quinta-feira, 8 de julho de 2010

PostHeaderIcon Chico Xavier – o filme: sobriedade e sentimentalismo em doses adequadas






Pela primeira vez em 2010 aderi ao circuito cinematográfico comercial e fui ao “xopis” Boa Vista assistir a “Chico Xavier” com a pior das expectativas possíveis, em virtude de se tratar de um filme da Globo Filmes. No entanto, surpreendi-me positivamente (a expectativa – boa, evidentemente – constitui a matéria-prima fundamental da decepção, como já ensinara Schopenhauer); apesar de acessível e clichê, a obra não se perde em infinidade de lugares-comuns, não apela ao sentimentalismo fácil (certamente há cenas que talvez arranquem lágrimas dos mais sensíveis, mas não me pareceu que sejam propriamente apelativas) e, acima de tudo, o filme não é tão “novelinha” quanto outros realizados pela mesma produtora. O fato de os personagens principais serem todos interpretados por atores “globais” certamente incomoda um pouco aqueles que como eu buscam se afastar de um cinema eminentemente comercial, mas, em que pesem algumas atuações um tanto caricatas (Giulia Gam e Cássio Gabus Mendes – este último num papel que se revela muito mais breve do que indicava o trailer), os “globais” dão conta do recado a contento daqueles um pouco mais exigentes. Nelson Xavier interpreta um Chico maduro de maneira sóbria, sem excessos que talvez surgissem na interpretação de algum outro ator; Pedro Paulo Rangel é outro ponto alto em termos de atuação, com seu humor característico. No entanto, a grande atuação de “Chico Xavier” fica por conta de Tony Ramos, mas não na obra como um todo e sim especificamente em duas cenas finais: aquela onde lhe é mostrada a carta de seu filho, psicografada por Chico durante o programa de televisão dirigido pelo personagem de Ramos; a forma como este “engasga” (dá uma parada naquilo que estava dizendo, em virtude de ter sido tomado pela emoção) é soberba; a outra cena é a do julgamento, onde afirma ser ateu, mas pede a absolvição daquele que, involuntariamente tirou a vida de seu filho.
O filme investe numa dupla narrativa: Chico velho e Chico jovem (criança e adulto) retratados de forma alternada, sem, contudo, acarretar nenhum tipo de complexidade na narração (trata-se de uma obra acessível, destinada ao chamado “grande público”). Não deixa de haver momentos que me pareceram pretensão artística: o primeiro deles se dá justamente na cena inicial, na qual vemos gotas de um liquido sendo pingadas; a câmera está devera próxima do objeto que pinga as gotas e só conseguimos distinguir que trata-se de Chico pingando colírio em seus olhos – já estando velho – a medida que a câmera vai se afastando (remeteu-me a cena inicial de “Clube da Luta”); já a outra cena com supostas pretensões artísticas ficarei devendo, pois não lembro qual seja (assisti ao filme apenas uma vez antes de resenha-lo). Como não poderia deixar de ser, há clichês, sendo dois deles mais nítidos: quando o personagem de Ramos pede a Chico que psicografe ao vivo durante o programa de televisão é fácil deduzir que a carta será do filho daquele. E o final nada tem de abrupto: sabemos bem “o filme está acabando” a medida que a película de aproxima de seu final.
Um aspecto insuspeito a ser destacado é a ironia de Chico mostrada no filme; esta não aparece nele enquanto criança ou jovem, mas aparece no Chico maduro, sobretudo na cena da entrevista. Isto remete a outra coisa, a qual, curiosamente, foi o que me fez ter vontade de escrever sobre o filme: durante seus créditos finais são mostrados trechos da entrevista da participação de Chico no programa de televisão (o Chico real) e podemos constatar que algumas das falas do personagem no filme durante a entrevista são reproduções exatas daquilo que Chico falara na vida real (como sua fala não condenatória do sexo e a reza do pai nosso por ele iniciada), ao passo que outra de suas falas foi adaptada numa cena que mostrava o acontecimento em “tempo real” (trata-se do episodio em que, durante uma turbulência no avião, Chico teria entrado em estado de pânico, tanto quanto os demais passageiros, sendo censurado por seu espírito guia, Emanuel, a quem, no entanto, ele não dera ouvidos). Este fato é demasiado importante, pois expressa que em pelo menos parte do filme procurou-se ser o mais fiel possível a realidade histórica (aqui poderíamos entrar na espinhosa questão de até onde se pode admitir a licença poética quando se trata de adaptar uma obra baseada em fatos reais – pessoalmente acho bastante problemático e arriscado misturar realidade e ficção, sendo partidário de documentários no que concerne a retratar fatos/ personagens históricos, mas não sou ortodoxo quanto a isso). Cabe salientar que justamente nestes trechos de falas do Chico real nos créditos finais podemos notar ainda mais que no personagem cinematográfico traços de ironia, ainda que esta nunca descambe para o sarcasmo, sendo sempre polida e indicando mais inteligência do que puro escárnio.
Quero passar agora a uma discussão mais pessoal da obra: ela opta por focar na vida e obras do personagem, não se atendo muito a explicitar quais seriam as bases do espiritismo (exceto a questão da caridade e da tolerância – ao contrário de um filme como “Amor além da vida” que, até onde me lembro, se aproxima muito, seja da doutrina espírita, seja da formulação filosófica na qual ela supostamente bebe, mostrando inclusive o além desta vida a qual estamos acostumados). E apesar de não adentrar nestas formulações mais específicas do espiritismo (isto se encontrará nos livros para quem se interessar e pasmem! li a anos atrás um livro espírita chamado “Nosso lar”, o qual me pareceu deveras esclarecedor acerca da perspectiva por eles defendida), o filme aponta para dois aspectos éticos que me deram muito o que pensar: 1) a postura do não aceitar retribuição do favor para si mesmo, mas de pedir para que esta seja repassada para outrem (me remeteu ao filme “Corrente do bem”); 2) o imperativo de quebrar os limites que nós mesmos nos impomos: reclamarmos menos e agirmos mais, como quando vemos escorrer sangue do olho de Chico, em virtude do excesso de trabalho no qual ele se engajou (chegando a cuidar mais dos outros que de si mesmo, a ponto de seus familiares lhe darem o ultimato: “ou você sai dessa casa ou saímos nós”, tendo em vista que durante todo o dia o médium recebia dezenas, quiçá centenas de pessoas em sua residência – que não era só sua).
Em suma, apesar do predomínio de atores globais nos papeis principais o filme não se torna “novelesco” demais nem piegas. No entanto, passa longe de ser um filme artístico, um documentário aprofundado ou um primor do entretenimento que mereça ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro (vencer tal categoria é uma velha meta tupiniquim nunca alcançada...). Parece-me se tratar de um filme de entretenimento com doses de profundidade no âmbito ético. E o que é mais importante, no meu ponto de vista: trata-se de um filme que faz pensar. Ou pelo menos se propõe a isso.

Alberto Bezerra de Abreu 20/04/2010
domingo, 20 de junho de 2010

PostHeaderIcon Breves considerações a respeito do Oscar® 2010: dicotomia forma versus conteúdo?

Avatar

Guerra ao terror

Bastardos inglórios

A fita branca



Perdi qualquer interesse pelo Oscar ainda antes de deixar a pré-adolescência. Na verdade, listas e premiações me parecem excessivamente questionáveis. Afinal de contas, quais os critérios para julgar a qualidade de algo objetivamente? No caso do Oscar há agravantes: tudo ali me cheira a artificialismo. Parece-me tudo mera encenação. Cannes me parece bastante questionável, porém sério. O Oscar não. Afinal de contas, como levar a sério uma premiação que indica um filme como “Avatar” a categoria de melhor filme?
Abro aqui um parêntese para denunciar minha arbitrariedade de julgamento: não assisti “Avatar”. No entanto, pelo que li a respeito (e nem se tratava duma crítica detratora), bem como pelo trailer que assisti (quando fui ver “Bastardos inglórios” em novembro de 2009, última vez que pisei num cinema comercial, o que voltei a fazer após anos de abstinência), me senti impelido a não ir. Se, por um momento pensei em ir foi só pelo fato de a resenha vender o filme como uma verdadeira revolução técnica da sétima arte, comparável talvez à aquisição de som e cor. Isso muito me interessa por eu estudar teoria do cinema. Afinal de contas, quanto maior for a potencialidade da forma (e nosso poder de manipulá-la), maiores serão as potencialidades do conteúdo. O problema de “Avatar” parece ser o de que o conteúdo não passa de mera justificativa (ou antes desculpa) para mostrar-se a excelência técnica alcançada. Os efeitos especiais parecem então terem fim em si mesmos, sendo o enredo algo secundário. Talvez haja exagero em meu argumento, mas não acredito que ele seja de todo destituído de validade.
Fechado o parêntese, voltemos ao Oscar 2010 (de maneira bastante breve, pois me faltam informações e, sobretudo paciência para tecer maiores comentários a respeito). A cerimônia do presente ano mereceu atenção acima da média por conta da acirrada polarização entre o milionário (e apostador na forma) “Avatar”, de James Cameron e o “pobre” (e supostamente apostador no conteúdo) “Guerra ao terror”, de Kathryn Bigelow. Não por acaso cada filme foi indicado a nove categorias; os dois cineastas foram casados, o que confere maior dramaticidade à polarização. Apesar da mediocridade de tal apelação (e não fui eu quem inferiu que o empate técnico em indicações foi estrategicamente calculado; reproduzo aqui algo que li num jornal, por ter achado uma interpretação bastante coerente com aquilo que conheço da cerimônia do Oscar), acredito num avanço: trata-se da indicação de 10 filmes (antes eram 5), o que garante maior versatilidade (palavra essa que parece incomodar aos conservadores votantes da cerimônia em se tratando de inovações).
Dentre todos os indicados, assisti apenas a dois (“Bastardos inglórios”, como já havia dito – o qual gostei, mas não tanto quanto outros de Tarantino, sobretudo os dois primeiros – e “A fita branca”, do qual não gostei). Partindo desta falta de informação e de interesse acerca da cerimônia deste ano (só não estive de todo alienado dela por ter lido duas ou três matérias de jornais – já que quase sempre dou uma olhada nas páginas de cultura nos fins de semana), limitar-me-ei a comentar minhas previsões; dentre as poucas que me atrevi a fazer, só errei em uma: jurava que Meryl Streep (“Julie & Julia”) ganharia o Oscar de atriz principal, desbancando Sandra Bullock (“Um sonho possível”). Jeff Bridges (“Coração Louco”) e Christoph Waltz (“Bastardos inglórios”), respectivamente como atores principal e coadjuvante não me surpreenderam. Em relação ao filme estrangeiro, adorei a vitória de “O segredo de seus olhos” (Argentina) desbancando “A fita branca” (Alemanha, supostamente favorito) e “A teta assustada” (Peru), mas não havia feito nenhuma previsão a respeito. Quanto à vitória de Bigelow como melhor diretora (desbancando Cameron também na categoria melhor filme), não me surpreendeu (mas não saberia explicar o motivo).
Em suma, mais uma premiação do Oscar que pouco ou nada acrescenta aos apreciadores dum cinema autoral, (algumas vezes pretensamente, outras vezes efetivamente mais profundo). Se alguém souber o motivo de eu ter perdido tempo redigindo um texto sobre isso me avise.


Alberto Bezerra de Abreu (março/abril de 2010)
sexta-feira, 11 de junho de 2010

PostHeaderIcon Quanto mais quente melhor: humor, astúcia e sensualidade








Sexta passada fui assistir ao filme “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, 1959), que deu continuidade a sessão de arte do cinema São Luiz. É interessante notar que os dois primeiros filmes dessa retomada da sessão de arte (vide postagens anteriores) sejam comedias (a estreia se deu com “Meu Tio” de Jacques Tati). Isto me levou a pensar que o título mais apropriado seria sessão de clássicos e não de arte (concebo filmes de arte que sejam comedias, mas certamente “Quanto mais quente melhor” não pode ser taxado de artístico, pelo menos assim penso eu; além disso, na programação inicialmente anunciada há filmes das décadas de 1950 a 1970, não contemplando, portanto, filmes de arte recentes). Para mim se tratam de filmes consagrados, mas não é objetivo deste texto tratar disso, mas do filme em questão.

Pode parecer estranho, mas ainda que tenha achado “Meu Tio” mais engraçado, considero “Quanto mais quente melhor” mais bem feito (roteiro me parece mais bem amarrado, fazendo o filme fluir melhor, as atuações são superiores); o enredo trata de uma dupla de músicos que presencia um crime e é obrigada a fugir da máfia (disfarçando-se de mulheres acabam embarcando num trem e ingressando numa banda só de garotas); o interesse de um impagável (e um tanto repugnante) velho milionário por “Daphne” (nome adotado pelo personagem Jerry, interpretado por Jack Lemmon) rende momentos engraçados (destaque para a cena em que “Daphne” chacoalha maracás no quarto do hotel, comemorando seu noivado com o velho milionário, bem como a clássica cena final na qual, tentando livrar-se do velho, “Daphne” afirma: “não sou loira natural”, “eu fumo”, “não posso ter filhos” e, por fim, percebendo que seus argumentos não dissuadiam o interesse do milionário, após retirar a peruca: “eu sou homem”, ao que o idoso replica na mais pura tranqüilidade: “ninguém é perfeito”).

O personagem Joe (interpretado por Tony Curtis e que adota o codinome “Josephine”) protagoniza uma das cenas mais impagáveis do filme; ao saber que Sugar (Marilyn Monroe, carnuda e apetitosa!) está a procura de um milionário e que ela tem uma queda por homens de óculos (que lhe parecem mais sensíveis), ele se traveste e incorpora um milionário sensível e mal sucedido com as mulheres; o primeiro encontro deles se dá na praia e a maneira absolutamente cínica como ele se faz notar por ela e vai esnobando-a em seguida – ela diz que toca numa banda de jazz, ao que ele replica algo do tipo: “ah, aquela música rápida. Prefiro música clássica” – é deveras cômica. O mesmo se dá na cena em que ambos estão no iate (conseguido na mais pura malandragem), e ele afirma que após a morte de sua amada, nunca mais sentiu nada por outra mulher; vemos então o personagem de Marilyn dando-lhe sucessivos beijos (almejados por todos os homens do planeta, ou quase) e ele desdenhando (por puro fingimento), gerando uma situação na qual é a beldade feminina quem se joga aos pés de um homem que não era particularmente bonito ou culto, sendo rico apenas na aparência, mas muito inteligente (no sentido de astuto).

Vendo-se obrigados a fugir (pois por uma trágica coincidência os mafiosos foram parar no mesmo hotel e acabaram descobrindo o disfarce de “Josephine” e “Daphne”), Joe telefona para Sugar dizendo que precisou viajar e não mais irá voltar. Ao falar com ela, já como “Josephine” (obviamente ela não sabia desta dupla identidade), ele(a) diz a Sugar que ela irá esquecer o milionário por quem se apaixonara, mas ela retruca: como, se a em toda esquina há um posto Shell (ele dissera ser dono de tal empresa).

Em suma, um filme leve, divertido, bem feito, contando com boas atuações e com uma Marilyn Monroe hipnótica. Passa longe de arte, mas merece sem dúvida a alcunha de clássico.


Alberto Bezerra de Abreu, 11/06/2010

sábado, 5 de junho de 2010

PostHeaderIcon Festival Varilux de Cinema Francês 2010 (Recife)

Oceanos

O profeta

Coco Chanel & Igor Stravinsky

O pequeno Licolau


Começou no último dia 03 (junho) o Festival Varilux de Cinema Francês, realizada em várias capitais brasileiras (entre eles o Recife, no Cinema da Fundação Joaquim Joaquim Nabuco). Serão exibidos produções recentes daqueles país que se destacaram.

O filme "Oceanos" (Jacques Cluzaud, Jacques Perrin, 2009) faz (segundo relatos, inclusive de um amigo meu) com que nos sintamos habitantes da imensidão marinha. Já "O Pofeta" (Jacques Audiard, 2008), vencedor de diversos prêmios e recentemente resenhado (e elogiado!) na revista Veja conta a história de um jovem que só encontra "prosperidade" ao ser preso e paulatinamente ganhar a confiança do chefe da facção dos córsicos.

Outros filmes, como "O dia da saia" (Jean-Paul Lilienfeld, 2008), o qual mostra uma exausta professora que faz seus alunos de reféns, "Coco Chanel & Igor Stravinsky" (Jan Kounen, 2009), pela simples menção ao fantástico compositor russo (Stravinsky, que parece ser personagem secundário) e "O pequeno Nicolau" (Laurent Tirard, 2008), aparentemente um poético e divertido relato da infância, parecem-me ótimas pedidas.

O festival irá até o dia 10 (quinta-feira), sempre no Cinema da Fundação.

Confiram a programação completa (Recife) em:
http://www.festivalcinefrances.com/programacao.php?id=8


Alberto Bezerra de Abreu, 05/06/2010
sexta-feira, 4 de junho de 2010

PostHeaderIcon Meu Tio: sátira a obsessão tecnológica








Como dito noutra postagem
(http://miradourocinematografico.blogspot.com/2010_05_16_archive.html), a retomada da sessão de arte do cinema São Luiz, após sua reabertura foi iniciada com o filme “Meu Tio” (Jacques Tati, 1958); trata-se duma sátira a obsessão pela tecnologia. O enredo é bastante simples: família abastarda (os Arpet) vivem numa casa cheia de apetrechos tecnológicos. A esposa persuade o marido a arrumar um emprego em sua fábrica para o Sr. Hulot (o tio do título, que é irmão da mulher citada). No entanto, este personagem excêntrico (que já aparecera em outros filmes do diretor, como “As férias do Sr. Hulot” de 1953) põe tudo a perder com seu jeito desastrado (a cena em que ele supostamente sobe na mesa para espiar a mulher no banheiro é cômica é foi já a primeira que me arrancou gargalhadas).
O filme começa e termina de maneira singela: mostra um grupo de cachorros perambulando pelas ruas dum bairro pobre (apesar de ser um filme franco-italiano, tanto o estilo como os cenários me remetem à Itália, mas segundo a resenha do livro “1001 filmes para ver antes de morrer”, a história se passa na França); entre outras cenas, vemos um grupo de crianças fazendo peraltices, como sacolejar carros para fazerem o motorista pensar que o carro de trás bateu em sua traseira e assoviar para fazer com que transeuntes olhem para trás e dêem com a cara num poste (travessuras deliciosas de infância que parecem não mais existir hoje em dia). As trapalhadas do Sr. Hulot na fábrica de seu cunhado, bem como a cômica cena dele subindo para seu quarto, no último andar duma pensão bastante modesta são bem divertidas, mas o foco é mesmo a casa dos Arpet. Definitivamente o Sr. Hulot não se dá bem com os aparelhos tecnológicos sofisticados da casa de seus parentes, cometendo sucessivos desastres. Mas o aspecto cômico do filme vai além disso: no jardim da residência há uma fonte com um peixe que cospe água; geralmente esta fonte fica desligada mas quando chega alguma visita, antes de acionar eletronicamente a abertura do portão a dona da casa liga a fonte; por vezes trata-se de alguém que não convém impressionar (o Sr. Hulot ou um entregador) e lá se põe ela a desligar o apetrecho. Parece-me que além de uma crítica a obsessão pela tecnologia, o diretor crítica também a futilidade da família burguesa excessivamente preocupada com aparências, bons modos, com o que é chique, etc. O contraste entre o bairro pobre e a casa sofisticada parece apontar para uma crítica social, mas esta não é aprofundada.
Confesso que meu interesse por este filme foi muito pequeno perto de outros anunciados para a tal sessão de arte (Bergman, Fellini e Truffaut, por exemplo), mas valeu muito a pena vê-lo, por três motivos: trata-se de um clássico (estando entre os “1001 filmes para assistir antes de morrer”, os quais tentarei resenhar aqui); é divertidíssimo (gargalhei de forma escandalosa no cinema a ponto se ser repreendido pela pessoa que me fazia companhia rs, mas em pouco tempo outras pessoas faziam o mesmo – acho que fui o primeiro) e por fim, contribui para a prosperidade do evento (infelizmente, ao término do filme foi possível perceber que a quantidade de pessoas fora bastante reduzida, o que pode comprometer a continuidade da exibição de clássicos de sétima arte a um preço bastante em conta – 4$ a inteira, 2$ a meia entrada).
Por fim, cabe expressar uma impressão: acredito que este filme (e possivelmente outros do diretor) tenha constituído grande influência para Roberto Benigni (“O monstro”, “A vida é bela”).


Alberto Bezerra de Abre, 04/06/2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010

PostHeaderIcon A perfeita fruição do tempo em Polícia, Adjetivo





*Pedro Sobral


O que é, por conseguinte, o tempo?
Se ninguém me perguntar eu o sei;
se eu quiser explicá-lo a quem me fizer essa
pergunta, já não saberei dizê-lo. (Santo Agostinho)


Curiosa a abordagem do tempo na narrativa do filme Polícia, Adjetivo (Politist, Adjectiv, Romênia, 2009, 115 minutos), de Corneliu Porumboiu. Na película nos é mostrado o dia a dia de um jovem policial romeno – o ator Dragos Bucur, completamente integrado à personagem – em sua benevolente investigação sobre a vida de um garoto que fuma haxixe e compartilha a droga com dois colegas de colégio.
Porumboiu, que já havia filmado À Leste de Bucareste (2006), mostra uma Romênia por um lado sequiosa de adentrar nas práticas da Europa contemporânea, por outro, ainda presa ao ranço de mais de duas décadas do regime comunista (sinônimo de atraso) personificado na figura do ditador Nicolae Ceausescu.
Para o jovem policial, o fato de um garoto fumar haxixe de quando em vez é considerado um delito de menor – talvez, minúsculo – potencial ofensivo. Intui, de forma humanista e depois de ter viajado na lua-de-mel à Itália, que as leis romenas mudarão em relação ao consumo de entorpecentes e se tornarão mais brandas – uma forma do país oriental ser identificado junto aos outros europeus. Como trabalhador livre, mas recém-egresso de uma tradição totalitária que perpassava conditio sine quae non todos os governos da Europa do Leste, o policial se submete a escrever relatórios pormenorizados acerca da rotina do garoto fumante. Sua investigação vai ao ponto de cronometrar os minutos gastos pelo adolescente em suas baforadas. Tudo isso, claro, é posto nos relatórios, servindo-se de uma linguagem pretensamente técnica, que soa, ao menos para um brasileiro, mais como literatura fantástica, devido ao nonsense da situação.
Polícia, Adjetivo é um filme de grandes qualidades: mostra-nos um retrato da vida diária de um país fora dos noticiários internacionais, por seu papel reduzido na cultura e comércio mundial, e talvez também por ter sido integrante da “Cortina de Ferro”; há a atuação segura de Dragos Bucur e o desfecho – sem concessões – da obra, no momento em que o delegado ao qual o jovem policial é subordinado se serve de um dicionário (valendo-se de sua autoridade em grande medida) para enterrar as pretensões do agente da lei de deixar o jovem drogado persistir, incólume, na sua vida de fumante e proto-traficante. O transcorrer lento do tempo, as demoradas tomadas em que se focaliza o protagonista por minutos a fio são, entretanto, os aspectos mais intrigantes do filme.
Depois de um dia de trabalho o policial volta para casa, cumprimenta a esposa e segue para a cozinha: esquenta a sopa, põe o caldo no prato, corta em pedaços o pão com as mãos, joga-os tal qual iscas na sopa quente e começa a comer. Na sala do modesto apartamento, a esposa vê um vídeo na internet – provavelmente no You Tube – de uma cantora local. O vídeo termina (na primeira exibição vinham legendas em português, era uma música romântica), a esposa vê uma vez mais. Termina a segunda exibição, ela põe novamente. Enquanto isso, na copa, a câmera estática filma o perfil do policial que segue sorvendo o caldo quente, fazendo o ruído característico de quem ou não recebeu a educação adequada para se portar à mesa, ou simplesmente está demais à vontade – e daí afrouxa as regras (nessa cena fiquei imaginando o quê viria a seguir: ele enfiará o dedo mínimo no ouvido para tirar cera?); a esposa continua ouvindo a mesma canção no computador. O policial, depois de terminar a sopa, pega outro prato. Come lentamente. Há, ademais, os takes em que o policial espia o adolescente se drogando por minutos. Ou quando escreve seu relatório burocrático, repleto de minúcias sobre o nada que observou.
A idéia do físico Einstein acerca da quadrimensionalidade do universo – as três mais óbvias acrescidas à do tempo, nunca fez tanto sentido quanto no filme Polícia, Adjetivo. A possibilidade de espiar os momentos romanescos das pessoas comuns foram registrados de modo hiper-realista na película de Porumboiu. Um deleite para os adeptos do voyeurismo e fãs de Big Brother em geral.


*Pedro Sobral é licenciado em história pela Universidade Católica de Pernambuco, bacharelando em ciências sociais pela UFPE, professor da rede pública e particular e cinéfilo nas horas vagas.
domingo, 16 de maio de 2010

PostHeaderIcon Retorno das sessões de arte no cinema São Luiz (Recife)

Visão interna do cinema São Luiz (Recife)


Seguindo meu costume de folhear despretensiosamente a página de cultura dos jornais no fim de semana, me deparei com uma ótima notícia: o cinema São Luiz (Recife), recentemente reaberto, voltará a exibir sessões de arte; nas sextas-feiras às 20h e aos sábados às 10h (o horário do sábado é ingrato, sobretudo para os boêmios, mas o horário de sexta casa bem cinema – cerveja =)

O primeiro filme desta retomada será exibido excepcionalmente neste domingo; trata-se da comédia “Meu Tio” (França, 1958), de Jacque Tati. Na pauta para os próximos fins de semana estão “Os incompreendidos” (França, 1959), de François Truffaut (imperdível), “Quanto mais quente melhor” (EUA, 1959), de Bily Wilder, “Morte em Veneza” (Itália, 1971), de Luchino Visconti, “A doce vida” (Itália, 1960), de Federico Fellini (também imperdível), obras (não especificadas) de Ingmar Bergman (podê-las ver no cinema será um êxtase!) e clássicos do cinema nacional, como “O homem do Sputnik” (Brasil, 1959), de Carlos Manga.


Abaixo segue o link da notícia completa:

www.diariodepernambuco.com.br/2010/05/16/viver4_0.asp


Alberto Bezerra de Abreu

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Alguém que escreve para viver, mas não vive para escrever; apaixonado pelas artes; misantropo humanista; intenso, efêmero e inconstante; sou aquele que pensa e que sente, que questiona e duvida, que escapa a si mesmo e aos outros. Sou o devir =)
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