A minha alma é irmã de Deus, de Luci Alcântara
Quarta, 1/12
19h
Cerol, de Adalberto Oliveira
O milagre da multiplicação dos sons, de Elessandra Melo, Monike Freitas e Paula Thayza
Não sei de devo, de Muniz e Vitor
Pernambuco, você é meu, de Brenno Costa e Ana Luíza Madeiro
Vodka, de Victor Dreyer
20h30
Balaiagem, de Uiane Dantas
Se essa rua fosse minha, de Ariana Gondim
Sertão vazio, longe que só a gota, de Pablo Ferrari e Wilson Freire
O monstro da Várzea, de A. Pinto
Ninhos antigos, de Osman Godoy
Corpo Urb, de Mariane Bigio
Moro... ou não moro, de Martina Marzagalli
Caiu a ficha, de O. Nascimento
O homem dela, de Luiz Joaquim
Retinianas, de Luís Henrique Leal
Guerreiros da Água e da Terra, do Coletivo Macunaíma Colorau
Quinta, 2/12
19h
O vizinho da frente, de Júlia Araújo e Nathália D'emery
Profissional da noite, de Kleber Dibianchi
Reverie, de Marlom Meirelles
Querida Clara, de João Tavares
Júlia e o porco, de Fernanda Mateus
Tá moco é?, de Daniel Monteiro do Nascimento
20h30
Brecha, de Júlia Araújo e Nathália e D'Emery
Um beijo para ele, de Ubirajara Machado
Depois de um vôo, de C. Santos
Retratos, de Tabosa e Rafael Negrão
Pesadelo, de Paulo Leonardo
Aqui mora uma pessoa feliz, de Jean Santos
Drink me, de Eduardo Monteiro, Chiarina Beloto, Zé Diniz, Marília Cantuária, Raiony Costa e Juliana Rogge
Efeito peixe, de Luna Matos
Expresso, de Paulo Leonardo
BBC Olinda, de Lourival Cuquinha
Memórias de minhas putas alegres, de João Borba
Mostra de Cinema Espanhol Atual 2010

A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) exibe, de 24 a 28 de novembro, filmes da terceira edição da Mostra de Cinema Espanhol Atual. As sessões serão realizadas na sala Joaquim Cardoso, localizada da Fundaj/Derby, Recife. Neste ano, a mostra está constituída por cinco filmes, entre produções totalmente espanholas e co-produções, como é o caso do premiado "A Teta Assustada" (Peru-Espanha).
A Mostra de Cinema Atual Espanhol é uma realização da Embaixada da Espanha e está em itinerância por 10 capitais brasileiras. A entrada é franca.
Filmes na programação 2010
- Amateurs, de Gabriel Velázquez
- Caminho, de Javier Fesser
- Forasteiros, de Ventura Pons
- Um Namorado para Yasmina, de Irene Cardona
- A Teta Assustada, de Claudia Llosa
Serviço
O que: Mostra de Cinema Atual Espanhol
Quando: de 24 a 28 de novembro
Onde: Cinema da Fundação - Fundação Joaquim Nabuco
Endereço: Fundação Joaquim Nabuco. Rua Henrique Dias, 609, Derby. Recife – PE. CEP: 52010-100
Informações: (81) 3073.6689 | www.fundaj.gov.br/cinema
III Janela Internacional de Cinema do Recife
Saudações cinéfilas!
Após uma postagem inicial, qual não indicava nenhum filme, me infomei melhor (através da reportagem publicada no sábado 13/11/2010 no jornal Diário de Pernambuco), modifico o conteúdo desta (a postagem), emenciono os filmes destacados pelo jornal.
Primeiramente, a" trilogia do dólar"de Sergio Leone (responsável pela "repopularização" dos filmes de faroeste, inventando um subgênero dentre deste, chamado "western spaguetti", no Brasil conhecido como "bang bang àitaliana"); trata-se dos seguintes filmes (todos a serem exibidos no cinema São Luiz):
Três homens em conflito (1966)
Por um punhado de dólares (1964)
Por uns dólares a mais (1965)
Outros filmes destacados pelo jornal são os seguintes longas:
O mágico (2010, de Silvian Chomet, animação, França/Inglaterra)
Minha alegria (2010, de Serguei Loznitsa, Alemenha/Holanda/Ucrânia)
e os seguintes curtas:
Aeroporto (de Marcelo Pedroso, PE)
Janela molhada ( de Marcos Enrique Lopes, PE)
Ave Maria ou mãe dos sertanejos (de Camilo Cavalcante, PE)
Big Bang Big Boom (de Blu, Itália)
História de cão (de Serge Avédikian, França)
Eis o link do site do evento, no qual se encontra a programação completa:
http://www.janeladecinema.com.br/?acao=home
Saliento que neste endereço, na página principal, pode ser baixada a programação completa em PDF.
Bom proveito!
Alberto Bezerra
CINEMA SÃO LUIZ
INGRESSOS
Curtas R$1
Longas R$2 (meia) e R$4 (inteira)
Rua da Aurora, 175
Boa Vista, Recife PE
(81) 34234031
twitter.com/cinemasaoluiz
CINEMA DA FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO
INGRESSOS
Curtas R$1
Longas R$4 (meia) e R$8 (inteira)
(meia entrada para todos nos longas brasileiros)
Rua Henrique Dias, 609
Derby, Recife PE
81 30736688 / 81 30736689
twitter.com/cinemafundacao
A origem: Chistopher Nolan constrói outro profundo labirinto psicológico
Foram dois os motivos principais que me levaram a assistir “A origem” (Incpetion, EUA, 2010, de Chistopher Nolan) no cinema: a temática dos sonhos, pela qual nutro grande interesse (tendo inclusive começado a ler “A interpretação dos sonhos” de Freud ano passado, sem, contudo, concluí-la, devido a outras leituras mais urgentes), bem como o fato de se tratar de uma obra de Cristopher Nolan (diretor de um de meus filmes favoritos: “Amnésia”, de 2000). Aliás, os dois motivos se imbricam perfeitamente, visto que Nolan costuma investir em aspectos psicológicos de seus personagens (aspectos estes que conduzem a trama), recorrendo frequentemente a flasbacks que nos mostram lembranças (curiosamente, não lembro, porém, dele ter retratado sonhos em alguns de seus filmes anteriores que tive oportunidade de assistir – “Batman Begins” (2005), além do já citado “Amnésia”.
Geralmente, os filmes para os quais crio expectativa, insistem em quebrá-las: quando são elas demasiadas, acabo me frustrando (não recordo exemplo recente) e quando são baixas, por vezes me surpreendo positivamente (o exemplo mais próximo foi “Chico Xavier”, de quem esperava muito pouco). Curiosamente, “A origem” é pelo menos o terceiro filme que vi no cinema nos últimos meses em relação ao qual minha expectativa se mostrou correta (os outros dois foram “Alice” de Tim Burton e “À prova de morte” de Quentin Tarantino, os quais confirmaram minha expectativa de serem bem fracos). Porém o diferencial do filme de Nolan em relação a estes últimos é que não o achei fraco; no entanto, foi-me impossível tira-lo da sombra de “Amnésia”, que para mim cheira a apogeu precoce, tal qual “Pulp fiction – tempo de violência”, segundo filme de Tarantino que sequer foi igualado (que dirá superado) por suas obras posteriores.
Dois aspectos em especial me desagradaram em “A origem”: as cenas de ação e a escolha de um astro como protagonista. Não que tais aspectos sejam propriamente negativos, eu é que, no meu gosto pessoal não me agradei deles (minha não tão recente “peitica” com Hollywood, bem conhecida por aqueles que costumam acessar este blog). As cenas de ação são bem feitas e – o mais importante – em momento algum tomam preponderância em detrimento do enredo; entretanto, com “Amnésia”, Nolan conseguira fazer um filme tão inteligente e intrigante quanto “A origem”, se recorrer a elas. Quanto a Leonardo Di Carprio, desempenha bem seu papel e já mostrou em outros filmes que sabe atuar, porém Guy Pearce (protagonista de “Amnésia”), conseguiu, a meu ver, desempenho equivalente, com a vantagem de não ser um astro; aclarando a questão, para os que ainda não entenderam meu incômodo: ainda que não tenha aberto mão de estilo peculiar, digamos assim, “psicologicamente intricado”, ao fazer uso de cenas de ação, somando a estas o recurso a um astro como protagonista, Nolan aderiu a certos padrões hollywoodianos que estavam ausentes em “Amnésia”, que se não me engano era um filme independente. Posta de lado esta ressalva, bem como a comparação (talvez injusta, mas impossível de não ser empreendida por mim) com o filme de 2000, “A origem” se revela um filme realmente bom, e acima da média das produções atualmente realizadas.
O mote do enredo é simples, o que é complexo são seus desdobramentos; Dom Cobb (Di Caprio) “trabalha” roubando segredos industriais nos sonhos (!) dos grandes magnatas; é, porém, contratado para uma missão um tanto diferente: não roubar, mas desta vez implantar uma idéia na mente do herdeiro de um grande grupo de empresas. O braço direito de Cobb afirma ser isto impossível, mas ele o refuta, afirmando que já o fez. Ficamos sabendo já próximo do fim do filme que tal fato se deu com sua esposa; em longo sonho coletivo, eles passaram anos a fio na companhia um do outro, envelhecendo juntos; aparentemente, ela perdeu a noção de realidade, de modo que ele se viu obrigado a lhe plantar a idéia de que aquilo era um sonho (e de fato era), sendo necessário acordar para retornar ao mundo real; não contava ele com um efeito colateral: sua esposa continuaria pensando estar sonhando, mesmo quando em vigília, no mundo real, de modo que se suicida para acordar (ao longo do filme somos informados que no âmbito do sonho, morrer significa acordar, exceto quando se está dopado por grandes doses de sonífero: neste caso, morrer no sonho equivale a cair num coma na vida real); antes de tirar sua própria vida porém, a esposa de Cobb procura três psicólogos/ psiquiatras que atestam sua saúde mental (seu distúrbio se referia “apenas” ao julgar estar sonhando), de modo que ele passa a ser acusado de homicídio (a intenção dela era que também ele se suicidasse, para acordar), e não vê outra saída senão tornar-se um ladrão de segredos nos sonhos alheios.
Os um tanto complexos desdobramentos de tal enredo consistem justamente na inserção de Cobb e sua “equipe” nos sonhos do tal magnata; é interessante perceber que a possibilidade de sonhos compartilhados, no qual alguém extrai informações importantes de outrem constitui conhecimento de domínio público, tanto que não só aquele que o contrata, mas também o alvo da operação estão cientes das invasões que seus respectivos sonhos podem sofrer. Por isso mesmo utiliza-se a técnica do sonho dentro do sonho (que me remete à “A hora do pesadelo”, do simpático Freddy Krueger); dessa forma, a equipe de Cobb traça um plano para descer três níveis no sonho da vítima: um sonho dentro de um sonho dentro de outro sonho; no entanto, algo dá errado e o protagonista se vê forçado a descer ainda mais um nível. Voltaremos a isso.
Há ainda um outro defeito: a falta de criatividade na construção dos sonhos, defeito duplamente grave, tanto pela qualidade do diretor, como pela plasticidade que os sonhos fornecem no sentido de materialização das mais absurdas coisas, sem que se perda a verossimilhança; ao contrário, é justamente o advento do absurdo que torna um sonho verossímil (estar num lugar e ao virar-se encontrar-se já noutro; ver uma pessoa que no momento seguinte torna-se outra, experimentar diversos tipos de estranheza): nada disso há em “A origem”. Para não dizer que os sonhos são de todo decepcionantes, há dois momentos que enchem os olhos: quando, num “treino”, a arquiteta sobrepõe uma cidade à outra, ficando uma de ponta a cabeça em relação a outra (ela literalmente dobra uma paisagem sobre outra), bem como a cena (dupla, primeiramente com, depois sem gravidade) de combate num corredor de hotel, onde a turbulência do local (que se deve ao fato de se estar num sonho dentro do sonho, de modo que no sonho do nível acima estão todos dormindo numa van em queda livre, e tal queda interfere no sonho passado no hotel, que vira balança tal qual a van) faz com que paredes se tornem chão e vice-versa, cena esta que me lembrou “Matrix” (na cena da van e em outras há câmera lenta.
Passemos ao que considero mais importante no filme: sua inserção dentro de um estilo já consolidado de Chistopher Nolan, que sempre explora a psique de seus personagens, flertando com a dúvida acerca do que é realidade ou ilusão. O fato de Cobb por vezes não saber o que é real me remete diretamente a “Amnésia”, onde o protagonista perde sua identidade, a ponto de não se lembrar de alguém que acabou de conhecer e, portanto, não poder confiar em ninguém, não podendo igualmente construir qualquer tipo de relação sólida. Outro aspecto que aproxima os dois filmes é a culpa ostentada pelos protagonistas: Cobb sente-se (e é) responsável pelo suicídio da mulher, por ter-lhe plantado uma idéia que, nas palavras do próprio, cresceu dentro dela como um vírus (nada mais forte que uma idéia, quando realmente acolhida por uma mente, afirma o filme). Leonard, por sua vez, talvez seja culpado pela morte de sua esposa, ao dar-lhe doses excessivas de insulina, devido a seu esquecimento. Em “A origem”, o risco de não saber-se dormindo ou acordado existe para todos, por isso aconselha-se a arrumarem um totem, que ao ser avistado garantiria estarem despertos (confesso que não entendi bem essa idéia, pois por que diabos ele não poderia aparecer no sonho?). O totem de Cobb fora herdado de sua esposa: consiste num pequeno objeto que roda como um pião; tal objeto aparece dentro de um sonho, mas no filme diz-se que só no estado de vigília ele para de rodar (sabe-se lá o motivo!). A culpa de Cobb faz com que ele projete sua esposa nos sonhos em que tenta roubar informações e ela lá está para sabotar suas operações; no caso de encomenda especial de implantar uma idéia, a esposa também se faz presente, levando o contratante – que também estava dentro do sonho, para garantir ser cumprida a missão – a um quarto nível de sonho; Cobb vai busca-los e decide renunciar seu despertar, escolhendo ficar ao lado da mulher naquele sonho (algo que me lembrou a renúncia do esposo, aceitando ficar ao lado da mulher no inferno em “Amor além da vida”); o filme finda com Cobb diante do contratante, havendo o “pião” rodando na cena: a certa altura ele parece perder velocidade e estabilidade, mas o filme finda antes que possamos constatar se ele cai ou não, de modo que não é – no meu entender – respondido se aquilo se trata de um sonho ou da realidade (minhas interpretações iniciais acerca de “Amnésia” eram justamente a de que propositalmente não há solução para o enigma, ainda que na última vez que o assisti, tal tese tenha sido abalada).
Para findar a presente resenha, um esclarecimento de algo que talvez não haja ficado suficientemente claro: afinal, o filme é bom ou não? Depende. Se comparado a maioria dos filmes lançados nos últimos tempos (inclusive europeus), mas sobretudo em relação aos hollywoodianos, é certamente um bom filme. Mas se levarmos em conta o potencial de Nolan, bem como as potencialidades que um enredo centrado em sonhos fornece (“Morangos silvestres” de Bergman e alguns filmes de Buñuel, além do já citado “A hora do pesadelo” constituem bons exemplos), não me parece exagero considerar “A origem” como um desperdício de talento e de dinheiro.
Alberto Bezerra de Abreu, 11/09/2010
Ps, fica aqui a sugestão de uma interessante resenha sobre o filme:
http://quadradodosloucos.blogspot.com/2010/08/critica-origem-christopher-nolan-2010.html
A revolução não será televisionada ou quando o esquerdismo bocó fura os olhos e tritura os cérebros dos naïves


*Pedro Sobral
No ano de 2001, os cineastas irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain viajaram à Venezuela para fazer turismo político e realizar um documentário sobre o já então controverso presidente Hugo Chávez, empossado dois anos antes.
Ao longo das filmagens, a dupla irlandesa se dá conta de que está em marcha um agudo processo para depor o presidente eleito pelas urnas e, sensatamente, muda o foco do documentário da figura burlesca de Hugo Chávez para a ruidosa oposição política e midiática no país caribenho. E voilà: nasce o ornitorrinco – animal estranho, monstrengo à Frankenstein – A revolução não será televisionada (The revolution will not be televised – Irlanda, 2003, 74 minutos).
Os mais incautos dirão que A revolução não será televisionada comprova a existência de uma burguesia local malvada, alinhada ao imperialismo norte-americano, preocupada com seus próprios interesses imediatos. Mas o ambiente político da Venezuela de antes e depois das filmagens é muito mais complexo do que o vulgar maniqueísmo e não comporta enquadramentos desse modelo. Para se ter uma idéia do desgaste do sistema de representação venezuelano em 1998, basta dizer que a principal adversária de Hugo Chávez na disputa majoritária daquele ano era Irene Sáez, ex-Miss Universo, que concorreu com o arfante apoio político da Acción Democrática – agremiação que se revezava no poder com seu congênere Copei (partido democrata-cristão) havia exatamente quarenta anos.
Imediatamente após a posse, em 1999, Chávez convoca uma assembléia constituinte que dissolve a Câmara Alta do país (e sem senadores fica mais fácil governar com parca oposição tendo em vista que a Câmara Alta não é – necessariamente – governista como sói ser a Câmara Baixa), muda o nome da nação de República Federativa da Venezuela para República Bolivariana da Venezuela e revoga alguns dispositivos constitucionais acerca da extração de petróleo pela estatal Pdvsa, grande fomentador de divisas para os venezuelanos, além da lei de posse de terras.
No que toca ao adjetivo bolivariano, devo abrir um parêntese: estive na Venezuela em 2007 e me impressionou como tudo no país recebe – agora com Chávez – o epíteto bolivariano: rua bolivariana, avenida bolivariana, universidade bolivariana, político bolivariano e assim sucessivamente ad nauseam, ad aeternum e ad infernum. Seria o pesadelo extremo daquela personagem do desenho animado Pernalonga (um baixinho, com longos bigodes cujo nome se esvaiu de minha memória). Em um episódio, o coelho Pernalonga deixa essa personagem de baixa estatura enlouquecida e paranóica. E, na sua mente enferma, todas as pessoas que vê na rua – policiais, mulheres, bebês... – são coelhos e sempre lhe contestam com a indefectível pergunta: “O quê é que há, chefe?” Foi mais ou menos isso que senti na República Bolivariana: “O quê é que há, bolivariano?” Demente.
Na panfletária película, os oposicionistas venezuelanos são pegos em seus piores momentos: numa associação patronal de bairro, um dos oradores pede que seus colegas vigiem suas empregadas domésticas, pois elas podem levar explosivos para detonar as casas burguesas; em outra cena, vemos imagens de algum canal privado do país e num desses programas matutinos de futilidades, quero dizer, variedades, a apresentadora se despede dizendo “Até quinta, de preferência sem Chávez!”; em um noticiário televisivo, em que o âncora anuncia que líderes da Acción Democrática solicitaram um exame de sanidade mental do presidente. Por outro lado, dos chavistas só são apresentados os momentos de música e poesia, e não se fotografa a realidade dos militantes rojos, rojitos1 (assim os chama Chávez): desocupados, violentos, cegos ao personalismo do caudilho etc.
Em fevereiro de 2002, o presidente do país resolve acomodar sua “cumpanheirada” na cobiçada estatal Pdvsa, em detrimento aos quadros técnicos que geriam a empresa até então. Foi a senha para a oposição convocar uma marcha em direção à sede da petrolífera. Neste ponto, A revolução não será televisionada assume o papel de imprensa chavista e manipula/distorce as informações a gosto. Os oposicionistas liderados pelo presidente da federação de comércio local (um equivalente seria a Fiesp no Brasil), Pedro Carmona, e o líder da principal central sindical do país, Carlos Ortega, decidem entre si desviar a passeata da sede da Pdvsa até o Palácio de Miraflores (palácio do governo) onde chavistas já estavam acomodados. Só poderia dar em morte – e deu. Ambos, situação e oposição, se acusam pelo assassinato de pelo menos 19 pessoas no dia 11 de abril de 2002. Para Bartley e O’ Briain, por supuesto, as mortes foram causadas pelos militantes oposicionistas. Os irlandeses conseguiram filmar dentro de Miraflores os bastidores do golpe, a prisão de Chávez, a assunção de Pedro Carmona como presidente venezuelano e o contragolpe a partir de membros da guarda leal ao recém-deposto presidente.
A revolução não será televisionada termina com Hugo Chávez reassumindo o posto de mandatário máximo do país caribenho. Nos anos que se seguiram ao golpe perpetrado pela dupla Carmona/Ortega, o governo Chávez transitou de uma semi-democracia pautada no mais castiço populismo latino-americano para um regime totalitário e ditatorial, pura e simplesmente.
O golpe de 02 é sempre utilizado pelo caudilho para justificar qualquer ação institucional de seu governo no âmbito de cercear a liberdade de imprensa – daí o fechamento da mais famosa rede de televisão local, a RCTV, em 2007, de 250 rádios com programação ligada aos poucos – e bravos – oposicionistas, em 2009, ademais das ameaças constantes ao canal Globovisión. Tal qual Il duce, o ditador italiano Benito Mussolini, Chávez fomentou grupos para-militares que devem obediência apenas ao ditador venezuelano (La Piedrita e Los Tupamaros – nome que imita o dos guerrilheiros/terroristas uruguaios dos anos 70, são exemplos), além das constantes agressões às instituições universitárias – as não-bolivarianas, que fique claro. Mas o mais aterrador é, sem dúvida, a Lista Tascón, de 2004. A dita lista enumera as pessoas que votaram a favor de um referendum revocatório do governo Chávez naquele ano. Aos desavisados que tiveram sua firma na lista, restou prosseguir a vida sem contar com a proteção e qualquer benefício do Estado: não podem mais tirar passaportes, os que eram funcionários públicos – de qualquer nível – foram exonerados, é negado crédito oficial aos empreendedores da Lista Tascón, entre outras arbitrariedades que tais.
A Venezuela caminha a passos céleres para uma guerra civil. As fraturas da sociedade local não estão mais calcadas nas diferenças entre pobres x ricos, mas entre chavistas e anti-chavistas. O país caribenho ficará rojo, rojito com o sangue dos embates que se aproximam. Por hora, já está vermelho de ódio.
1 Vermelho, vermelhinho é a referência de Hugo Chávez a seus militantes e seguidores, pois costumam usar camisa vermelha, símbolo da esquerda.
*Pedro Sobral é licenciado em história pela Universidade Católica de Pernambuco, bacharelando em ciências sociais pela UFPE, professor da rede pública e particular e cinéfilo nas horas vagas.
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- Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)